Gestão

 

Quais são os reais DESAFIOS do agronegócio?

As mudanças de caráter político-institucional estão no princípio dos grandes desafios de desenvolvimento não só dos segmentos econômicos isolados, como o agronegócio, mas da sociedade como um todo, sobretudo nos países emergentes

Alberto Duque Portugal, professor da Fundação Dom Cabral, Ph.D. em Sistemas Agrícolas e ex-presidente da Embrapa

A teoria de Inovação Induzida define o desenvolvimento como um processo resultante de mudanças tecnológicas e mudanças político- institucionais, que interagem sinergicamente, criando novas oportunidades e novos patamares de desenvolvimento. Essas mudanças originam-se na percepção de escassez ou de necessidade de um determinado insumo ou processo que gera na sociedade como um todo ou em grupos sociais uma demanda por mudanças que venham a atender aquela escassez ou necessidade. A sociedade ou os grupos sociais pressionam a estrutura de Governo e outros segmentos da sociedade para que as mudanças sejam implementadas.

O atual estádio de desenvolvimento do agronegócio brasileiro mostra que houve um grande avanço nas mudanças tecnológicas e que, embora continue a haver demanda por novas tecnologias, elas não se constituirão em gargalo para o desenvolvimento. É válido observar que as mudanças científicas e tecnológicas continuarão a ter um poder cada vez mais disruptivo sobre a realidade, na medida em que as áreas portadoras de futuro – bio e nanotecnologia e microeletrônica – integramse, criando novos produtos e processos, capazes de atender mais rapidamente as demandas do mercado e mudando vantagens consideradas, até então, competitivas.

Porém, são as mudanças de caráter político-institucional que estão na gênese dos grandes desafios de desenvolvimento não só dos segmentos econômicos isolados, como o agronegócio, mas da sociedade como um todo, e em especial na sociedade dos países emergentes. É bastante reconhecido o descompasso que há no mundo entre o grande dinamismo do desenvolvimento científico e tecnológico em comparação com o desenvolvimento lento de novos modelos e paradigmas de caráter políticoinstitucional, associados com democracia, mercados, meio ambiente, distribuição de riquezas, direitos humanos, entre outros.

Nos países emergentes, como o Brasil, o desenvolvimento lento e a pouca maturidade dos capitais intangíveis – especialmente o capital humano, o capital institucional e o capital social ou da confiança – fazem com que o descompasso seja mais evidente, já que as mudanças tecnológicas têm uma grande velocidade de disseminação via mercado, diferentemente das mudanças político- institucionais, que dependem dos capitais intangíveis e que, por sua vez, dependem fortemente da capacidade endógena das sociedades, que está associada à sua cultura e aos seus valores.

Para demonstrar a importância e a dificuldade de acelerar as mudanças político-institucionais vis-à-vis as mudanças tecnológicas, note-se que tecnologia desenvolve-se com a formação de bons pesquisadores – veja caso da Coreia e do próprio Brasil. Pode-se importar tecnologia ou bons cérebros, adaptar tecnologia, buscar benchmarking, etc. No caso de mudanças político- institucionais, depende-se essencialmente de transformações dentro da sociedade local, trabalhando com fatores cujo fortalecimento e maturação demandam tempo, pois estão associados com educação, cultura e outras características sociais e econômicas.

Partindo da premissa de que este quadro de descompasso se aplique ao caso brasileiro, com as ressalvas e exceções próprias por se tratar de uma área continental, ele é mais contundente no agronegócio, no setor rural, quando comparado com os outros segmentos da economia, que normalmente se desenvolvem no ambiente urbano.

Dificuldades em mudar — O setor rural tem dificuldades para implementar mudanças de caráter políticoinstitucional. Isso se deve ao fato de ter a pior infraestrutura de educação e ter maior dificuldade de acesso a informação e comunicação, principalmente em função da dispersão espacial. Some-se a isso algumas características culturais associadas ao isolamento, que afetam em especial a construção do capital social ou da confiança. Esses são fatores determinantes no fortalecimento das forças endógenas e na construção de capitais intangíveis, essenciais para acelerar mudanças de caráter político-institucional.

Os conceitos de tecnologia física e de tecnologia social mencionados a seguir, reforçam a convicção de que os grandes gargalos para o desenvolvimento sustentável do agronegócio estão associados com as mudanças político-institucionais ou com as tecnologias sociais.

Entende-se tecnologia física como a resultante da utilização de métodos e designs para transformar matéria, energia e informação em novos produtos e processos para resolver um determinado problema ou criar novas opções e utilidades. Da mesma forma, entendese tecnologia social como a utilização de métodos e designs para organizar pessoas para atingir um determinado objetivo. O conceito de tecnologia social tal como expresso tem uma profunda identidade com o conceito de gestão, entendida como o esforço humano organizado para mobilizar e administrar um conjunto de pessoas e/ou instituições, fatores de produção e processos para atingir um determinado objetivo.

O atual momento do agronegócio brasileiro mostra que houve um grande avanço nas mudanças tecnológicas, mas que, embora continue a haver demanda por novas tecnologias, estas não se constituirão em gargalo para o desenvolvimento

Capacitação — Dentro desse contexto, fica patente a importância de apoiar todo e qualquer esforço que vise gerar conhecimento, inovar modelos, processos, alianças e parcerias, capacitar pessoas e instituições na área de gestão em qualquer setor, em especial voltada para o agronegócio, pelas razões expostas. Tanto é importante trabalhar gestão no nível micro da firma ou da empresa, como também e principalmente no nível macro, criando competência para fazer a gestão dos desafios econômicos, sociais e ambientais que podem se constituir em gargalos ou em oportunidades para o desenvolvimento sustentável do setor, dependendo exatamente, da capacidade de gestão.

Dois conceitos – velocidade e ganhos de escala – pressionam os agentes econômicos e reforçam a importância da gestão neste momento da humanidade, caracterizado por profundas e contínuas mudanças, expressas no processo de globalização dos mercados, mobilidade do capital financeiro, revolução nas tecnologias de comunicação e informação e o advento da economia do conhecimento, impactando vantagens competitivas.

Todos os agentes econômicos estão vivendo pressionados pela velocidade, visto que problemas e soluções mudam com tal rapidez que, se o processo de tomada de decisão for muito demorado, é preciso reiniciar o processo, pois o problema já estará modificado e terá novos contornos ou a solução já estará obsoleta e já não será a mais adequada. Questões associadas com gestão da informação, gestão do conhecimento, gestão da inovação, modelos de governança e tomada de decisão, entre outros, que constituem problemas no agronegócio, têm um papel importante na superação desse desafio.

Ganho de escala — Da mesma forma, há necessidade de uma busca permanente de ganhos de escala e formação de parcerias em todos os setores, como forma de conviver com sistemas complexos, tecnologias multifacetadas, custos crescentes e margens cada vez menores. Questões associadas com gestão financeira e de custos, gestão de processos e pessoas, modelos de formação e gestão de parcerias e alianças estratégicas, também deficientes no agronegócio, são cruciais na superação desse desafio.

Finalmente, o conceito de produtividade total ou eficiência econômica traz dois conceitos que interagem sinergicamente para se obter o melhor nível de eficiência: a eficiência alocativa, entendida como a capacidade de identificar e alocar o melhor conjunto de fatores de produção, na quantidade e qualidade adequadas, para se obter um determinado produto; e a eficiência técnica, entendida como a capacidade de obter o melhor produto, com as características desejadas de custo, qualidade, tempo, etc., pela gestão ou administração desse conjunto de fatores de produção alocados. É entendida também como efeito-trabalhador ou efeito da mão de obra.

A eficiência alocativa continua a ter um peso importante na eficiência total, porque há uma contínua e crescente disponibilidade de novos produtos e processos, que permitem novas alternativas de combinação dos fatores de produção. Porém, o maior desafio continua sendo a capacidade do usuário de utilizar os fatores de produção escolhidos no dia a dia da produção, obtendo o máximo de eficiência possível. Essa capacidade está diretamente associada à capacidade de gestão do usuário, que só se obtém com capacitação continua.

Conclusão — Três conceitos associados a teorias do desenvolvimento e eficiência econômica reforçam a percepção de que os grandes desafios do desenvolvimento humano sustentável dependem, cada vez mais, de mudanças político-institucionais, de tecnologias sociais associadas com a criação de capitais intangíveis e com a melhoria da eficiência técnica ou da capacidade do homem de utilizar melhor os recursos disponíveis. Isso está em consonância com a lógica de “fazer mais e melhor com menos”, que é a base da economia sustentável.

As mudanças das tecnologias físicas – produtos e processos, embora com crescente poder de modificar as vantagens competitivas, bem como a eficiência alocativa, continuarão importantes, mas não se constituirão nos maiores gargalos para o desenvolvimento. Esta conclusão aplica-se, em especial, a países emergentes como o Brasil. E, mais especificamente, a segmentos econômicos como o agronegócio, que pelas suas características culturais e de dispersão espacial sofrem maior impacto negativo pela dificuldade de se desenvolver e inovar em tecnologias sociais e promover e usufruir dos benefícios das mudanças político-institucionais. Os avanços do segmento dependem fortemente de investimentos maciços para o desenvolvimento de conhecimento e do esforço de capacitação em gestão, entendida nesse sentido amplo do esforço humano organizado para mobilizar e administrar pessoas e instituições para atingir um determinado objetivo.

É fundamental apoiar todo e qualquer esforço para gerar conhecimento e capacitar pessoas e instituições na área de gestão em qualquer setor, em especial, para o agronegócio