Na Hora H

 

E A CHUVA NÃO VEM

ALYSSON PAOLINELLI

Esta falta de chuvas no Brasil- Central é só uma parte triste dos nossos ciclos meteorológicos que se repetem de tempos em tempos. Ou já é a mudança climática tão falada e tão discutida na atualidade. Seja o que for, nós temos é de nos prevenir para enfrentar essa incômoda situação. De imediato temos três saídas: a primeira delas, a mais racional e sempre eleita, é por meio da ciência e da tecnologia, abrindo novos espaços para plantas mais resistentes ao estresse hídrico e mais bem adaptadas às constantes ocorrências de prolongados veranicos que tanto nos incomodam.

A segunda, tão decantada no Brasil, mas nunca efetivamente realizada, é o uso da irrigação como instrumento mais adequado, especialmente em um país que detém o maior manancial de águas doces do globo. Infelizmente, os programas de irrigação não passam de promessas decantadas principalmente em vésperas de eleição por governantes pouco responsáveis que acham que apenas anunciar recursos para projetos de irrigação resolve o problema. Para se demonstrar a incapacidade desses governos, até hoje não foram capazes de definir qual ministério ou órgão público deve ser o responsável por essa ação.

Ou melhor, desculpem-me, estou me esquecendo do condomínio político em que há muitos anos vive o Brasil. Havia esquecido que a definição lógica nos dias de hoje é a qual partido político caberá a administração do programa de irrigação. Desculpem-me mais uma vez, sou produtor rural e engenheiro agrônomo, e com a cabeça que tenho, só posso pensar que essa é uma tarefa de um eficiente Ministério da Agricultura, coisa que há muito tempo não temos mais. A terceira e última alternativa seria termos uma eficiente política pública funcionando, na qual o crédito rural e o seguro rural fossem voltados de fato para o produtor, e não para os bancos e seguradoras.

Os exemplos da Espanha e de Israel não são impossíveis ou difíceis de serem conhecidos e estudados. Lá resolvem essa parada com uma eficiente política de crédito e seguro rural, inclusive, com um belíssimo fundo de catástrofe que aqui só existe no papel graças à visão e à eficiência de uns poucos congressistas que temos, que levaram a sério essa questão e produziram uma lei baseada nas experiências de países sérios onde os executivos são capazes de executá-las. Aqui só ficou em promessas, a lei já está quase caducando e, ao que me parece, o Governo nem a conhece.

Aliás, o que o Governo parece conhecer bem é o esqueleto de uma dívida de mais R$ 150 bilhões, que vem sendo prorrogada e absorvida pelo Tesouro Nacional, cujo gasto só com a rolagem dessa dívida é provavelmente 15 vezes maior que o gasto anual para se fazer um belo fundo de catástrofe no Brasil. Desculpem- me mais uma vez, estou esquecendo que fundo de catástrofe não é capaz de negociar votos a projetos de interesse do Governo. É melhor pagar 15 vezes mais e manter a arma da conquista dos votos à mão, especialmente na hora de votar projetos de grande interesse do Executivo.

Não podemos nos esquecer da quarta e única alternativa que nos resta. É rezar fervorosamente para que São Pedro nos proteja, com as chuvas amenas que tanto necessitamos. E, para nós agricultores, ao fim da reza, não esqueçamos de pedir a São Pedro que nos ajude também a ficar livres desses incompetentes governos que temos.

Engenheiro agrônomo, produtor rural e ex-ministro da Agricultura