Agricultura Americana

Agricultura americana volta ao ‘NORMAL’

E isso é uma má notícia, pois as cotações em 2014 podem não “cobrir” os custos do produtor daquele país. A reportagem d’A Granja obteve informações sobre a agricultura americana em visita aos Estados Unidos

Leandro Mariani Mittmann* [email protected]

Bill, Mayron, Vern e Matt (da esq. para a dir.), da família Schafer, que cultivam 1.540 hectares em Indiana/EUA: em milho e soja o custo de produção será superior à receita

Os americanos estão prestes a colher uma gigantesca safra de soja e milho, volume que vai levar as cotações a caírem, inclusive comprometendo a lucratividade dos produtores. De uma maneira geral, as receitas não vão nem ao menos cobrir os custos de produção. Já a pecuária viverá dias excelentes. E esses cenários deverão ser a realidade da agropecuária daquele país nos próximos anos. Enganou-se quem pensou que as cotações históricas das recentes safras seriam o “novo normal”. Essa definição e a descrição da conjuntura são do professor James Mintert, diretor do Centro de Agricultura Comercial da Universidade de Purdue, da cidade de West Lafayette, Estados Unidos Leandro Mariani Mittmann (EUA). A reportagem d’A Granja participou de entrevista com Mintert, um especialista em agricultura americana, que traçou perspectivas para aquele setor. A entrevista foi realizada um dia depois de o Departamento de Agricultura dos EUA anunciar a previsão de safra americana: recorde de 356,4 milhões de toneladas de milho e 103,9 milhões de soja, 16% a mais que em 2013. Na atual safra, que será colhida a partir de setembro, serão 39,4 milhões de hectares de milho, 31,5 milhões de soja e 4,1 milhões de algodão, além da cultura de inverno trigo, com 22,9 milhões de hectares. Soja e milho são cultivados praticamente nas mesmas regiões, e a produtividade de milho será recorde – algo em torno de 175 sacas/hectare. A cotação do bushel do cereal estava, em meados de agosto, em torno de US$ 3,65/ 3,70, uma baixa considerável em comparação aos quase US$ 7 de 2012, quando os EUA tiveram perdas históricas na produção por causa de uma estiagem. “O preço está abaixo do custo de produção. Muitos produtores estão vendendo abaixo do custo”, revelou o professor. A soja ganhou terreno do milho, visto que o produtor americano prevê mais ganhos com a oleaginosa em relação ao cereal.

Em relação aos ganhos, Mintert traçou o seguinte comparativo: em 2014, a lucratividade por hectare deverá ser negativa em US$ 500 para o milho e US$ Bill, Mayron, Vern e Matt (da esq. para a dir.), da família Schafer, que cultivam 1.540 hectares em Indiana/EUA: em milho e soja o custo de produção será superior à receita A GRANJA | 53 150 para a soja; no ano passado, houve empate no cereal e prejuízo de US$ 250 para a oleaginosa; em 2011, a lucratividade foi positiva em US$ 700 para o milho e US$ 175 para a soja. “Alguns não vão perder tanto; outros, mais”, descreveu. É importante acrescentar que nesses números está incluído o preço da terra, que deverá sofrer desvalorização nos próximos anos, adianta o professor. Mintert lembra que o subsídio do Governo americano à agricultura (Farm Bill), previsto entre US$ 63 e US$ 188/hectare para o milho (e valores menores para a soja) vai “suavizar as perdas, mas será uma ajuda modesta”. “Provavelmente este será o ambiente por vários anos”, anunciou. “Os últimos seis a sete anos foram exceção. Foram muitos lucrativos, os melhores. O pico de lucratividade em 2011 não vai mais acontecer”. E acrescentou: “Os últimos seis a sete anos não eram o ‘novo normal’. O normal é agora.”

Schafer Farms — A reportagem d’A Granja conheceu uma típica fazenda americana, a Schafer Farms, cujos proprietários admitem que a receita de soja e milho não deverá ser superior aos custos neste ano. Os irmãos Vern e Mayron Schafer, 60 e 62 anos, o filho do primeiro Matt, 35, e Bill, 32, genro de Vern, cultivam na cidade de La Crosse, condado de LaPorte, estado da Indiana, 1.540 hectares divididos em 526 hectares do grão e 384 para sementes do cereal, soja (445), mais pepino em 66 hectares, além de 85 cabeças de gado Angus, Simental e Hereford. Os produtores mantêm uma fazenda totalmente estruturada, com amplos galpões e silos, dois terços de área irrigada por pivô, além de maquinário potente, inclusive caminhões. Raramente contratam mão de obra (mencionam empregados para meio período), e confidenciam que as quatro famílias têm um bom padrão de vida com a renda da propriedade. Eles são formados no curso superior de Gestão em Negócios Agrícolas na Universidade de Purdue.

Os produtores mantêm todos os dados da fazenda devidamente contabilizados, e concluíram que os custos de produção deste ano serão de US$ 1.530 por hectare para o milho e US$ 1.035 para a soja, dispêndios superiores ao que receberão pelas safras. Cerca de um terço da área cultivada pelos Schafer é arrendada, cujo valor do aluguel não revelam (na região, a média é US$ 300/hectare). A cotação em meados de agosto estava em US$ 3,30 o bushel de milho e US$ 10 o de soja. Como produzem um milho diferenciado, com uma fermentação mais alta, recebem 80 centavos de dólar a mais por bushel. A estimativa de produtividade para esta safra é de 192/193 sacas/hectare de milho e 66 sacas de soja. Mesmo assim, haverá um desequilíbrio da receita/ custos, e poderão ter que apelar ao apoio do Governo. Ainda que 25% do preço do milho esteja “travado” a US$ 4,50 o bushel. Mas o que mais surpreende da fazenda, além da estrutura aparentemente completa para o trabalho, é a facilidade que eles têm para transportar a safra. Ao lado passa uma estrada de ferro e eles mesmos transportam a safra por caminhão a uma distância máxima de 100 quilômetros.

* O jornalista esteve nestes locais a convite da Dow AgroScienses, cuja reportagem sobre a visita à sede da empresa está na página 56.