Reportagem de Capa

 

Uma safra de SUCESSO inicia bem antes do plantio

Na hora de planejar o cultivo de uma nova safra, os cuidados com a terra não devem se limitar às semanas que antecedem o plantio. Afinal, o processo produtivo não pode ser avaliado de forma isolada, mas sim como um sistema sequencial, que merece acompanhamento constante e atitudes sustentáveis e preventivas. A seguir, A Granja mostra que uma conduta proativa durante o ano todo pode representar aumento de rentabilidade na hora da colheita

Denise Saueressig
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É verdade que o sucesso da produção agrícola depende, em grande parte, das condições climáticas durante o desenvolvimento da lavoura, mas também é verdade que algumas práticas adotadas pelo produtor podem minimizar prejuízos causados pelas variações do clima e, claro, por outras ameaças, como o empobrecimento do solo e o surgimento de pragas, doenças e plantas daninhas. Nesse momento, mesmo que as atenções ainda estejam voltadas para a segunda safra ou para os cultivos de inverno, não é demais ressaltar as atitudes que podem impactar positivamente a produção das principais culturas na temporada de verão 2014/2015. Soja, milho, arroz ou algodão: cada planta tem suas singularidades e necessidades, mas o sistema que vai abrigar a lavoura é um só e merece cuidado e proteção independentemente da época do ano.

Boa parte do que coloca em prática na sua propriedade em Assis Chateaubriand, no Oeste do Paraná, o produtor Claudio Hafemann aprendeu com o pai, Mário Hafemann. Foi assim, por exemplo, com a rotação de culturas e com o plantio direto, sistema incorporado pela família há quase 30 anos. Nos 580 hectares de lavoura são cultivados soja, milho e aveia em duas safras anuais. Na safra de inverno, quando cultiva principalmente o milho, o produtor procura destinar entre 15% e 20% da área para a aveia, em esquema rotacionado. Como esse sistema, ele conta que consegue eliminar pragas e doenças na área que vai receber a soja no verão e, consequentemente, utilizar menos defensivos e conquistar aumento de produtividade. “Nas áreas onde cultivamos a aveia, o rendimento da soja aumenta entre seis e oito sacas por hectare”, calcula.

Produtor Claudio Hafemann e o filho, Claudio Hafemann Júnior: família adota práticas sustentáveis há quase 30 anos

Investimentos constantes em outras rotinas, como tratamento de sementes e análise e correção de solo, trazem como retorno incrementos de produção, atesta Hafemann. Na última safra, o rendimento da soja foi de 60 sacas por hectare e, do milho, de 101 sacas por hectare, números acima das médias do Estado e do Brasil. “Sempre pensamos em como podemos melhorar. Nossos custos são altos, mas sabemos que também teremos resultados muito positivos investindo no sistema”, acrescenta o produtor.

Conhecimento da terra — Ter um amplo conhecimento da propriedade e das características do ambiente que vai abrigar a planta é um bom começo para qualquer perfil de produção. O Brasil é um dos países de maior potencial para a produção de alimentos, e um dos principais entraves ao aumento da produtividade é a fertilidade do solo e a nutrição das plantas. Com uma correta e eficiente análise de solo, é possível corrigir problemas com informações como excessos de acidez, salinidade e o grau de deficiência ou excesso de nutrientes e de outros elementos químicos, salienta o zootecnista Alexandre Romeiro de Araujo, pesquisador da Embrapa Pecuária de Corte.

De maneira geral, os produtores dão mais importância às análises químicas do que às físicas. No entanto, as análises físicas também são muito importantes para o cálculo de correção e adubação. “Deficiências relacionadas às propriedades físicas, como aumentos excessivos na densidade do solo, selamento superficial, maiores valores de resistência à penetração e dificuldades de infiltração de água, podem ocorrer. Nesse cenário, a aplicação de corretivos e fertilizantes talvez não cause o impacto almejado, sendo necessária a utilização de práticas de manejo para minimizar os efeitos negativos da degradação física. Dessa forma, a adoção de rotação de culturas e o uso de implementos, como subsoladores e escarificadores, são alternativas que devem ser consideradas”, detalha.

Pesquisador Alexandre de Araujo (à direita): materiais usados na coleta da amostragem do solo devem estar livres de resíduos

O benefício da análise do solo pode ser grande, assim como o custo da prática em relação à formação da lavoura é muito pequeno. “Em sistemas de produção mais intensivos, em que o uso de insumos e a frequência das adubações, das correções e das amostragens de solo são mais rotineiras, estima-se que o custo possa variar entre 1% e 3% em relação ao custo da formação da lavoura. No entanto, esses valores são estimados e podem variar dependendo da região”, cita Araujo.

Pesquisadora Mariangela Hungria: inoculação é prática promotora de produtividade, tem baixo custo e é ambientalmente amigável

Amostragem correta — No momento de planejar a análise do solo, é essencial prestar especial atenção à amostragem. A falta de critérios em selecionar áreas homogêneas pode se tornar um problema de difícil resolução no futuro, alerta o especialista. “Cor do solo, topografia, histórico de uso, textura e vegetação são fatores que o produtor consegue identificar facilmente para separar a terra em talhões semelhantes”, diz. Outro equívoco durante o processo de amostragem é a contaminação dos equipamentos utilizados de uma profundidade de coleta para outra, bem como de um talhão para outro. Por isso, é importante que os materiais utilizados estejam limpos, secos e sem resíduos que possam interferir nos resultados analíticos. A amostragem realizada apenas em locais de mais fácil acesso dentro da gleba também é considerado um erro comum.

Em sistemas mais intensivos, é recomendável que a gleba a ser amostrada seja em torno de dez hectares, desde que atenda à identificação de homogeneidade. “De qualquer forma, os estudos caso a caso não devem ser deixados de lado. Para a implantação de lavouras, as profundidades recomendadas para amostragem são de 0-20 cm e de 20-40 cm. No entanto, para uma melhor avaliação da fertilidade, amostras adicionais de 40 a 60 cm e de 0 a 10 cm podem ser indicadas em algumas ocasiões”, observa Araujo.

Pesquisador Ademir Henning: tratamento de sementes deve incluir apenas as necessidades específicas de cada lavoura

Não existe uma época determinada para realizar a amostragem de solo. Em áreas de lavouras, em regiões onde é possível a realização de duas safras anuais, por exemplo, aconselha-se a operação após a colheita da segunda safra. “Apesar de pouco mais tardia, a amostragem após a safrinha indicará a condição química do solo antes do plantio da próxima safra de verão. Realizando as amostragens nessas épocas, o produtor terá os resultados de laboratório em mãos em julho/início de agosto, além de tempo hábil para a aquisição de corretivos e fertilizantes”, relata o pesquisador.

Especificamente para áreas com plantio direto, depois de implantadas as culturas, muito dificilmente o agricultor terá a oportunidade de revolver o solo novamente e a aplicação dos corretivos e fertilizantes será realizada em superfície. “Nesses casos, a amostragem de 0-10 cm pode contribuir para a avaliação da qualidade química do solo, isso porque alguns nutrientes de plantas são pouco móveis no solo e tendem a se concentrar na superfície quando a aplicação de fertilizantes é realizada a lanço”, afirma Araujo.

Tecnologia na semente — Tão importante quanto um solo corrigido e adubado corretamente, é a condição sanitária das sementes que darão início a uma nova safra. Nesse momento, entram em evidência os diferenciais que o tratamento e a fixação biológica de nitrogênio (N) podem significar para o desenvolvimento de uma lavoura. Pela grande demanda que a soja tem por N, a inoculação das sementes representa uma redução de custos ao produtor. A engenheira agrônoma Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja, faz um cálculo: “Para alcançar produtividades em torno de 3 mil quilos por hectare, o investimento necessário em fertilizantes nitrogenados é de cerca de R$ 450 por hectare”, assinala.

No caso da inoculação, o custo vai reduzir à medida que aumenta a escala, mas o valor estimado fica entre R$ 3 e R$ 5 por hectare. “Se o produtor utilizar o inoculante todos os anos na semeadura, preferencialmente na semente, poderá obter um aumento médio de 8% no seu rendimento”, menciona. Além de ser uma tecnologia barata e promotora de produtividade, a fixação biológica de N com as bactérias rizóbios é ambientalmente amigável e integra o conjunto de boas práticas propostas pelo Governo no Plano ABC, de Agricultura de Baixo Carbono. “O fertilizante nitrogenado é um grande poluente, com aproveitamento de apenas 50% e perdas que podem ser ainda maiores no caso de fortes chuvas”, conclui Mariangela.

Para uma inoculação eficiente, a pesquisadora recomenda prestar atenção às indicações no rótulo dos produtos, com informações como registro e validade. Também é importante que a temperatura de armazenagem não exceda os 30ºC. “O processo de inoculação é simples, mas o produtor deve cuidar para realizar preferencialmente no dia do plantio, resfriar a semeadora e não economizar na quantidade do produto, considerando um mínimo de 100 ml para cada 50 quilos de sementes”, completa.

Sanidade no plantio — A prática do tratamento de sementes vem evoluindo no Brasil. Na década de 1990, apenas 5% da área plantada com soja recebia sementes tratadas com fungicidas. Hoje, segundo o pesquisador Ademir Henning, da Embrapa Soja, aproximadamente 95% dos 30 milhões de hectares cultivados com soja no País passam por esse manejo. “O fungicida garante a assepsia da semente e a proteção no solo até que a planta produza”, resume.

O processo pode ser realizado na fazenda, com equipamentos específicos, mas é cada vez mais frequente o tratamento industrial, feito pelas empresas que comercializam o insumo. Adquirir sementes previamente tratadas tem suas vantagens, como a garantia de qualidade, a cobertura certa e a ausência de risco de mistura ou contaminação na fazenda. O ideal, entretanto, é que o produtor saiba exatamente quais são as necessidades da sua lavoura para poder solicitar um tratamento personalizado, apenas com os defensivos que atenderão suas exigências. Caso contrário, existe o risco de utilização de produtos em excesso e que são dispensáveis para a área em questão. “Esse tratamento individual pode ser solicitado nas revendas, por exemplo, onde o responsável técnico pode realizar o procedimento”, esclarece Henning.

Quando o manejo é feito na propriedade, o produtor deve usar apenas defensivos registrados no Ministério da Agricultura e sempre utilizar o Equipamento de Proteção Individual (EPI) indicado. Outro cuidado fundamental diz respeito à inoculação. Para minimizar a possibilidade de incompatibilidade entre as formulações, a inoculação deve ser realizada sempre por último, e o plantio deve ser feito em até 24 horas.

Alternância benéfica — Premissa antiga e sempre defendida pelos especialistas em agricultura, a rotação de culturas frequentemente é esquecida pelos produtores. E quase sempre a justificativa é econômica: o produtor opta pela cultura que gera um maior retorno financeiro imediato e acaba deixando de lado uma prática sustentável e com benefícios de longo prazo. O engenheiro agrônomo Gessí Ceccon, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, constata que os agricultores dão ênfase à aplicação de defensivos para a manutenção da produtividade na lavoura, mas esquecem que a rotação permite a redução no uso dos agroquímicos. “Além disso, uma espécie em rotação oferece maior cobertura do solo e por mais tempo, proporcionando ao agricultor um solo mais equilibrado, mais fértil e, assim, mais produtivo ao longo do tempo”, complementa.

A rotação pode interromper o ciclo de doenças e eliminar insetos-pragas e plantas infestantes, já que uma cultura não consegue multiplicar as mazelas da outra. “O cultivo alternado de gramíneas e leguminosas é um modelo tradicional, mas atualmente a integração lavourapecuária é a rotação perfeita, porque permite ao agricultor a utilização de uma ou outra pelo tempo necessário para eliminar os problemas da lavoura com a pecuária e os da pecuária com a lavoura”, sustenta Ceccon.

No Centro- Oeste, nos sistemas mais comuns de produção, a soja é cultivada no verão e o milho no outono-inverno. No entanto, o cultivo de uma braquiária no lugar do milho safrinha proporciona a exploração do solo em diferentes profundidades, deixa um maior volume de palha no solo e disponibiliza mais nutrientes para a soja no verão. O pesquisador ainda descreve que o cultivo de uma leguminosa no outono-inverno, como feijão-caupi, que fixa nitrogênio da atmosfera, pode proporcionar maior produtividade da soja no verão.

Cobertura verde — Para o engenheiro agrônomo e professor Elmar Luiz Floss, diretor do Instituto de Ciências Agronômicas (Incia), uma lavoura com alto rendimento inicia com a semeadura sobre a palha, seguindo os preceitos do sistema de plantio direto, que ele considera uma das maiores revoluções tecnológicas ocorridas no Brasil.

Pesquisador Gessí Ceccon: cultivo alternado de gramíneas e leguminosas é tradicional, mas a integração lavoura-pecuária é a rotação perfeita

Floss lembra que onde há o cultivo de culturas econômicas no inverno, especialmente de cereais, a quantidade de palha está satisfeita. Nas áreas não cultivadas, há a necessidade de cultivo de coberturas verdes visando à produção de palha, como culturas intercalares. “Para anteceder gramíneas como o milho, sempre se recomenda uma leguminosa, como ervilhaca ou nabo forrageiro. Essas culturas apresentam baixa relação C/N e, portanto, a decomposição é rápida, reciclando nitrogênio e outros nutrientes. Para anteceder a soja, é recomendado utilizar gramínias como cobertura verde, como por exemplo aveia-preta, aveia-branca, centeio ou azevém”, exemplifica.

Nas regiões mais quentes, mas onde o milho não segue a soja em cultivo de segunda safra, é indicado o cultivo da leguminosa crotalária, importante na fixação biológica de N e no controle de nematoides. Nesses locais também podem ser implantadas as culturas do milheto e sorgo forrageiro como coberturas verdes.

Nutrição adequada — Altos rendimentos na cultura da soja resultam de uma interação de mais de 50 fatores e que incluem os relacionados às características genéticas dos cultivares, às condições ambientais e ao manejo adotado pelo produtor. “São promotores e mantenedores da produção que, bem trabalhados, permitiram que o rendimento médio da oleaginosa nos últimos 30 anos dobrasse e, em alguns casos, triplicasse”, analisa Floss. Para o especialista, a rentabilidade depende do ótimo e não do mínimo na utilização das modernas tecnologias de manejo hoje disponíveis. “É preciso fazer uma agricultura ‘com precisão’ e não meramente uma agricultura ‘de precisão’”, argumenta.

Rui Ragagnin, do Irga: semeadura do arroz no período preferencial aproveita as precipitações de primavera para o início da irrigação

A alta disponibilidade de nutrientes no solo é diretamente responsável pela obtenção de rendimentos positivos nas lavouras. “A adubação racional é a diferença entre a necessidade da cultura e a disponibilidade de nutrientes no solo, multiplicado pelo fator de eficiência de absorção de cada fertilizante. Uma adubação eficiente objetiva conseguir um equilíbrio nutricional na planta, que garanta um adequado crescimento de raízes, parte aérea e, especialmente, a maior formação de vagens e grãos”, enumera.

A adubação tem suas generalidades, mas também será definida a partir das observações do produtor. É fundamental o monitoramento da disponibilidade de micronutrientes no solo (análise de solo) e nas plantas (análise foliar). A viabilidade econômica da adubação com micronutrientes (via sementes, solo ou foliar) deve-se a várias razões, detalha Floss: “Aumento do potencial de rendimento, calagem excessiva em superfície, a pureza dos fertilizantes NPK, a inibição temporária da absorção de micronutrientes com a aplicação de glifosato em pós-emergência na soja transgênica, a inibição da absorção de zinco pela aplicação de altas doses de fósforo na linha de semeadura, a deficiência hídrica (com exceção do molibdênio e do cloro, os demais micronutrientes são imóveis na planta, sendo dependentes da água para circular das raízes para as folhas), e, finalmente, a melhoria dos quelatos ou coadjuvantes hoje disponíveis, que aumentou significativamente a eficiência de absorção foliar”, destaca.

Técnica que vem sendo cada vez mais utilizada pelos produtores, a adubação a lanço é indicada quando são utilizadas altas doses de fertilizantes. No caso do nitrogênio em milho ou trigo, a aplicação deve ser parcelada, pois há muitas perdas do nutriente por volatilização ou por lixiviação. Por isso, orienta o consultor, aplica-se um terço na semeadura e o restante em cobertura.

A aplicação de altas doses de fósforo causa a inibição da absorção de zinco pelas culturas. “Em solos arenosos e com altos teores de fósforo no solo, bem como em regiões de adequada precipitação, a aplicação pode ser realizada a lanço, antecedendo a semeadura. Em solos argilosos, com baixos teores de fósforo no solo e onde há probabilidade de baixa precipitação, a aplicação do fósforo deve ser realizada na linha de semeadura. Isso porque o fósforo tem baixa mobilidade no solo e porque as culturas necessitam de fósforo disponível a partir da emergência, pois esse nutriente é fundamental para o enraizamento”, ressalta o professor.

Arroz com sustentabilidade — Importante cultura da safra de verão e diferenciada pela água utilizada na irrigação, a lavoura de arroz requer atitudes específicas do produtor e que podem ser decisivas para o aumento da produtividade. A gestão e o planejamento devem ocorrer nos 12 meses do ano, com atenção especial na pós-colheita, aponta o engenheiro agrônomo Rui Ragagnin, diretor técnico do Instituto Rio-Grandense do Arroz (Irga). “Entre as práticas recomendadas, podemos destacar o manejo da soca, o preparo do solo e a drenagem como elementos que, somados, resultam na real possibilidade de semear a lavoura no período preferencial, que se inicia na segunda quinzena de setembro e se estende até a primeira quinzena de novembro. A semeadura no período preferencial aproveita as precipitações de primavera para o início da irrigação, diminuindo a necessidade de captação de mananciais ao longo do ciclo da cultura”, define.

O manejo correto da soca, a drenagem e a limpeza de canais também vai facilitar a eliminação de plantas invasoras remanescentes, como o arroz-vermelho, e de plantas hospedeiras de insetos e pragas, como o gorgulho da bicheira e percevejos.

Para reforçar a sustentabilidade econômica e ambiental da lavoura, o diretor do Irga incentiva a secagem e armazenagem na propriedade, a rotação de culturas em terras planas e a integração dos sistemas de produção em terras planas, lembrando que nos últimos anos tem aumentado o número de produtores de arroz que investem em cultivos como a soja. “Essa integração do arroz com a pecuária e a rotação de culturas oferecem ao produtor a possibilidade de diversificação da sua matriz produtiva com mais de uma fonte de renda, diminuindo os riscos de se exercer apenas uma atividade. Assim, o arroz, em determinado momento, pode estar em crise, mas não o produtor”, justifica o agrônomo.

Máquinas prontas para o trabalho — Cuidar da manutenção e da regulagem das semeadoras que serão usadas no trabalho no campo também é essencial no momento de planejar a lavoura. Antes de tudo, o produtor deve lembrar um detalhe que parece óbvio, mas que muitas vezes é esquecido: ler o manual de operação da máquina. “É nesse item que são abordados, com linguagem simples, todos os procedimentos relacionados à regulagem, manutenção e segurança”, indica o engenheiro agrônomo Diego Augusto Fiorese, professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Os preparativos devem começar ainda no final da semeadura da safra anterior, antes do armazenamento do equipamento, quando deve ser feita a completa limpeza, especialmente dos depósitos de adubos e sementes. “O procedimento consiste na lavagem com água e sabão neutro. Assim, a máquina ficará livre de resíduos que provocam desgastes prematuros dos componentes e que podem causar corrosão, formar crostas e travamentos nos componentes mecânicos”, salienta.

Professor Diego Fiorese, da UFMT: preparação das semeadoras deve iniciar no final do plantio da safra anterior, antes do armazenamento da máquina

Antes do plantio, o produtor ou o operador pode fazer procedimentos relacionados à regulagem, desde que essa operação seja realizada com tempo hábil para se conhecer toda máquina e para a compra e substituição de componentes que possam estar danificados. “Mas também devem ser feitas as regulagens com alguns dias de antecedência, utilizando o mesmo adubo, a mesma semente, na mesma área onde será implantada a cultura, na mesma velocidade de trabalho e com o mesmo operador. Assim, a regulagem será feita com as mesmas condições da operação de semeadura propriamente dita. Ainda cabe ao operador fazer a aferição pelo menos uma vez por dia, e considerar novas aferições em caso de mudanças nas condições de trabalho”, assinala Fiorese.

Itens de atenção — Segundo o professor, entre os principais itens relacionados às regulagens estão os mecanismos dosadores de sementes, com atenção especial ao número e tamanho dos furos/alvéolos dos discos dosadores (para semeadoras de precisão). Já para as semeadoras de fluxo contínuo, destinadas às sementes miúdas (arroz, trigo e pastagens, por exemplo), a atenção volta-se ao posicionamento dos rotores acanalados; mecanismos dosadores de adubo, nos quais deve ser observado o passo de rosca dos helicoides; e conjuntos de transmissão, formados por engrenagens, correntes, eixos e acoplamentos. “Também podemos citar os discos de corte da palha, que são componentes utilizados para corte dos restos vegetais presentes na superfície e são empregados nas semeadoras para plantio direto; e os sulcadores utilizados para abrir o sulco e para deposição de semente e adubo”, descreve. “Na maioria das semeadoras, encontram-se rodas que limitam a profundidade de penetração e deposição de sementes, e também mecanismos que auxiliam no fechamento do sulco para evitar exposição de sementes. É importante sempre conferir na área semeada se a profundidade recomendada está de acordo, e se não estão ficando sementes descobertas”.

As regulagens relacionadas à quantidade de sementes são fundamentais, já que o número de plantas adequado atinge o maior potencial de produtividade. O espaçamento entre sementes também é importante e está diretamente relacionado com a velocidade de semeadura, que é recomendada geralmente entre 4 e 6 km/h pela maioria dos fabricantes.


Busca constante por evolução: meta de 70 sacas de soja e 130 de milho por hectare

Além da preocupação constante com boas práticas, o planejamento antecipado de cada safra é prioridade para o produtor José Oscar Durigan (foto). Na propriedade de 1,6 mil hectares em Montividiu/GO, os insumos para o ciclo 2014/15 foram negociados em março, por meio do Grupo Associado de Pesquisa do Sudoeste Goiano (Gapes), formado por 32 produtores que representam uma área cultivada de 90 mil hectares. A possibilidade da negociação feita em conjunto manteve os custos da próxima safra semelhantes aos contabilizados na temporada passada, de cerca de R$ 1,7 mil por hectare.

Na última safra, Durigan obteve uma média de produtividade de 60 sacas na soja. Segundo ele, houve uma perda de duas sacas por hectare devido à falta de chuva, número bem abaixo da média de prejuízo na região, que ficou entre 15 e 20 sacas por hectare. “Há cerca de dez anos, minha produtividade era de 54 ou 56 sacas por hectare, mas fui testando materiais, incorporando tecnologias e avaliando as melhores épocas de plantio para continuar evoluindo. Meu objetivo é chegar a 70 sacas por hectare”, declara. Na lavoura de milho, o produtor colheu 120 sacas por hectare no ano passado e, para a atual safra, ele espera um rendimento entre 125 e 130 sacas por hectare.

Com plantio de soja no verão e milho na segunda safra, Durigan não abre mão do plantio direto para a conservação do solo e retornos com a maior fertilidade da terra. Mesmo antes do plantio, ele diz que está sempre por perto da lavoura, monitorando o surgimento de possíveis problemas fitossanitários. “Esse acompanhamento no início de cada ciclo é fundamental, assim como o MIP (Manejo Integrado de Pragas), que procuro seguir à risca”, relata. A agricultura de precisão também é utilizada há cerca de três anos com o intuito de conquistar melhores resultados com as recomendações específicas para cada talhão.


Para deixar os inimigos distantes

Mesmo que a cultura de entressafra seja apenas de cobertura, sem expressão econômica, o monitoramento da área deve ser constante para prevenir e combater as pragas iniciais das lavouras de verão. A pesquisadora em Entomologia da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT) Lucia Vivan (foto) menciona que é importante verificar a ocorrência de inimigos naturais no ambiente. “Nos últimos anos, tem-se percebido a presença de parasitoides e predadores, o que pode contribuir para manter a população da praga em equilíbrio”, esclarece.

Segundo ela, antes do plantio é importante realizar o monitoramento das áreas e, se houver presença de lagartas, deve-se fazer a dessecação antecipada, pelo menos 15 a 20 dias antes do plantio a fim de desfavorecer essas lagartas. “Se a dessecação for realizada imediatamente, antes do plantio deve ser utilizado um inseticida se for constatada a presença de lagartas, sendo esse inseticida seletivo, evitando piretroides nesse momento. A dessecação com produtos de largo espectro pode favorecer o desequilíbrio das pragas e a ocorrência de surtos na fase inicial de estabelecimento da cultura”, avalia Lucia.

Entre as pragas iniciais, a pesquisadora cita, na soja, a lagarta-elasmo, que causa perda de estande, e os besouros desfolhadores, que podem ocasionar desfolha significativa, principalmente nos plantios mais precoces. As pragas de solo, como percevejo-castanho, atacam as culturas de soja, milho e algodão. ”É importante monitorar as populações de acordo com o histórico de ataque nas áreas e realizar o tratamento de sulco de plantio ou o tratamento de sementes com produtos como clorpirifós para sulco de plantio”, aconselha.

Em algumas regiões, como no Estado de Mato Grosso, também existe o problema de corós, que atacam a soja e o milho. “Esses ataques podem causar reduções de estande e de vigor das plantas, distúrbios fisiológicos e acamamento que, por sua vez, refletem na produtividade da cultura. Para esses casos, é importante realizar controle com o tratamento de sementes com fipronil”, frisa.

Nas áreas com milho, os produtores ainda devem ter cuidado com o percevejobarriga- verde, que ataca a região do colo das plântulas, causando pequenas perfurações. “À medida que o milho cresce e as folhas se desenvolvem, a lesão aumenta. Como resultado do dano, as plantas ficam com o desenvolvimento comprometido, apresentando um aspecto chamado de ‘encharutamento’. Os prejuízos podem variar de 25% até a perda total”, prossegue Lucia. Para o controle desse percevejo, é importante realizar o tratamento de sementes, pois os danos ocorrem desde o período de emergência das plantas até 21 dias após a emergência.