Plantio Direto

 

Desafios para o sistema de ILP sob PD

A alternativa de semeadura direta das culturas sem preparo do solo sob a denominação de no tillage teve início nos Estados Unidos e na Inglaterra no final da década de 1960. Desde então, foi o primeiro passo rumo à uma agricultura conservacionista, por meio da eliminação das práticas mecânicas de preparo do solo como aração/escarificação e gradagem e manutenção da cobertura, além da economia de combustível e da redução do tempo para se completar o plantio das safras. No Brasil, na década de 1980, sob o domínio do binômio sojatrigo, os agricultores tinham como seu maior inimigo a erosão. Tudo conspirava em favor da degradação do solo agrícola, do assoreamento, da contaminação dos recursos hídricos por produtos químicos e fertilizantes arrastados pela erosão provocada pelas chuvas torrenciais sobre um solo desprotegido, compactado e, muitas vezes, sem curvas de níveis.

Ainda na década de 1980, com os estudos da pesquisa brasileira, o conceito de no-tillage (sem lavrar) evoluiu para sistema de plantio direto, que é um conceito mais amplo que, além de envolver a preservação do solo, trata da sua recuperação com manejo adequado, rotação de culturas e a utilização de plantas protetoras e melhoradoras do solo, como os adubos verdes, visando à melhoria da fertilidade, à fixação biológico de nitrogênio, ao controle plantas daninhas, de pragas e doenças. Nesse quadro, com o desenvolvimento das pesquisas e uma estrutura de assistência técnica convergente, a adoção pelo sistema de plantio direto foi a solução prontamente adotada pelo setor produtivo. Hoje, segundo informações da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, o País possui mais de 25 milhões de hectares cultivados em Fotos: Divulgação sistema de plantio direto ou, no mínimo, em semeadura direta.

O maior entrave para a consolidação do sistema de plantio direto de qualidade nas propriedades é a falta de opções de culturas econômicas para compor sistemas de rotação de culturas como alternativas ao binômio soja-milho safrinha. O entrave também ocorre pela resistência da maioria dos produtores em planejar a propriedade em talhões, destinando um talhão por safra de inverno para ocupação com plantas melhoradoras do solo como nabo, aveia, tremoço, entre outras, conforme recomendação de pesquisa e assistência técnica.

Uma raiz de ervilha forrageira variedade Iapar 83 com rizóbios de bactérias fixadoras de nitrogênio

O pesquisador Elir de Oliveira, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), menciona que muitos produtores de soja têm adotado a recomendação da pesquisa utilizando braquiária como planta de cobertura ou para pastejo após a colheita da soja, ou semeada nas entrelinhas do milho safrinha. Essa é uma alternativa criativa para melhorar a cobertura do solo e promover a rotação de sistemas radiculares. Essa técnica adapta-se muito bem a regiões onde o inverno não apresenta riscos de geadas e predomínios de temperaturas abaixo de 16ºC, o que é limitante para a forrageira tropical.

Para as regiões onde predominam o binômio soja-milho safrinha e que apresentam inverno mais frio, uma alternativa é a sobressemeadura de aveia sobre o milho safrinha. O pesquisador destaca que essa é uma técnica de baixo custo, como descreve: “Deve-se semear a aveia a lanço após a adubação de cobertura no milho, utilizando esparramador de ureia. A operação deve ser realizada no momento limite em que o trator não cause dano mecânico às plantas de milho. Não há necessidade de umidade no solo no momento da sobressemeadura. Optar por milho precoce e aveia forrageira Iapar 61, por ser de ciclo longo, resistente à ferrugem, utilizando 50 a 60 quilos/hectare de sementes. Se utilizar herbicida com princípio ativo à base de atrazine ou simazine, que são fitotóxicos quando absorvidos pelo sistema radicular da aveia, aplicar na menor dosagem recomendada imediatamente após a semeadura do milho”.

Dependendo das condições climáticas após a colheita do milho safrinha e se a área for utilizada para pastejo, é viável a aplicação de adubo nitrogenado em cobertura na base de 40 kg/ha de N. Cerca de 25 a 30 dias após a colheita da aveia, é possível obter uma produção de 5-6 toneladas/ ha de matéria seca de aveia de alto valor nutritivo. Além do valor forrageiro da aveia produzida e disponibilizada para épocas críticas (agosto/setembro), o sistema permite o eficiente controle de plantas daninhas, principalmente de buva, melhoria do solo e sustentabilidade do sistema de plantio direto com integração lavoura e pecuária.

Bom exemplo: aveia variedade Iapar 61 + centeio IPR 89, uma dupla garantia de qualidade, tanto de palhada como forragem

ILP — Nos últimos anos vêm crescendo a importância e o interesse dos produtores pelos sistemas de integração lavoura e pecuária (ILP), tanto para produção leiteira como para corte. A pecuária leiteira tem sido importante alternativa para sustentabilidade econômica das pequenas e médias propriedades que também produzem soja e milho. Quanto à pecuária de corte, principalmente na Região Sul, sua competitividade depende das forrageiras de inverno. Isso porque as forrageiras de inverno permitem a intensificação da produção animal a pasto com melhoria dos índices zootécnicos e oferta de produto de qualidade ao mercado.

Somente com sistemas integrados, com adoção do manejo e adubação de pastagens e utilização de forrageiras de inverno em áreas cultivadas com soja e milho no verão, a pecuária de corte poderá ser competitiva frente à pressão de ocupação de áreas de pastagens pela cultura da soja, da cana-de-açúcar e pela silvicultura. “O sistema de integração lavoura e pecuária pode ser definido como sistema de produção em que a exploração animal está geograficamente associada à produção de grãos, havendo alternância desta com a produção de forragem sob pastejo no mesmo ano agrícola”, destaca Oliveira. Segundo ele, a integração da produção de grãos e produção animal beneficia a sustentabilidade da propriedade.

Apesar dos benefícios da integração lavoura e pecuária, muitos agricultores são relutantes em adotar o sistema sob a alegação de que o pisoteio do gado compacta o solo. O pesquisador do Iapar concorda que pode haver compactação se houver manejo inadequado do sistema, isto é, se houve super-pastejo e o solo for deixado sem cobertura de palhada, comprometendo o sistema de plantio direto. Vários são os trabalhos disponíveis na literatura nos quais o sistema de integração promove um incremento de 10% a 25% na produção de soja e milho em áreas de aveia e azevém pastejados no inverno. Quando se evita o superpastejo, somente há melhoria do solo pela deposição de fezes e urina dos bovinos, que promove a ciclagem de até 90% dos nutrientes, tais como nitrogênio, fósforo, potássio, enxofre, cálcio, magnésio e micronutrientes. A ciclagem de nutrientes, aliada à intensificação das atividades biológicas e dos besouros coprófagos, melhora a capacidade produtiva do solo.

Visando à sustentabilidade do Sistema de Integração Lavoura e Pecuária, Oliveira recomenda as seguintes práticas:

- Semeadura de forrageiras de inverno em consórcio: utilizar consórcio de aveia-preta de ciclo longo Iapar 61 em consórcio com centeio forrageiro precoce IPR 89, em mistura de 50 kg/ha de sementes de cada material. O centeio é muito precoce, permite antecipar o primeiro pastejo, sendo que após o segundo pastejo é rejeitado pelo gado, o que garante uma deposição no solo de cerca de 3,5 t/ha de palhada lignificada a partir de julho. Em regiões onde se utiliza o azevém, o centeio IPR 89 pode ser misturado na proporção de 50 kg/ha de centeio e 20 kg/ha de azevém. Como o azevém apresenta desenvolvimento lento na fase inicial, o centeio garante os primeiros pastejos, deixando a palha como cobertura do solo. Nessas condições, as forrageiras de inverno suportam uma lotação de 3 UA/ha. Observação: UA = unidade animal = 1 animal de 450 kg de peso vivo.

- Sobressemeadura de milheto em soja: imediatamente antes da colheita da soja, no início das quedas das folhas, tendo o mês de fevereiro como limite, sobressemear milheto a lanço na base de 25 kg/ha de sementes. Após cerca de 40 dias após a emergência do milheto, poderá liberar a área para o primeiro pastejo, reduzindo as plantas da altura de um metro até atingir 30 centímetros. Imediatamente após o terceiro pastejo no milheto, em junho, nova escala de semeadura da aveia poderá ser realizada, sem necessidade de dessecação da área. Essa prática permite preencher o “vazio forrageiro” que ocorre no outono, até o momento em que as forrageiras de inverno estarão aptas para receber o primeiro pastejo.

- “Área de escape” para dias chuvosos: ocorrência de dias chuvosos consecutivos pode criar condições para desestruturação física do solo em subsuperfície e ocasionar grande desperdício de forragens de qualidade pelo pisoteio animal devido à excessiva umidade do solo. Como as pastagens tropicais pouco se desenvolvem no inverno, é importante realizar a sobressemeadura de forrageiras de inverno sobre as pastagens tropicais do gênero Cynodon (Tifton, Coastcross, Estrela) ou mesmo braquiárias rebaixadas. Para efetuar a sobressemeadura, havendo disponibilidade de sementes, misturar 50 kg de aveia Iapar 61, 20 kg de azevém, 10 kg de ervilhaca e 30 kg de ervilha forrageira Iapar 83 por hectare. A semeadura deve ser efetuada com semeadeira, de preferência utilizando o adubo MAP na base, considerando a análise do solo. As leguminosas terão o importante papel de fixação biológica de nitrogênio, diminuindo os custos com adubação mineral nitrogenada ao longo do ano.

Oliveira: "Apesar dos benefícios da ILP, muitos agricultores são relutantes em adotar o sistema sob a alegação de que o pisoteio do gado compacta o solo"