Glauber em Campo

 

PRODUTOR, FIQUE ATENTO ÀS RECOMENDAÇÕES. QUEM PAGA A CONTA É VOCÊ

GLAUBER SILVEIRA

Estamos acompanhando um retrocesso na agricultura brasileira, o que chamamos de intermediação técnica, ou seja, a assistência técnica, tão importante ao produtor, tem sido realizada por agentes errados. E essa assistência que está chegando ao produtor e que deveria ser positiva e instrutiva tem sido realizada principalmente por vendedores de defensivos, que têm acima de tudo um interesse primordial, vender produtos e ganhar comissão.

O reflexo dessa intermediação técnica fica evidente nos custos de produção e refletem-se diretamente nos custos com defensivos. Veja que, para a próxima safra, temos um custo de R$ 603,64 por hectare para Mato Grosso, a preços da saca de soja estimados em R$ 50 para a próxima safra. Temos um desembolso de 12 sacas para pagar os custos com inseticidas, herbicidas e fungicidas, lembrando que historicamente os custos sempre foram em torno de seis a sete sacas.

Claro que parte desse incremento de custo é reflexo da ferrugem asiática, da helicoverpa, etc., e também da falta de novos produtos mais eficientes. E a morosidade dos registros tem causado danos ao produtor. Pelo que tenho visto a campo, e acompanhamos pelo projeto Soja Brasil, podese dizer que de três a quatro sacas de soja estão indo para o ralo em custos devido ao mau posicionamento de defensivos ou seu uso indevido ao se seguir recomendação de revendas e multinacionais, que têm só um objetivo: vender e vender para auferir lucro.

É importante deixar claro que existem revendas e multinacionais com comportamento ético, que realizam um belo trabalho de orientação ao produtor, mas o que deveria ser regra tem se tornado exceção. E os jovens “vendedores” que deveriam estar realmente orientando, ajudando no manejo de pragas, têm se aproveitado da insegurança e da falta de conhecimento dos produtores para vender fórmulas mirabolantes e empurrar diversas aplicações que não se sabe se são ou não necessárias. Isso tem afetado o custo e o manejo das culturas para o futuro.

A assistência técnica que era realizada por instituições de pesquisa, fundações, Embrapa, Emater, Empaer, etc., nos últimos anos, por falta de recursos e direcionamentos, tem sido levada quase à extinção. E isso tem sido danoso ao produtor, afinal, aquela informação ou recomendação que seria ética e baseada principalmente no custo/benefício hoje tem se tornado uma raridade.

Por outro lado, os produtores possuem sua parcela de culpa, pois prestigiam mais um evento realizado por uma empresa ou multinacional que quer lhe apresentar um novo produto ou máquina, do que ir a um evento de uma instituição sem fins lucrativos cujo objetivo é lhe dar a orientação desvinculada. Recordo- me dos eventos da Fundação MT, no Mato Grosso, nos quais os produtores se reuniam e trocavam experiências e com isso veja o ganho que tivemos. Mas hoje poucos produtores comparecem a esses eventos, no máximo mandam seu técnico de campo.

A intermediação técnica tem sido um problema que tem gerado custos, danos ambientais e de sobrevivência das tecnologias. É preciso gerenciar com muita cautela custos que crescem a cada safra e ultrapassam 12 sacas por hectare como no caso dos defensivos, custos esses que, em alguns casos, chegam a 15 ou 16 sacas/hectare. Para um produtor que planta mil hectares, estamos falando de pelo menos 4 mil sacas de custos.

Como uma das alternativas a esse problema, a Aprosoja tem recomendado a formação de grupos regionais para discussão técnica, e também a contratação de técnico em conjunto para buscar ter uma assistência desvinculada. Mas é preciso tomar cuidado e ficar de olho se o seu técnico for convidado para ir a pescarias que chamo de “pega- pato”, pois elas custam caro para seu bolso. Infelizmente, neste mundo capitalista a “venda” tem sobressaído à ética.

Precisamos cobrar das nossas instituições eventos técnicos, como foi à Caravana da Embrapa na safra anterior, que nos orientem sobre a real necessidade e o melhor manejo de controle. Mas nós produtores devemos também priorizar a busca da informação correta e desvinculada. Não podemos ter somente a recomendação de defensivos do vendedor- empurrador. Isso tem sido uma tragédia para o manejo das culturas e para nosso bolso.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT