Eduardo Almeida Reis

 

ÁGUA E RADIESTESIA

Nosso belo Houaiss define radiestesia ou radiostesia como “sensibilidade hipotética a certas radiações”. Sendo hipotética é duvidosa, incerta, suposta. E o mais grave é que a radioestesia existe e funciona, desde que a pessoa seja dotada de sensibilidade. Assisti a uma demonstração impressionante desse dom quando comprei uma granja em Itaguaí, Baixada Fluminense.

Região plana arenosa e turfosa, tinha água salobra, imbebível, quatro ou cinco metros abaixo da superfície. Todos os sitiantes levávamos água de fora para beber. Como as galinhas não se queixam do salobro da água, construí os galpões pensando em ficar riquíssimo com a venda de ovos. Não levei em conta a lição do grego Menandro (342-291 a.C.): “C’est toujours l’année prochaine que le paysan deviendra riche”. Isso mesmo que deu para entender: é sempre no próximo ano que o camponês ficará rico. Tentei desmentir Menandro, sem sucesso, durante anos: paciência.

Caminhava em bom ritmo a construção dos galpões, quando levei meu amigo e futuro padrinho de casamento, o engenheiro Samuel da Costa Marques, para conhecer o sítio de 20 hectares. Fazendeiro no Pantanal do MS, engenheiro civil, o Dr. Samuel tinha o dom da radiestesia, mas não vivia dele nem se vangloriava. Só fiquei sabendo quando, informado sobre a água horrível da região, meu amigo disse: “Vamos ver se a gente descobre um veio de água corrente por aqui”.

Dito isso, cortou uma forquilha de goiabeira em forma de Y, madeira duríssima, e saiu andando pela várzea segurando as duas perninhas da forquilha, com o pé do Y apontado para a frente. Não percorreu 40 metros e o Y entortou em suas mãos, forquilha de madeira verde, duríssima.

Pessoalmente muito forte, orçando então pelos 45 anos, o engenheiro retornou ao trecho, o Y voltou a entortar e ele recomendou: “Abre o poço aqui”. Abrimos na munheca, revestimos com manilhas de concreto e obtivemos água de ótima qualidade, que passou a servir todos os sitiantes vizinhos.

Depois disso, tive notícia de profissionais da radiestesia, que vivem dela, normalmente trabalham com um pêndulo e muitas vezes acertam em seus diagnósticos. Um deles foi chamado por amigo nosso, um médico que andava interessado na compra de ótima fazenda no Estado do Rio. Rodou a fazenda inteira e diagnosticou: não tem água. Realmente, só tinha água das chuvas e estava à venda por uma tuta e meia.

Nas cidades, o abastecimento de água fica por conta das estatais e a gente pode colaborar fechando a torneira ao escovar os dentes, tomando banhos mais rápidos, evitando lavar as calçadas com água tratada. Na roça, o abastecimento corre por nossa conta. Em 2014, temos temporada atípica. Na zona da mata mineira, havia pastos sem que houvesse água nas minas e nos poços artesianos. Tudo bem que as nascentes diminuam ou sequem no inverno, mas os poços nunca secaram. A precipitação média regional é de 1.500 mm com dois a quatro meses secos por ano.

Muitos produtores venderam todas as vacas dos seus rebanhos por falta de água para lavar os currais. Enquanto isso, Foz do Iguaçu batia recordes com 46 milhões de litros por segundo e diversas cidades paranaenses, catarinenses e gaúchas submergiram nas enchentes. Não consigo atinar como é possível calcular os 46 milhões de litros por segundo, mas acredito que alguém saiba. É muita água naquela região.

Não muito longe da zona da mata tivemos inverno muito seco em 1992. Acabou tudo: silagem, capineira, pasto. Recorremos ao lírio-do-brejo, que transmite ao leite das vacas um “gostinho” diferente. Visitando meus amigos da Embrapa-CNPGL, Centro Nacional de Pesquisas Gado de Leite, aprendi que as raízes do lírio são ricas em amido. Voltei todo prosa para dar a notícia, em nossa cooperativa, do amido ótimo para alimentar nossas vaquinhas, quando fui interrompido por um cooperado que me chamava de doutor: “Sem as raízes, doutor, como é que a gente vai ter lírio para tratar das vacas na seca do ano que vem?”.

O excelente patrício tinha pouquíssimas capineiras, pastos escassos e não fazia silagem: dependia do lírio-do-brejo, do lírio-branco e do lírio-de-petrópolis para continuar produzindo leite e combater a tosse em sua família, pois a fécula comestível extraída dos rizomas tem propriedades béquicas, o que significa dizer que são antitussígenas.

Palmas para a planta palustre Hedychium coronarium da família das zingiberáceas, nativa das regiões tropicais da Ásia, amplamente distribuída no Brasil, de folhas lanceoladas e flores brancas ou amareladas, aromáticas, usada em perfumaria, para tratar de nossas vacas e curar a tosse dos nossos parentes.