O Segredo de Quem Faz

Obsessão pela PRODUTIVIDADE do milho

Thais D’Avila

Uma tragédia familiar motivou uma guinada brusca na vida de Sérgio Bortolozzo. Com 19 anos, perdeu o pai e o irmão mais velho em um acidente automobilístico. Os dois buscavam, em Mato Grosso, terras para expandir a produção, iniciada em Araraquara/SP. Na época, Bortolozzo estudava medicina e acabou largando o curso para assumir a liderança dos negócios da família junto a outros três irmãos. Coube a eles iniciar a realização do sonho do pai, com a aquisição de terras em outras localidades – em especial no Piauí. Hoje, a empresa da família tem mais de 40 mil hectares plantados com diversas culturas. O empresário ainda assumiu recentemente a Presidência institucional da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho). Incansável, Bortolozzo tem, junto à entidade, um plano ambicioso: elevar a produção brasileira das atuais 80 milhões de toneladas para 150 milhões. Como viabilizar esse feito? Com a palavra, o dirigente.

A Granja - Como começou sua trajetória na produção agrícola?

Sérgio Bortolozzo - A minha família é de agricultores. A minha origem é do interior de São Paulo, Araraquara. Até hoje trabalhamos lá com cana-de-açúcar, café e gado. A família foi crescendo e junto cresceu a necessidade de abertura de novas áreas e novos campos de trabalho. A fazenda do pai era boa, mas pequena. Éramos cinco irmãos, e a perspectiva de tanta gente dependendo de uma mesma área era complicada.

A Granja – E como foi o início da compra de terras em outros locais?

Bortolozzo - Já pensando nisso, em mais terras, em 1978, meu pai e meu irmão mais velho viajaram para Rondonópolis/MT para visitar umas áreas. Na viagem, ocorreu um acidente fatal. Meu irmão mais velho estudava Agronomia e eu, Medicina. Com 19 anos, larguei a faculdade e fui tentar concluir a missão iniciada por eles. Dez anos depois, chegamos ao Piauí. Viemos eu e meus três irmãos e começamos em 1988 a desenvolver nossa atividade na Uruçuí, no cerrado piauiense. Uruçuí é um nome indígena, quer dizer “rio da abelha”. Fica na margem do Parnaíba. Nos mudamos com as famílias e nossos filhos são criados aqui. Hoje já estão trabalhando com a gente.

A Granja – Era uma região com alguma produção? Qual o papel de vocês no desenvolvimento da agricultura no Piauí?

Bortolozzo - Nós chegamos a uma região que não tinha nada, tivemos que desenvolver tudo. Hoje trabalhamos desde a armazenagem até a produção de soja, milho e algodão, e também na produção de eucalipto e na mineração de calcário.

A Granja – Mineração?

Bortolozzo - Sim. Não tinha calcário e criamos uma empresa para exploração de calcário que temos até hoje. Também desenvolvemos a armazenagem. Nós éramos os únicos que tinham uma empresa de recepção e estocagem. E depois, fizemos uma parceria muito forte com a Ceval, hoje Bunge, que temos até hoje.

A Granja – E a agricultura?

Bortolozzo - Começamos a plantar em 1988 mesmo. Arroz de sequeiro, fizemos vários testes na produção de soja, aprendemos muita coisa na época no Oeste baiano, que já tinha processo desenvolvido em Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, e também na região de Balsas, no Maranhão. A nossa região fica bem no meio. Fomos cocopiando a tecnologia deles. Até que a Ceval resolveu investir na região, em 1994, e foi quando se embalou a coisa. Quando, em 1999, a Bunge comprou a Ceval, nós continuamos com a parceria. E em 2003, a Bunge construiu uma esmagadora em Uruçuí e como nós já tínhamos uma parceria muito forte, fizemos outra parceria, começamos a plantar eucalipto pra manter a matriz energética na indústria. Por um longo período, durante a implantação da fábrica, o endereço da Bunge no Estado era na nossa fazenda (risos). Eles precisavam de uma pessoa jurídica e colocaram o endereço lá. Era uma relação plena de confiança, muito próxima.

A Granja - E como foi o seu ingresso no movimento de produtores?

Bortolozzo - Eu comecei com esse meu envolvimento classista já no Sindicato Rural de Araraquara, na década de 1980. Nós viemos pra cá, fundamos um sindicato que chamávamos de Sindigrãos. Aí eu fundei o Sindicato Rural de Uruçuí. Eu sempre achei que quem tem que decidir pelo produtor é, na verdade, o produtor. E a atividade classista é uma atividade que permite isso.

A Granja – E hoje você exerce diversos cargos de liderança?

Bortolozzo - Hoje eu sou vice-presidente da Federação de Agricultura do Piauí. Em 2007, eu fui convidado pelo ex-ministro da Agricultura, Odacir Klein, para fundar a Abramilho. Naquela ocasião, o ministro Klein foi o primeiro presidente executivo e montou-se uma diretoria e eu fui convidado, representando a Região Nordeste. Naquela época, trabalhamos muito a aprovação de tecnologias e biotecnologia. Em 2011/2012, quando ele foi para a Ubrabio (União Brasileira dos Produtores de Biodiesel e Bioquerosene), nós contratamos o Alysson Paolinelli como presidente executivo. Recentemente fui eleito, por aclamação, como presidente institucional da Abramilho para um mandato de quatro anos, sucedendo João Werlang.

A Granja – Paolinelli é presidente executivo e o senhor é o presidente institucional. Qual é a diferença entre os dois cargos?

Bortolozzo - Nós temos diretorias que são formadas por produtores, fundadores da Abramilho. E nós contratamos uma pessoa que não é eleita, é contratada. Como o ministro Klein foi contratado. Foram presidentes executivos. Eles que planejam e executam tudo. A diretoria dá apoio para as atividades deles. Foi nisso que nós sempre trabalhamos, e contratamos pessoas ligadas ao setor e pessoas com prestgio para abrir portas e fazer com que nossas demandas sejam ouvidas. Foi o que aconteceu com Klein e com Paolinelli.

A Granja – Você também é vice-presidente da Maizall - The International Maize Alliance, uma entidade de produtores das américas?

Bortolozzo - Quando nós começamos, a Abramilho foi convidada – a partir de uma articulação do ex-ministro Paolinelli – para se unir aos grandes produtores do continente americano. A Maizall é a união do National Corn Grower Association, dos Estados Unidos, da Maizar, da Argentina, e Abramilho do Brasil. Maizall quer dizer “milho para todos”. A Maizall é uma entidade internacional com sede no Panamá e vamos trocando as Presidências, pois temos posições de forças equivalentes lá. O primeiro presidente foi o norte-americano Julius Chaaf. A partir do ano que vem, eu serei o presidente. Nosso principal objetivo é realizar a abertura de mercados. Para o Brasil, é muito bom se unir com produtores que têm um mercado fundamentado como o norte-americano. Nós temos interesses na abertura de mercado, na aprovação de novas tecnologias.

A Granja – A Abramilho tem um projeto para aumentar a produção brasileira do cereal. Como pretendem trabalhar?

Bortolozzo - O Brasil tem uma produção de 80 milhões de toneladas por ano. A Abramilho tem um projeto que já está praticamente pronto e deverá ser lançado na próxima safra. Nosso levantamento mostra que o País pode chegar a 150 milhões de toneladas. Pretendemos aumentar a produção para quase dobrar nos próximos dez anos. É um projeto de restruturação da cadeia. Começamos a fazer algumas missões para abertura de mercados, porque o mercado interno não suporta um aumento (de produção). Para China, Coreia, que já são mercados tradicionais compradores, e fomos também para a Europa – que é onde nós queremos encaixar nosso produto, fazer a abertura de mercado.

A Granja - Mas os europeus têm resistência ao milho transgênico.

Bortolozzo – Eles têm que aceitar nossa tecnologia. Hoje existe resistência na Europa com o milho brasileiro, americano e argentino porque eles querem milho nãotransgênico. Acontece que existe carência de milho no mundo. Com a demanda mundial crescente, a população crescente e a renda mundial crescente, está aumentando o consumo e não tem como abastecer. E o Brasil aparece como principal fornecedor do consumo mundial. Estados Unidos e Argentina estão no limite de produção. O Brasil tem muito espaço para crescer. E o maior espaço para crescer no Brasil é na produtividade. Temos uma grande vantagem: é o único desses países que faz agricultura tropical. Podemos fazer duas, até três safras por ano. A safra de verão, safrinha - que já é safrão, maior do que a primeira - pode até trabalhar com pecuária na palhada. Fora a irrigação, pois tem pouca área irrigada.

A Granja – O senhor falou em terceira safra? Isso já é uma realidade que pode mudar o cenário de produção do grão?

Bortolozzo - Sim. Já tem muita gente no Centro-Oeste fazendo a terceira safra. Quando colhe a safrinha, já está formado o pasto. Justamente em uma época que falta pasto e aí já forma a palhada para próxima safra. É o único País que tem essa condição. E o mundo sabe disso.

A Granja – O que prevê este programa de restruturação que a Abramilho vai apresentar?

Bortolozzo - O que a Abramilho fez – o Programa de Restruturação da Cadeia Produtiva do Milho - é uma ideia do ex-ministro Paolinelli. O argumento dele foi “eu só vou para a Abramilho se levar meu projeto”. Ele acha, e nós achamos, que o grão do País tem que ser o milho. O norte-americano produz mais milho do que soja. O milho é a commodity mais importante do mundo. Para chegar ao projeto, contratamos a Fundação Dom Cabral, a Embrapa, a Universidade de Lavras/MG e a Esalq. Fizemos um estudo, ao longo de 2012 e 2013, realizando levantamentos nas regiões, das necessidades, encontros com os produtores e vamos apresentar essa ideia. Está faltando definir algumas coisas relativas a seguro agrícola – tem que ser seguro de renda. Não só seguro contra catástrofe, que segure o sistema financeiro. Queremos trabalhar na questão de renda. Nesta safra não deu tempo. Mas com certeza para o próximo Plano Safra vai ter alguma coisa.

A Granja – E em relação à produtividade, quais os planos?

Bortolozzo - A produtividade nossa é muito baixa. A média do Brasil é em torno de 4 mil quilos por hectare. A média da agricultura empresarial é oito (mil kg/ha). A meta é trabalhar tudo com 8 mil quilos por hectare. Atualmente, metade está produzindo 1,8 mil kg/ha, porque é pequena propriedade. Para elevar, estamos defendendo a biotecnologia. Milho resistente a inseto é tecnologia nova e foi aprovado na CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) por um trabalho do exministro Odacir Klein. Ele que abriu a porta para a entrada da biotecnologia do milho no Brasil. E agora está para sair o milho resistente a déficit hídrico. Com milho resistente, é possível aumentar a safrinha para 80%. Só que para isso nós precisamos abrir mercado porque senão o que vamos fazer com todo esse milho? Foi aí que se criou a necessidade da Maizall.

A Granja – E qual o papel da pesquisa brasileira nesse projeto?

Bortolozzo - Somos defensores de que a Embrapa tenha um papel destacado nisso. Infelizmente, a Embrapa não tem sido olhada pelo setor governamental como nós gostaríamos. Um país que não tem pesquisa é um país que está parado. Nós encontramos muita deficiência. Nós estamos implantando tecnologia desenvolvida por empresas de outros países. Mas como isso tem custo elevado, a pequena propriedade não tem acesso. Só a agricultura empresarial está se beneficiando. No projeto está a inclusão dos pequenos produtores. Temos dificuldade é na adoção da biotecnologia pelos pequenos produtores. Primeiro, por causa do custo. Nós estamos trabalhando a viabilidade da adoção do projeto também pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. É um relacionamento muito bom, mas temos maior apoio do Ministério da Agricultura.

A Granja – O senhor falou em abertura de mercado para suportar uma produção maior. Hoje o Brasil produz 80 milhões de toneladas e tem um consumo de 55 milhões. Entretanto, os maiores consumidores do grão, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, em função da produção de suínos e aves, sofrem com a falta do cereal para ração. O que acontece?

Bortolozzo - Está faltando algo na equação. Temos 25 milhões de toneladas de excedente. Existe um programa de subvenção do milho para o Centro-Oeste. Só que esses leilões acabam prejudicando os produtores de milho do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Está trazendo milho de lá (Centro-Oeste), com subvenção. O mesmo acontece no Nordeste. Nós estamos produzindo milho para abastecer o Nordeste e de repente chega milho do Mato Grosso a um custo muito menor. E o nosso passa a não ser competitivo. E a diferença do preço o Governo banca por subvenção. Mas ele causa um mal-estar com os produtores das regiões. Os produtores daqui não querem que venha milho do Centro-Oeste. É um imbróglio grande. Se a gente tivesse um mercado pra exportar e cada região produzisse o seu, nós teríamos mais competitividade. Para o produtor brasileiro, importar milho é um crime. Mas para o granjeiro é importante. Deste projeto que estamos fazendo, prevemos, dentro disso, alguns estudos, dos quais algumas propostas serão encaminhadas para resolver isso também. Temos consciência e está sendo trabalhada a questão da comercialização interna.