Na Hora H

 

ESTÁ CHEGANDO A HORA

ALYSSON PAOLINELLI

Pelo que tenho ouvido e sentido, o nosso meio rural está ansioso para poder participar de forma mais incisiva e direta no processo eleitoral que se aproxima. Vejo de um lado a quase exaustão no processo produtivo que vinha até há pouco assustando o mundo inteiro pela sua capacidade produtiva, competitividade e força no mercado. Esse processo produtivo brasileiro saiu muito ferido nas batalhas dos chamados sete planos econômicos. Plano econômico para produtor desorganizado e que não é capaz de colocar preços em seus produtos, é ele mesmo a vítima, como são os trabalhadores assalariados que também não podem definir o seu salário. São os vilões desses planos e os únicos chamados para pagar a conta. No caso dos produtores rurais, a perplexidade é que nesses últimos quase 20 anos, em que não mais se falou em plano econômico, eles pensavam que já tivessem pago a conta. Pagaram sim.

A conta da dívida externa, que girava em torno de US$ 300 bilhões. Foi graças ao produto agrícola levado ao mercado internacional que essa dívida praticamente se expirou. Ao contrário, hoje temos um saldo em dólares em nossa conta corrente de mais de US$ 300 bilhões. Grande proeza. Em relação à famigerada dívida pública, surgida com a emissão de títulos públicos para custear despesas além das normais incluídas nos orçamentos anuais, era, no final do Governo Itamar Franco, de R$ 72 bilhões. Preocupado com esse descontrole, fui procurar o meu amigo Eliseu Rezende, então ministro da Fazenda, que me tranquilizou: “Paolinelli, esteja calmo. Só a arrecadação na privatização de três estatais cobre todo esse déficit. Pode ficar tranquilo. Estamos deixando as contas do Governo absolutamente controladas, e o Plano Real, que deverá continuar a ser um sucesso, vai colocar tudo no lugar.”

Fiquei aparentemente tranquilo, até que no Governo seguinte comecei a ver que as contas governamentais não estavam tão equilibradas assim, e que nos quatro primeiros anos do Governo Fernando Henrique Cardoso a nossa dívida pública já era de R$ 380 bilhões. O Governo alegava, justificando esse descalabro que teve de assumir grande parte das dívidas dos grandes municípios dos Estados e de alguns órgãos públicos. Não me conformei muito, porque acho que o nosso País não pode ser caloteiro. Se deve, tem de pagar. Quando chegou ao final do segundo período de Fernando Henrique Cardoso, a dívida pública já era quase R$ 1 trilhão. Apavoreime, pois sabia que um novo governo ou novas políticas e novos princípios não ia ter condições de pagar esse furo. Alguns amigos, sabendo da minha inquietação, tentaram-me acalmar mostrando a famosa Carta do PT à Nação, comprometendo-se a cumprir fielmente as regras de uma política econômica baseada em salutares bases. Não foi tanto assim. O presidente Lula transferiu à sua sucessora uma dívida pública com mais de R$ 2 trilhões.

Estamos agora próximos a uma nova eleição e eu gostaria de alertar aos meus caros companheiros produtores rurais que a dívida pública brasileira já ultrapassou a casa dos R$ 2,4 trilhões. Tenho o dever de alertar aos companheiros que nos entendamos bem com os trabalhadores assalariados porque juntos é que vamos ter que pagar mais uma vez essa brincadeira. Essa é a razão pela qual presumo que não só o produtor rural, mas a grande parcela da população que conhece e sente esstes lamentáveis erros cometidos em nossa economia estejam tão ansiosos por limpar em definitivo essa indesejável situação em que vive um país potencialmente tão rico e agora também competente. Devemos exigir mesmo em nossos diálogos com os candidatos à eleição de outubro, que se comprometam a extirpar essa horrorosa e incabível façanha de seus antecessores.