Soja

 

Os perigos da tentadora SAFRINHA de soja

Apesar da vantagem econômica, do ponto de vista técnico, são muitos e comprovados os prejuízos do plantio de soja sobre soja no mesmo ano agrícola

Ivan Pedro, pesquisador da Fundação MT

Ocultivo da soja “safrinha”, também denominada soja de “segunda safra”, vem aumentando entre as principais áreas sojicultoras, sobretudo no Estado de Mato Grosso. O principal fator que tem estimulado essa prática entre a classe produtora é o mercado, especificamente os baixos preços de milho associados ao elevado custo com a logística (escoamento da produção), o que o torna pouco competitivo em termos de receita. O sistema de produção mais adotado no Estado de Mato Grosso tem sido soja no verão, seguida por milho safrinha. No entanto, aspectos econômicos levaram a substituição deste último pela primeira, gerando um cenário de monocultura com a oleaginosa. Desse modo, tem-se o cultivo de soja em safrinha seguido pelo cultivo de soja de verão.

Nesse contexto, surgem alguns questionamentos sobre essa prática e possivelmente algumas consequências ao longo do tempo. A discussão não pode ser feita de forma pontual como está sendo feita nas últimas safras e principalmente analisando apenas os aspectos mercadológicos das commodities. Há necessidade de analisar o seguinte: o que o cultivo de soja em segunda safra pode implicar para o cultivo da soja em primeira safra? Quais os riscos para quem vai cultivar soja sobre soja a curto, médio e longo prazos? Por que as produtividades de soja não estão aumentando? Afinal, há responsabilidades de todos os envolvidos na cadeia da soja sobre as decisões tomadas.

Em face dessa atmosfera, algumas questões técnicas vêm à tona e, consequentemente, geram incertezas e conflito de opiniões. No entanto, existe uma preocupação em termos gerais sobre os efeitos resultantes dessa prática para a cultura da soja. Entre os principais agravantes, tem-se os pontos a seguir:

- Potencial produtivo reduzido em função do fotoperíodo: a soja é uma cultura muito afetada pelo fotoperíodo, sendo que as variedades comerciais disponíveis no mercado hoje, quando semeadas em janeiro/fevereiro, terão porte e o ciclo reduzidos significativamente, em relação às mesmas quando cultivadas em setembro, outubro e novembro. Associado a isso, há o efeito da restrição hídrica entre os meses de março e abril, o que afetará o enchimento de grãos.

- Favorecimento do aumento da população de nematoides: com o cultivo da soja após soja dentro do mesmo ano agrícola, a tendência é que o problema aumente. Segundo dados da Associação dos Produtores de Sementes de Mato Grosso (Aprosmat) (Miranda et.al, 2011), a maioria das variedades de soja avaliadas são suscetíveis aos principais nematoides da cultura. Isso permite concluir que muitas cultivares de soja são as maiores multiplicadoras desses nematoides. Por mais que as empresas de melhoramento genético estejam empenhadas em desenvolver e oferecer aos produtores variedades com resistência genética aos nematoides, essa resistência não pode ser utilizada como ferramenta exclusiva no manejo. Devem ser integrados vários métodos, dentre eles a rotação de culturas.

- Dificuldades no manejo de doenças, especificamente a ferrugem: certamente o segundo cultivo de soja sobre a soja de verão, em janeiro ou início de fevereiro, irá sofrer incidência de ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi) muito mais alta que o plantio na época recomendada. O segundo cultivo receberá, desde sua emergência, inóculo de ferrugem em grandes quantidades, aumentando a pressão da doença e demandando um maior número de aplicações de fungicidas e, muitas vezes, sem conseguir o controle satisfatório, ocasionando perdas de produtividade. Outro agravante é que o número excessivo de aplicações, além de aumentar o custo de produção, pode acelerar o surgimento de isolados resistentes em função do uso massivo dos mesmos ingredientes ativos (menor longevidade dos fungicidas). Além da ferrugem, doenças como antracnose, mancha alvo e podridões radiculares vêm crescendo assustadoramente nos últimos anos e podem encontrar nesse ambiente de soja sobre soja (“ponte verde”) condições ideais para se perpetuarem ao longo dos anos, sendo amplamente disseminadas entre as áreas cultivadas.

- Seleção de espécies de insetos para as safras seguintes; dificuldade de manejo futuro: o manejo de pragas, em particular daquelas polífagas, tem que ser planejado pensando- se em um sistema com diferentes cultivos e não com cultivos independentes. Desse modo, a introdução de cultivos safrinha, em particular de soja, pode gerar um problema em relação à manutenção das pragas nessa cultura, podendo gerar dificuldades de controle em razão de altas populações mantidas nesse período da safra, como também maior exposição dos insetos às moléculas utilizadas para controle. O resultado é a perda de eficácia de inseticidas em decorrência do elevado número de aplicações, desequilíbrio em relação a pragas e inimigos naturais, possibilidade de pragas secundárias tornarem-se primárias, etc.

Ivan Pedro: “Tecnicamente, a safrinha de soja é um erro muito grave e pode-se estar protagonizando cenários trágicos para a sojicultura brasileira”

- Pressão de seleção sobre plantas daninhas e dificuldades no manejo de culturas RR: tendo em vista que a grande maioria das variedades de soja utilizadas é de transgênica e possui resistência genética ao herbicida glifosato, é de se esperar uma maior pressão de seleção de ervas daninhas em razão da utilização do mesmo herbicida nas duas épocas de plantio sob extensas áreas de cultivo. Sabe-se que algumas ervas daninhas já possuem resistência a tal herbicida e essa prática certamente contribuirá para a seleção de outros biótipos, podendo agravar os casos de resistência.

- Comprometer a longevidade do sistema de plantio direto pelo aporte reduzido de carbono ao sistema e menor ciclagem de nutrientes: os benefícios do sistema de plantio direto são dependentes do tempo e do esquema de rotação de culturas. O plantio direto fundamenta-se em três pilares: não revolvimento do solo, cobertura do solo permanentemente e rotação de culturas. Esta última é fundamental para garantir a longevidade do sistema e contribui para as demais citadas (ciclagem de nutrientes, acúmulo de matéria seca no sistema, etc).

Do ponto de vista técnico, os exemplos citados reforçam os fatores agravantes do cultivo de soja sobre soja dentro do mesmo ano agrícola. A decisão dessa prática, apesar de ainda não regulamentada em termos legais, cabe ao produtor. No entanto, a visão técnica da pesquisa adota posição contrária em razão dos aspectos mencionados.

Visão de curto prazo — O modelo agrícola atual está focado excessivamente na visão de curto prazo, sendo que as decisões são tomadas objetivando, exclusivamente, o retorno econômico imediato e rendimento operacional, ou seja, sem fundamentos técnicos. Em um momento em que as condições fitossanitárias assustam os produtores devido ao impacto nos custos de produção e na perda de receita, diminuindo a renda do produtor, como, por exemplo, nematoides, lagartas de diferentes espécies, percevejos, mosca-branca, ferrugem, doenças radiculares, etc., os mesmos querem simplificar ainda mais e ir totalmente contra o que é relatado em todos os manuais e recomendações de boas práticas de manejo da lavoura, como fazer soja sobre soja dentro do mesmo ano de cultivo. Tecnicamente, é um erro muito grave e pode-se estar protagonizando cenários trágicos para a sojicultora brasileira. Vale a pena refletir, uma vez que tudo o que é feito na agricultura tem impacto na biologia do meio em que cultivamos a terra.