Fitossanidade

 

O drama da RESISTÊNCIA a herbicidas

Na agricultura, são conhecidas 25 espécies de diversas famílias botânicas com resistência a diferentes herbicidas registrados. No caso do glifosato, o primeiro registro de resistência no Brasil é de 2002

Décio Karam, do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS), Ph.D em Ciência das Plantas Daninhas e pesquisador da Embrapa

Dos problemas enfrentados pelo produtor, o não controle de algumas espécies de plantas daninhas tem ocasionado desconforto e aumento do custo de produção. A resistência de invasoras é a habilidade de um biótipo em sobreviver e reproduzir, após a aplicação de um herbicida na dose que normalmente controlaria uma população normal dessa espécie. Já a tolerância é a capacidade que determinadas plantas têm de suportar doses recomendadas do herbicida que controlam outras espécies, sem que sofram alterações no seu crescimento e/ou desenvolvimento. Espécies como Commelina spp. (trapoeraba), Ipomoea spp. (corda de viola), Spermacoce latifolia (erva quente) e Richardia brasilienses (poaia) apresentam níveis diferenciados de tolerância aos herbicidas inibidores da 5-enolpyruvoylshikimate-3- phosphate (EPSP), não podendo, portanto, ser confundida como resistência.

O surgimento de plantas daninhas resistentes a herbicidas sempre estará associado a mudanças genéticas na população em função da seleção ocasionada pela aplicação do herbicida. A variabilidade genética está presente nas populações infestantes e caso haja a aplicação continuada de um produto ou de herbicidas com o mesmo mecanismo de ação, as plantas resistentes irão sobreviver, aumentando, nos anos subsequentes, a sua frequência na população. A resistência pode ser da seguinte maneira: simples, que ocorre somente para um herbicida; cruzada, que ocorre para diversos herbicidas de um mesmo mecanismo de ação; e múltipla, que ocorre para herbicidas de diferentes mecanismos de ação.

A resistência de plantas daninhas foi primeiramente notificada em 1957, com plantas de Commelina diffusa (trapoeraba) infestantes na cultura da cana-deaçúcar no Havaí, com o herbicida 2,4D, que tem como mecanismo de ação mimetizar auxinas. A partir dessa seleção, novos casos de resistência foram reportados, sendo que mundialmente existem 432 biótipos incluídos em 235 espécies presentes em 82 culturas e 65 países. Dos atuais 25 mecanismos de ação de herbicidas conhecidos, 22 já estão mencionados com casos de resistência a plantas daninhas, nos quais 155 herbicidas comerciais já foram reportados.

Primeiro caso no Brasil — No Brasil, os primeiros relatos de resistência de plantas daninhas a herbicida data da década de 1980, com a espécie Euphorbia heterophilla, resistente aos inibidores da ALS (acetolactate synthase). Atualmente já são conhecidas 25 espécies de diversas famílias botânicas com resistência a diferentes herbicidas registrados para uso agrícola no País. A introdução de moléculas herbicidas no mercado consumidor, com diferentes mecanismos de ação (Tabela 1), sofreu uma estagnação a partir de meados da década de 1980, coerente esse fato com a introdução do primeiro cultivar geneticamente modificado com tolerância ao herbicida glifosato.

Com o desenvolvimento de culturas geneticamente modificadas conhecidas como transgênicas, tolerantes ao glifosato, o consumo desse herbicida cresceu substancialmente, aumentando a pressão de seleção às plantas daninhas e ampliando a possibilidade do surgimento de plantas invasoras resistentes ao produto. O uso contínuo desse herbicida reduziu o tempo necessário para a seleção da resistência de plantas daninhas, o que tem antecipado os problemas no manejo das infestantes, principalmente nas culturas de algodão, milho e soja.

O glifosato, herbicida derivado de aminoácidos que inibem a enzima EPSP (precursora da síntese de aminoácidos aromáticos como triptofano, fenilalanina e tirosina), tem sido o produto mais utilizado mundialmente para o manejo de plantas daninhas. Ocasiona, assim, a maior pressão de seleção imposta a essas plantas por um agroquímico nos últimos anos, o que tem contribuído para que as glicinas atualmente sejam o principal grupo de herbicidas selecionador de plantas daninhas resistentes.

Mundialmente o primeiro caso de resistência ao herbicida glifosato foi relatado em 1996, com a espécie Lolium rigidum. A partir deste ano, o uso contínuo do glifosato resultou, até o momento, na seleção de 28 espécies resistentes (Tabela 2), sendo que os dois últimos casos relatados foram para Amaranthus quitensis (caruru) e Sonchus oleraceus (serralha), na Argentina e na Austrália nos anos de 2013 e 2014, respectivamente. Os biótipos resistentes ao glifosato estão reportados em 229 locais presentes na Argentina, África do Sul, Austrália, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, China, Colômbia, Costa Rica, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Israel, Itália, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Paraguai, Polônia, Portugal e República Checa.

Karam: “Quando uma população de plantas daninhas resistentes se estabelece, a eficácia do controle por meio de herbicidas diminui”

No Brasil, os primeiros relatos de plantas daninhas resistentes ao glifosato ocorreram em 2002, nos municípios de Tapejara e Capão Bonito, no Rio Grande do Sul, sendo que atualmente já foram identificadas resistências no azevém (Lolium multiflorum), na buva (Conyza bonariensis, C. canadenses e C. sumatrensis) e no capim-amargoso (Digitaria insularis). Dos 31 biótipos relatados no Brasil com resistência a herbicidas, 20 apresentam resistência aos herbicidas inibidores da ALS, sete aos inibidores da enzima EPSP, cinco aos inibidores da acetyl-CoA carboxylase (ACCase), quatro aos inibidores do fotosistema II (PS II) e três às auxinas sintéticas (AUX). Dentre essa ocorrência, biótipos de Amaranthus retroflexus (ALS, PS II), A. viridis (ALS, PS II), Bidens subalternans (ALS, PS II), C. sumatrensis (ALS, EPSP), Echinochloa crus-galli var. crusgalli (ALS, AUX), E. heterophylla (ALS, PPO – inibidor da enzima enol-piruvilshiquimato- fosfato sintase ), L. perenne ssp. multiflorum (EPSP, ACCase), Sagittaria montevidensis (ALS, PS II) apresentam resistência múltipla a herbicidas. Os nomes comuns das plantas daninhas são os seguintes: trapoeraba, corda-de-viola, erva-quente, poaia-branca, leiteiro, azevém, buva, capim-amargoso, caruru, picão-preto, capim-arroz e aguapé-de-flecha.

Lavoura no limpo: o não controle de algumas espécies de plantas daninhas tem ocasionado desconforto e aumento do custo de produção para o agricultor

Problema generalizado — A presença de plantas daninhas resistentes ao glifosato, principalmente a buva e o capim- amargoso, já é diagnosticada no Brasil como um todo, entretanto, com infestações ainda diferenciadas entre as regiões. No Sul do País, por exemplo, a presença dessas espécies é praticamente observada em todas as regiões agrícolas. Todavia, o azevém pode ser visto nas regiões onde essa espécie é adaptada, ou seja, em ambientes em que as condições de temperaturas são mais baixas no período do inverno.

A presença das espécies resistentes ao glifosato tem levado o produtor a um custo mais elevado para o manejo das plantas daninhas, saindo de um custo inicial, sem a presença de plantas daninhas resistentes, da ordem de até R$ 60 por hectare, podendo, em casos mais extremos, com a presença de resistência múltipla na área, alcançar patamares de até R$ 213. Esse aumento de custo pode ser explicado pela necessidade da aplicação de herbicidas alternativos em pré-emergência aliado ao uso de pós-emergentes na operação da dessecação, visando ampliar a eficácia do controle das plantas resistentes ao glifosato.

Próximas? — Espécies importantes que apresentam resistência ao glifosato, mas que ainda não são relatadas no Brasil como resistentes, já foram confirmadas na América do Sul, como é o caso do Sorghum halepense (capim-massambará), na Argentina; do Amaranthus palmeri e Amaranthus quitensis (caruru), na Argentina; Parthenium hysterophorus (losnabranca), na Colômbia; Eleusine indica (capim- pé-de-galinha), na Argentina, na Bolívia e na Colômbia; e Echinocloa colona (capimarroz), na Argentina. O Brasil, portanto, deve tomar o cuidado para que se reduzam as possibilidades de introdução de espécies com resistência aos herbicidas, pois muitos são os riscos que o produtor brasileiro ainda poderá experimentar.

Quando uma população de plantas daninhas resistentes se estabelece, a eficácia do controle por meio de herbicidas diminui. Para prevenir ou retardar o aparecimento dessas plantas, é recomendada a utilização do manejo integrado de plantas daninhas, fazendo uso de todos os métodos de controle disponíveis. Importante salientar que a resistência a defensivos também ocorre com outras pragas agrícolas, como insetos, ácaros e fungos. Nesses casos, de maneira semelhante às plantas daninhas, há necessidade do emprego de estratégias adequadas para evitar ou retardar o surgimento de organismos resistentes aos inseticidas, acaricidas e fungicidas.