Fitossanidade

 

Medidas de controle da LAGARTA-FALSA-MEDIDEIRA

A população da praga cresceu nos últimos anos e a melhor maneira de enfrentar a ameaça é pela adoção do MIP-Soja (ou seja, inseticida apenas quando necessário). E no caso da soja Bt, sempre reservar a fundamental área do refúgio

A deney de Freitas Bueno, Samuel Roggia, Daniel R. Sosa-Gómez, Clara Beatriz Hoffmann-Campo e Edson Hirose, pesquisadores em entomologia da Embrapa Soja

A introdução da ferrugem asiática na safra 2001/02, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, foi um marco importante na sojicultora brasileira, pois levou os agricultores a um uso mais frequente de fungicidas, muitas das vezes utilizado abusivamente. Esses fungicidas, além de controlarem a ferrugem na soja, também reduziram a ocorrência de doenças em insetos causadas por um complexo de fungos entomopatogênicos, que atuavam eficientemente no controle natural da lagarta-falsa-medideira, Chrysodeixis includens, entre outras pragas da cultura, conforme constatado em pesquisas realizadas na Embrapa Soja pelo pesquisador Daniel Ricardo Sosa-Gómez e colaboradores.

Como consequência, a população de lagartas-falsas-medideiras, que era naturalmente mantida em equilíbrio por epizootias desses fungos como Nomuraea rileyi (doença branca) e daqueles pertencentes ao grupo dos Entomophthorales tais como Pandora sp. e Zoophthora sp. (doença marrom), cresceu assustadoramente, pois seu controle natural foi reduzido pelos fungicidas utilizados para controlar a ferrugem. É evidente que o uso de fungicida é inevitável no manejo da ferrugem asiática em soja, mas aplicações abusivas desses agrotóxicos, realizadas sem critérios técnicos, irão apenas agravar os problemas com pragas, sem benefícios para o controle da doença, e por isso precisam ser evitadas.

Diferentemente de outras pragas como a lagarta-da-soja, a lagarta- falsa-medideira alimenta-se geralmente de folhas localizadas no terço médio e inferior, ou seja, na região mediana ou baixeira das plantas, consumindo grandes áreas foliares, mas mantendo íntegras as nervuras principais, o que confere um aspecto rendilhado característico às folhas atacadas. Além disso, sua ocorrência estende-se por um período maior que o da lagarta-dasoja, sendo uma praga comum no período reprodutivo da cultura, quando as plantas estão maiores.

Assim, de certa forma, essa lagarta fica mais protegida na planta, o que dificulta a constatação de sua presença, principalmente pelo produtor que não utiliza o pano-de-batida para o monitoramento. Além disso, esse hábito da praga é um desafio para a tecnologia de aplicação de inseticidas. Os inseticidas, em geral, não atingem a lagarta que fica protegida pelas folhas do ponteiro, o que é conhecido como “efeito guarda-chuva”.

Sendo assim, algumas medidas são de grande importância para o sucesso do manejo da lagarta-falsa-medideira na soja. Uma das principais é a adoção do Manejo Integrado de Pragas (MIP-Soja), com a utilização do pano-de-batida para o monitoramento frequente (no mínimo, semanal) dessa e de outras pragas na lavoura. O monitoramento deve ser iniciado logo após a emergência da soja e deve-se prolongar por todo o ciclo da cultura. As amostragens frequentes devem ser realizadas em todos os talhões e o controle químico deve ser utilizado somente quando a infestação da praga for igual ou maior que o nível conhecido como nível de ação (veja a tabela).

Ao realizar a amostragem e seguir os níveis de ação, é possível a redução no número de aplicações de inseticidas em até pela metade, sem riscos de perda de produção

Apesar de muitas vezes o nível de ação ser considerado muito alto pelos produtores, aplicações com infestações abaixo dele são desnecessárias, principalmente quando o produtor tiver condições de disponibilidade de implementos para aplicar rapidamente o inseticida quando o nível de ação for atingido. A obediência dos níveis de ação evita a ocorrência de perdas pelo ataque de pragas, mas possibilita que, quando este ainda não foi atingido, os inimigos naturais controlem naturalmente a praga, trazendo economia ao produtor. Realizar amostragem e seguir os níveis de ação possibilita a redução no número de aplicações de inseticidas em até pela metade, sem riscos de perda de produção.

Cuidados — Ao se realizar a aplicação de inseticida para controlar a lagarta-falsa-medideira, alguns cuidados adicionais devem ser adotados. É necessário levar em conta que aplicações realizadas preventivamente, antes do fechamento das entrelinhas, visando atingir as folhas baixeiras, não garantem residual até o final do ciclo. Assim, a tecnologia de aplicação deve garantir a deposição de calda no interior das plantas, onde comumente as lagartas estão alojadas, o que é muito desafiador para pulverizações realizadas na fase reprodutiva da soja, quando as plantas estão completamente desenvolvidas e as linhas de plantas cobrem as entrelinhas.

PRINCIPAIS NÍVEIS DE AÇÃO PARA LAGARTAS NA CULTURA DA SOJA

Volumes de calda de 180 a 200 litros/ hectare frequentemente proporcionam a deposição (cobertura) mais adequada. Para a utilização de baixo volume de calda, rigorosos procedimentos de monitoramento das condições ambientais (vento, temperatura e umidade do ar) e ajuste da pressão e tipo de ponta (bico) são necessários. O bico cônico comumente é melhor do que o bico leque simples. Além disso, é importante salientar que gotas finas possibilitam a melhor penetração, porém, a possibilidade de ocorrer deriva é também maior. Assim sendo, gotas finas não devem ser usadas em condições de vento superior a 10 km/h, umidade relativa do ar menor de 70% e temperatura do ar superior a 25ºC.

Além disso, a utilização de produtos registrados para a praga e que sejam seletivos aos insetos benéficos são de grande importância e devem ser priorizados quando se escolhe o inseticida para o controle da falsa-medideira, assim como de qualquer outra praga. Com esses cuidados no manejo de pragas, o sojicultor estará contribuindo para o sucesso da sua lavoura, mantendo- se mais competitivo no mercado com redução dos custos e maximização da produtividade.

Refúgio sempre — Além dos inseticidas, outra ferramenta de grande importância do manejo dessa lagarta é a soja que expressa toxina inseticida da bactéria Bacillus thuringiensis (soja Bt). Entretanto, é importante destacar que, ao mesmo tempo em que a soja Bt estaria controlando a lagarta-falsamedideira, 24 horas por dia, durante sete dias por semana, ela também está, no mesmo período, selecionando insetos resistentes. Assim, da mesma maneira que ocorre com os inseticidas convencionais, a utilização da soja Bt tem trazido consigo o risco enorme de seleção de populações de insetos resistentes. Entre as diversas medidas para retardar a seleção de indivíduos resistentes, o plantio do refúgio, ou seja, o plantio de uma percentagem da área, no mesmo talhão, com a mesma cultura não transformada geneticamente para expressar o Bt, é de extrema importância..

Diferentemente de outras pragas, a falsa-medideira alimenta-se geralmente de folhas do terço médio e inferior, ou seja, na região mediana ou baixeira das plantas, consumindo grandes áreas foliares, mas mantendo íntegras as nervuras principais

O tamanho de área que deve ser cultivado como refúgio ainda é um assunto polêmico. Entretanto, para a soja, as empresas detentoras da tecnologia recomendam que o mínimo de 20% da área com a tecnologia seja de refúgio. Independentemente de qualquer polêmica, para garantir a longevidade da tecnologia Bt, é certo de que a adoção do refúgio é essencial e precisa ser feito da forma correta. Assim sendo, é importante que a área de refúgio possibilite o desenvolvimento de mariposas suscetíveis à toxina para cruzar insetos resistentes à bactéria, provenientes da área Bt e, assim, originar insetos heterozigotos que são controlados pela planta Bt.

Portanto, na área de refúgio não pode haver uso abusivo de inseticidas que eliminem toda a população de insetos presente. A área de refúgio precisa produzir economicamente, mas de forma sustentável, onde além de produzir grãos exista também a produção de insetos suscetíveis à tecnologia. Assim, é fundamental que o manejo da área de refúgio seja realizado de acordo com as normas e filosofia preconizadas pelo MIP-Soja. Tecnologias como amostragem com o uso do panode- batida, assim como a aplicação de inseticidas apenas quando os níveis de ação das pragas forem atingidos (aplicação racional de inseticidas), continuarão sendo essenciais na área de refúgio, assim como na área Bt.

As plantas Bt vieram para somar ao MIP e não para substituí-lo! É importante salientar ainda que as áreas de refúgio têm um papel preventivo, retardando o processo evolutivo de seleção de resistência. Com adoção do MIPSoja, associando uma eficiente aplicação de inseticida quando necessário, no momento adequado, ou mesmo o plantio correto da soja Bt, ou seja, mantendo uma área como refúgio, o produtor terá um bom manejo da praga, associando boa produtividade com sustentabilidade.