Glauber Em Campo

 

SE CONTINUAR COMO ESTÁ, EM BREVE NÃO USAREMOS MAIS ETANOL

GLAUBER SILVEIRA

A Aprosoja tem se empenhado muito na busca de apresentar a produção de etanol de cereais como uma grande alternativa para a região central do Brasil. Na última reunião, de junho, felizmente a Céleres e o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) bateram o martelo: produzir etanol de cereais é extremamente viável no Centro-Oeste. Pensei: maravilha! Primeiro, porque exportamos 20 milhões de toneladas de milho, chega a safra e o preço do milho despenca e inviabiliza a produção, e o etanol seria uma das alternativas.

Porém, infelizmente, minha alegria durou pouco. Logo veio a parte ruim. Foi apresentado o problema: apesar da viabilidade financeira apresentada, considerando- se um investimento na usina no valor de US$ 68 milhões para o consumo de 500 mil toneladas de cereais (milho, sorgo, etc.) ao ano, com um payback de seis anos e uma TIR (taxa interna de retorno) de 27,26%, o problema seria a comercialização do etanol produzido. Ou seja: vamos vender para quem?

No primeiro momento, minha decepção foi total. Existe viabilidade financeira, tem milho sobrando, mas não temos consumo para o etanol. Atualmente, Mato Grosso produz mais de 1 bilhão de litros de etanol, os quais são consumidos 60% no Estado e 40% são vendidos geralmente para o Norte do Brasil, com vendas também para São Paulo – sendo assim, o mercado está saturado. Foi apresentado na reunião que em MT atualmente o etanol representa menos de 30% do mercado de combustíveis e a gasolina detém mais de 70%.

Temos uma aptidão enorme no Brasil para produzir etanol e hoje consumimos mais gasolina que etanol. Há dez anos em MT o etanol respondia por mais de 60%. Se estivéssemos na proporção 60% etanol e 40% gasolina, o Estado hoje teria que importar etanol. Ficou então a pergunta: por que as pessoas deixaram de abastecer com etanol? A resposta está no preço do etanol e da gasolina. A diferença hoje é menor que 30%, o que faz as pessoas abastecerem com gasolina devido ao consumo maior dos carros ao usar etanol.

Fica claro que o controle do Governo sobre o preço da gasolina é um dos problemas. Como consumidor que já paga caro pelo combustível, seja qual ele for, lembro que o combustível no Brasil é um dos mais caros do mundo, com pré-sal ou não, com aptidão espetacular para produzir etanol ou não. Sendo assim, me preocupa muito apenas a tese de se corrigir em 20% o preço da gasolina, pois podemos ter também corrigido em 20% o preço do etanol.

Fica claro que, para termos um aumento do consumo de etanol, precisamos aumentar a diferença do preço do etanol e da gasolina. Porém, a meu ver, não quer dizer que isso pode ser resolvido somente pelo aumento do preço da gasolina. Será que não pode ser pelo barateamento do preço do etanol?

Fui ver como se forma o preço do etanol ao consumidor de MT: as usinas vendem para a distribuidora na média de R$ 1,40 a R$ 1,60 o litro na safra. formados pelo custo industrial, pela matéria-prima e pelos impostos, com todos os impostos pagos pela usina, e o frete em geral computado até Cuiabá. O custo de produção industrial do etanol, no geral, fica em torno de R$ 0,40 o litro, e o preço nos postos varia de R$ 2,05 a R$ 2,45 o litro. Ou seja: existe um acréscimo de quase R$ 1,00 por litro, o que me parece um exagero.

Na minha cidade, Campos de Júlio/ MT, temos uma usina, a Usimat, que me informou vender etanol para as distribuidoras a R$ 1,57 o litro na safra posto em Cuiabá e, pasmem, nos postos da minha cidade, que fica a apenas 70 quilômetros da usina, o preço do etanol na bomba é de R$ 2,41, ou seja, R$ 0,84 de acréscimo. Um dos problemas desse acréscimo no preço é o “passeio” dado pelo combustível: o etanol carregado na usina em Campos de Júlio é transportado até Cuiabá e depois volta para abastecer os postos da região. Esse “passeio” custa ao consumidor o acréscimo de R$ 0,14 o litro.

Com outros combustíveis, flagramos que esse “passeio” serve apenas para encarecer o produto na bomba e dar dinheiro para transportadoras, as quais muitas delas são das distribuidoras. É dinheiro jogado fora e poluição inútil pelas “estranhezas” na distribuição de combustíveis no Brasil. Fica claro que existe uma distorção. Temos usinas quebrando por estarem com margem apertada, e os consumidores não abastecem com etanol por ser caro.

Muitas usinas identificaram esse problema, vendo que a margem maior está fora da porteira da usina. Por isso, grandes usinas criaram sua distribuidora ou se uniram a elas com parcerias, e quem não fez isso está em dificuldades. Entendo que na região Centro-Oeste, onde temos uma enorme aptidão para produzir milho e cana, poderíamos estar abastecendo 100% com etanol, e o consumidor de MT estaria pagando de R$ 1,90 a R$ 2,00 o litro de etanol. Afinal, se continuarmos como está, em breve seremos o país 100% gasolina.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT