Reportagem de Capa

 

Momento de GERENCIAR os riscos

Às vésperas do início do plantio de uma nova safra, as perspectivas sobre a área plantada não são definitivas, mas o comportamento do mercado indica algumas tendências. Entre elas, que a rentabilidade do produtor poderá ser menor em comparação com os anos anteriores, consequência da queda nos preços de culturas como soja, milho e algodão. Por isso, é hora de planejar a lavoura com cautela, gerenciar ainda mais os riscos e prestar atenção à conjuntura internacional

Denise Saueressig
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O período que antecede o início do ciclo 2014/2015 vem acompanhado de apreensão em relação aos preços das commodities e de algumas incertezas sobre o cultivo da safra de verão no Brasil. O cenário tem diferenças em comparação com o que ocorreu nos últimos anos, quando a rentabilidade foi extremamente positiva, principalmente para a soja. Mas as mudanças deste ano não devem ser suficientes para provocar uma diminuição no plantio da oleaginosa no País. Capitalizados pelos resultados das últimas temporadas e com investimentos definidos previamente, os produtores devem dar continuidade ao aumento no cultivo, ainda que o incremento seja inferior ao registrado em 2013/2014. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a ampliação na área de soja na última safra foi de 8,6%, alcançando 30,11 milhões de hectares.

Para o próximo ciclo, observa o sócio-analista da Agroconsult Marcos Rubin, a estimativa é de um crescimento de 5% no plantio do grão, para 31,61 milhões de hectares. “A tendência é que, onde isso é possível, o agricultor continue substituindo o milho pela soja no verão e cultivando o cereal na safra de inverno”, destaca. Para a 1ª safra de milho, a consultoria aponta um recuo de 4% na área plantada, para 6,39 milhões de hectares. Já o cultivo da 2ª safra poderá ter aumento de 10%, alcançando 10 milhões de hectares. A projeção para a colheita da soja é de 95,1 milhões de toneladas, alta de 8% sobre 2013/2014. Para o milho, o crescimento também é estimado em 8%, com produção de 82,43 milhões de toneladas nas duas safras.

O analista Glauco Monte, diretor de commodities da INTL FCStone, também acredita em um aumento menos significativo para o plantio da soja na próxima safra. Na opinião dele, acréscimos no cultivo da oleaginosa poderão ocorrer entre os produtores que já tomaram suas decisões baseadas em planejamentos de longo prazo e em Estados em que a expansão vem sendo contínua, como Mato Grosso, Maranhão, Piauí e Tocantins. “Como também há alguma alta nos custos, é possível que lavouras em áreas marginais sejam repensadas em 2014/ 2015”, conclui.

Super oferta — A queda observada nos preços das principais commodities é resultado de uma grande co26 | AGOSTO 2014 REPORTAGEM DE CAPA lheita projetada para os principais produtores mundiais, o que inclui Estados Unidos, Brasil e Argentina. “As lavouras dos Estados Unidos apresentam a melhor condição dos últimos 15 anos, o que quer dizer que teremos uma oferta volumosa de milho e soja no mercado neste segundo semestre”, assinala Monte. No boletim de julho, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) estimou a produção de soja norte-americana em 103,42 milhões de toneladas. Se confirmado, o volume será inédito e 15,5% superior em relação ao ciclo 2013/2014. “Da mesma forma, a produção de milho está indo bem. Boas condições de clima sustentam um rendimento recorde na maior parte do Cinturão do Milho”, descreve a adida de agricultura do Usda no Brasil, Laura Geller

A colheita do cereal é projetada em 352 milhões de toneladas, bem semelhante ao número da safra anterior, quando os norte- americanos produziram 353,7 milhões de toneladas. “O estoque mundial de milho no período 2014/2015 deverá ser o maior dos últimos 15 anos”, relata Laura. De acordo com o Usda, os estoques norte-americanos do cereal em junho foram de 97,89 milhões de toneladas, 39% acima do volume do mesmo mês de 2013. Os preços altos vistos nos últimos anos vieram acompanhados de problemas climáticos que resultaram em recuos de produção, lembra o analista Marcos Rubin. “Acredito que, nesse momento, uma reversão dos preços só ocorreria com uma ocorrência climática séria”, completa.

No entanto, não há no cenário atual expectativa de perdas para a produção norte-americana ou para a produção brasileira. Para este ano, existe a previsão de ocorrência do fenômeno El Niño, o que, historicamente, significa um maior volume de chuvas para a Região Sul. “Se for confirmado, o El Niño poderá ajudar a produção dos Estados do Sul, onde é registrada a maior parte das quebras de safra no Brasil. A mesma consideração vale para a Argentina”, pontua Rubin.

Em função dessa perspectiva, o analista recomenda aos produtores a maior proteção possível dos custos da lavoura. “Os indícios são de que as margens serão inferiores em relação aos últimos três anos, o que exige um controle de custos muito maior. Por isso, é recomendável que o produtor trabalhe com menos riscos e com maior precisão. Ao mesmo tempo, ainda é cedo para falarmos de números sobre a rentabilidade, porque esse é um fator dinâmico e que poderá sofrer influência mais adiante”, avisa.

Novo recorde — A Agroconsult prevê um avanço de 5% para a área total de grãos a ser cultivada no Brasil em 2014/2015, o que totalizaria 59,3 milhões de hectares. A produção é estimada em 207,5 milhões de toneladas, um aumento de 8% sobre o ciclo anterior. Quando lançou o Plano Agrícola e Pecuário em maio, o Governo Federal anunciou R$ 156,1 bilhões para financiar uma safra de, pelo menos, 200 milhões de toneladas, o que seria um novo recorde para o País. O objetivo está mantido, mas os elementos do mercado não podem ser ignorados. “A tendência de redução na renda pode provocar reações diferentes entre os produtores, mas ainda assim deverão ser alguns ajustes de área”, declara o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Seneri Paludo.

Trabalhar a melhoria da infraestrutura de escoamento da produção continua sendo um dos grandes desafios do Governo para as próximas safras, complementa o secretário. “Sabemos que a logística tem interferência direta sobre a renda do agricultor”, resume. Da mesma forma, o Ministério acompanha o movimento de preços das culturas e deve lançar mão de mecanismos de apoio à comercialização quando for necessário.

Poucos negócios — No mês passado, as cotações na Bolsa de Chicago mostravam a soja com valores em torno de US$ 10,90 o bushel, com variação negativa de 11% em 30 dias. Para comparação, a safra 2013/2014 registrou cotação média de US$ 14 o bushel, chegando a até US$ 15 em alguns momentos. “Em Mato Grosso, a saca da soja chegou a ser vendida com preços acima de R$ 60, mas agora a sinalização é de cerca de R$ 50 para a comercialização da próxima safra”, salienta o analista Glauco Monte.

O ano eleitoral pode favorecer a volatilidade do câmbio, ressalva o especialista. Assim, se ocorrer uma alta do dólar, desde que não seja tarde demais, os produtores brasileiros podem ser beneficiados. A lentidão dos negócios mostra que a maioria dos sojicultores está insatisfeita com os preços. Segundo o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), em julho, apenas 1,9% da próxima safra havia sido vendida em Mato Grosso. Na mesma época do ano passado, a comercialização da colheita 2013/2014 era de 27,7% do total.

A posição do milho tem agravantes em relação à soja. O mercado brasileiro deve receber mais de 45 milhões de toneladas da 2ª safra 2013/ 1014 e, mesmo que o País exporte 21 milhões de toneladas, o estoque final será o maior dos últimos anos, de mais de 12 milhões de toneladas. “O cenário não é positivo, porque os preços do cereal para exportação estão bem parecidos com os praticados no mercado interno, em Mato Grosso”, cita Monte. Em meados de julho, a saca do milho em MT chegou a valer R$ 10, preço abaixo do mínimo para o Estado, que é de R$ 13,56. A situação até aqui indica a grande probabilidade de intervenção do Governo no mercado do cereal. Na Bolsa de Chicago, em julho, a commodity mostrava variação negativa de 12% em comparação com os valores de junho – de US$ 4,43 para US$ 3,88 por bushel.

Nelson Piccoli, diretor da Famato: momento de o produtor buscar conhecimento e prestar atenção à produtividade

Crescimento em MT — No Estado que mais produz grãos no País, o Imea estima um crescimento de 3,9% para a área a ser cultivada com soja em 2014/2015, o que resultará em 8,67 milhões de hectares. “Mas ainda não podemos descartar uma redução desse percentual”, menciona o diretor administrativo e financeiro da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Nelson Piccoli.

O custo da lavoura analisado em junho pelo Imea ficou em R$ 2.433 por hectare, número bem semelhante ao de 2013/2014. Para o diretor da Famato, esta será uma safra marcada pela maior cautela e não por novos investimentos. “O produtor deve se preocupar com a estrutura que já tem e com o acompanhamento da produtividade da sua lavoura. Buscar conhecimento e cuidar bem do seu dinheiro também é fundamental. Infelizmente, parece que poderemos vivivenciar um ou dois anos complicados para o agronegócio”, diz.

Produtor Hernandes Piccoli: prioridade é a diversificação de atividades na Fazenda Herkapi, em Sorriso/MT

Produtor rural em Sorriso/MT, Nelson Piccoli trabalha junto com o filho, Hernandes, na Fazenda Herkapi, de 1.634 hectares. A soja ocupa mil hectares no verão e o milho safrinha tem área variável entre 700 e 800 hectares. A família também produz feno para consumo próprio e para venda, e tem criação de gado de corte e de ovinos. Os rebanhos são mantidos em sistemas de integração lavoura-pecuária. Em julho, enquanto encaminhava o final da colheita do milho, a preocupação maior era com o preço do cereal. Segundo Hernandes, 50% da produção foi comercializada por valores em torno de R$ 15 a saca, mas no mês passado os preços caíram para R$ 11,50 em Sorriso.

Para a safra 2014/2015, a área de soja será a mesma dos últimos anos. Os insumos foram adquiridos em fevereiro, e cerca de 20% da produção foi vendida antecipadamente. Hernandes diz que é otimista em relação à oleaginosa. “Ano passado, meu primeiro lote foi vendido a R$ 41,50 a saca e, agora, na opção em reais, a cotação era de R$ 48,50”, informa, lembrando que a média do ano passado ficou em R$ 46,50. Para ele, ainda é cedo para falar sobre rentabilidade, já que as margens também dependem dos rendimentos da lavoura. Nos dois últimos anos, os problemas com chuva no momento da colheita provocaram queda nas produtividades da fazenda. No ciclo 2013/ 2014, a média foi de 49 sacas por hectare e, no ano retrasado, de 54 sacas por hectare. “Esperamos para a próxima safra, no mínimo, 60 sacas por hectare”, revela.

Para chegar ao objetivo, a família investiu em melhorias na fertilidade do solo, em agricultura de precisão e em sementes com maior aporte tecnológico. “Nosso foco é a diversificação e a produtividade das nossas áreas. Para o ano que vem, temos um projeto de irrigação que deve, inicialmente, atender lavouras de feijão”, prossegue.

Estabilidade nos arrozais — Depois de um incremento de 5% na área cultivada na última safra, a tendência é de estabilidade para o cultivo do arroz irrigado no ciclo 2014/2015 no Rio Grande do Sul. No principal Estado produtor no País, a área plantada em 2013/2014 foi de 1,12 milhão de hectares de um total de 2,396 milhões de hectares cultivados em todo o Brasil. A colheita gaúcha foi de 8,1 milhões de toneladas (2,3% acima da anterior), e a brasileira somou 12,184 milhões de toneladas (3,1% a mais). Para a Agroconsult, a área cultivada com o cereal no País deve se manter estável, assim como a produção.

Claudio Pereira, presidente do Irga: mercado firme deve favorecer a manutenção da área plantada com arroz no Rio Grande do Sul

O presidente do Instituto Rio- Grandense do Arroz (Irga), Claudio Pereira, acredita que a lavoura gaúcha deva se manter entre 1,1 milhão e 1,2 milhão de hectares na próxima temporada. “A estabilidade dos preços, com valores até melhores do que os do ano passado, em função do ajuste dos estoques e das exportações firmes, deve favorecer a decisão do produtor”, analisa. No mês passado, a saca de 50 quilos do arroz gaúcho valia entre R$ 35 e R$ 37.

Uma das preocupações do setor neste momento, segundo o dirigente, é com o excesso de chuvas registrado nos municípios gaúchos nas últimas semanas. “Tivemos problemas com áreas inundadas e com sistemas de irrigação danificados. Além disso, pode haver um atraso no plantio devido à dificuldade de preparo das áreas”, esclarece. Os custos também devem ficar estáveis e, se os preços mantiverem-se positivos, a rentabilidade do orizicultor pode ficar entre 15% e 20%, dependendo da região produtora e da produtividade. Na última safra, as lavouras gaúchas registraram um rendimento médio de 7.243 quilos por hectare, enquanto a média do Brasil foi de 5.085 quilos.

O que deve continuar crescendo na temporada 2014/2015 é o cultivo de soja em rotação com o arroz, nas áreas de várzea. Na safra passada, o plantio da oleaginosa chegou a cerca de 300 mil hectares nessas condições. Agora, a expectativa é de que possa ser contabilizada uma elevação entre 20% e 25%.

O benefício da rotação — Na Formosa Agropecuária, em São Gabriel/ RS, os irmãos Giuliani iniciaram o cultivo de soja na várzea do arroz na safra 2005/2006. A oleaginosa já era plantada em áreas de coxilha da fazenda, mas os rendimentos não eram positivos devido às seguidas estiagens na região. “Percebemos que, de cada cinco anos, quatro anos eram de seca. Por isso, decidimos inovar para tentar uma melhor receita na soja”, conta o produtor Alberto Giuliani Neto.

De 2005 até aqui, os resultados foram animadores. Os benefícios da rotação de culturas e do controle do arroz vermelho, principal planta daninha do cereal, ajudaram a incrementar a produtividade do arroz. Na safra 2006/2007, que marcou o primeiro plantio sobre a soja, o rendimento médio foi de 7,6 mil quilos por hectare. Já na última colheita, a produtividade foi de 12 mil quilos. A meta para o período 2014/2015 é chegar aos 12,3 mil quilos.

Produtor Alberto Giuliani Neto (à esquerda): arroz teve alta de produtividade desde que iniciou a rotação com a soja na Formosa Agropecuária

A área de soja sofreu com excesso de chuva na última safra e, em função disso, o rendimento médio foi de 36 sacas por hectare na área da várzea. Já no plantio da coxilha, o volume foi de 53 sacas por hectare. “O nosso objetivo é alcançar uma média de 60 sacas na soja e, para isso, estamos investindo em tecnologia. Uma das novidades é um planejamento que prevê a drenagem georreferenciada para aumentar a eficiência dos drenos na área de várzea”, frisa Giuliani. Para a próxima safra, como existe a previsão de ocorrência do fenômeno El Niño, a intenção é prorrogar o plantio da soja da segunda quinzena de outubro para a segunda quinzena de novembro.

Na safra 2014/2015 a família pretende cultivar 1.750 hectares de soja, sendo que 1.090 serão na várzea. Outros 720 hectares serão semeados com arroz. A fazenda também produz trigo e sementes de azevém e de aveia, além dos 500 hectares que são dedicados à pastagem do gado. Os irmãos Giuliani ainda trabalham com a produção de feno, com a locação de máquinas agrícolas e com o transporte de grãos.

Em média, os custos da próxima temporada subiram 8%, no cálculo dos irmãos Alberto, Sergio e Daniela, sócios na Formosa Agropecuária. Por enquanto, os preços não motivaram nenhuma venda da safra 2014/2015, mas normalmente 30% da colheita da soja é negociada antecipadamente. O arroz é comercializado em quatro etapas para minimizar os riscos. Como mantém estrutura própria na fazenda, a família consegue armazenar 70% do arroz e 50% da soja produzida. Com investimentos recentes realizados na estrutura de drenagem e em novos equipamentos e armazéns, os irmãos acreditam que o momento pede uma reserva de caixa para garantir a solidez dos negócios. “Os últimos anos foram bastante positivos para o agronegócio, mas agora as incertezas diante dos preços pedem mais cautela”, avalia Alberto.

Ernani Sabai, da Aiba: crescimento do cultivo de grãos no Oeste da Bahia deve ter continuação no ciclo 2014/2015

Evolução constante na Bahia — A queda nos preços das principais commodities não deve ser suficiente para desestimular os produtores do Oeste baiano. Com um crescimento contínuo na área plantada na última década, a região deve registrar um novo incremento na safra 2014/2015. Por enquanto, as perspectivas são de um aumento entre 4% e 5% para a soja e entre 5% e 7% para o milho.

Produção de grãos no Brasil em 2014/2015 poderá alcançar 207,5 milhões de toneladas, o que seria um aumento de 8% sobre a safra 2013/2014

As dúvidas ficam em relação do algodão, lavoura que exige um maior nível de tecnificação e que deve ter alta nos custos na próxima temporada. Na última safra, o produtor desembolsou R$ 5,7 mil para cultivar um hectare da pluma. Para 2014/2015, o valor deve subir para R$ 5,9 mil ou R$ 6 mil, estima o diretor de agronegócios da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Ernani Sabai. “O principal impacto deve vir da alta no preço dos defensivos”, conclui. Segundo o dirigente, os produtores vêm conseguindo bons resultados no combate à Helicoverpa armigera pelos trabalhos de orientação e estratégias de controle que vêm sendo realizados, mas a região também enfrenta problemas importantes com os ataques da mosca-branca e da lagartafalsa- medideira.

O último ano foi de recuperação para os produtores do Oeste baiano, que sofreram seguidas perdas em decorrência de uma estiagem iniciada em 2011/2012. “Houve melhora nos índices em 2013/2014, mas o nosso potencial é maior”, garante. Na soja, o aumento da área cultivada foi de 4,4%, para 1,3 milhão de hectares, e a produtividade melhorou 21%, ficando em 42 sacas por hectare. No entanto, em 2010/2011, o rendimento chegou a 56 sacas por hectare.

Produtor Celestino Zanella: atualização tecnológica e aumento da área plantada a cada nova safra na Fazenda Decisão

O algodão teve área de 308 mil hectares, um aumento de 21,5% sobre o ciclo anterior, mas a pluma já chegou a ser cultivada em 390 mil hectares na região. “Percebemos que houve migração para a soja e também rotação de culturas em função do frequente ataque de pragas nas plantações de algodão”, detalha Sabai. O milho teve alta de 7% na área, com o cultivo em 265 mil hectares, e a produtividade aumentou 19,3%, chegando a 147 sacas por hectare, volume ainda abaixo das 163 sacas já alcançadas.

No total, considerando as diversas culturas, o Oeste da Bahia contabilizou uma área plantada de 2,268 milhões de hectares no ciclo 2013/2014. O diretor da Aiba diz que o potencial da região é de 5,4 milhões de hectares, com respeito às Reservas Legais (RLs) e às Áreas de Preservação Permanente (APPs). “Além da motivação dos produtores, os projetos logísticos programados para os próximos anos devem colaborar para a continuidade do desenvolvimento da região”, acrescenta. Hoje, das 7,5 milhões de toneladas produzidas no Oeste baiano, 65% têm como destino os mercados do Norte e do Nordeste.

Atualização sempre — Nos 7 mil hectares da Fazenda Decisão, nos municípios de São Desidério e Barreiras, os investimentos são permanentes, mesmo que o cenário por vezes seja duvidoso. A intenção para a safra 2014/2015 é aumentar a área plantada em cerca de 10%, afirma o produtor Celestino Zanella. Além disso, novas máquinas e equipamentos voltados à agricultura de precisão foram recentemente adquiridos para o trabalho nas lavouras irrigadas de soja, milho, algodão e feijão. “Os agricultores da região têm visão de longo prazo e buscam sempre atualização. Mesmo depois de enfrentarmos duas safras seguidas com estiagem, foram mantidas as melhorias em tecnologia e fertilidade do solo”, ressalta Zanella.

Embora não saiba claramente qual o tamanho da alta nos custos, o produtor acredita que deve haver um acréscimo em comparação com a temporada anterior, especialmente em função da necessidade do controle de novas pragas. “A rentabilidade é incerta, até porque os preços estão caindo. Mas sabemos que a agricultura é uma atividade de alto risco e trabalhamos para manter nossos índices de produtividade em crescimento”, aponta. Segundo o produtor, as médias da fazenda vêm progredindo nos últimos anos. Na safra 2013/2014, a lavoura de soja registrou rendimento de 3,6 mil quilos por hectare, enquanto as áreas de milho tiveram média de 12 mil quilos por hectare. No algodão, a colheita ficou entre 330 e 350 arrobas por hectare e, no feijão, entre 50 e 55 sacas por hectare.


Incerteza para o algodão

Para os cotonicultores, as perspectivas em relação à safra 2014/2015 até agora não motivam um novo incremento na área plantada. No ciclo anterior, impulsionado pelos bons preços, o cultivo da pluma teve acréscimo de 25%, para 1,12 milhão de hectares. “Há cerca de dois meses, fizemos um levantamento com nossos associados e tínhamos a convicção de que a área seria, pelo menos, mantida. Mas com as mudanças no mercado, não podemos mais ter essa expectativa”, observa o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Gilson Pinesso (foto). O dirigente refere-se às quedas no preço da pluma que, em alguns momentos do mês passado, chegou a ficar próximo dos R$ 52 a arroba em Mato Grosso, ou seja, menos do que o preço mínimo de R$ 54,90. Há alguns meses, a pluma chegou a ser comercializada por valores de até R$ 70.

O aumento da oferta também é responsável pelo recuo nas cotações do algodão. Apenas no Brasil, a produção na última safra teve acréscimo de 29,5%, segundo a Conab, chegando a 1,697 milhão de toneladas. “No cenário internacional, a China, que é um grande comprador da pluma, vai aproveitar seus estoques e, por isso, deve adquirir menos de outros países nos próximos meses. Nos Estados Unidos, as lavouras estão bem no principal estado produtor, que é o Texas”, enumera o analista Marcos Rubin.

Em julho, a Agroconsult trabalhava com uma expectativa de alta de 9% para a área plantada com algodão na próxima safra, para 1,22 milhão de hectares. Esse crescimento, no entanto, deve ser concentrado nas áreas de algodão safrinha, que competem com o milho de 2ª safra. “Outro ponto importante é que provavelmente teremos leilões de Pepro (Prêmio Equalizador Pago ao Produtor) este ano, o que deve sustentar as intenções de plantio”, explica Rubin.

Embora não tenha uma visão otimista nesse momento, o presidente da Abrapa ressalva que as tendências não são definitivas e que a possibilidade de queda na área da pluma tem um limite pela própria especialização da lavoura de algodão. “Em regiões como Bahia e Piauí, onde os produtores podem fazer escolhas entre culturas, é provável que a opção seja pela soja. Em outros casos, também pode acontecer um cultivo com um menor investimento. O importante é que o produtor fique atento às contas, trabalhe com eficiência e priorize a produtividade das suas áreas”, argumenta. Segundo ele, não há projeção para alta no custo da próxima safra, que deve ficar próximo de R$ 5,8 mil por hectare, mesmo valor do ciclo 2013/2014.