O Segredo de Quem Faz

 

O OLHO do dono faz o negócio engordar

No sertão piauiense, em Sebastião Leal, uma fazenda de soja, algodão e milho chama a atenção pela beleza da sede e gestão exemplar. Por ser tão bem administrada, a Fazenda Progresso, da família Sanders, recebeu o prêmio Gestão da Empresa Agrícola do Rally da Safra 2014. Uma das justificativas para a distinção? “Eu resido aqui dentro da fazenda. Fico aqui presente dentro da fazenda pelo menos 330 dias por ano. Estou muito presente”, ressalta o administrador de empresas e engenheiro agrônomo Gregory Sanders, com o filho Juan Santiago e o pai Cornélio, que adquiriu a área 13 anos atrás. Na Progresso, em 2013/14, foram cultivados 25.950 hectares – 15.686 de soja, 4.674 de algodão, 5.590 de milho safra e 1.950 de milho safrinha. E na região, a família mantém ainda a Fazenda Nauris, com mais 5.400 hectares de soja.

A Granja — Como começou e transcorreu o envolvimento da família Sanders com o agronegócio?

Gregory Sanders — A origem do negócio ocorreu quando o meu avô, Thomas Sanders, veio da Holanda, foi no ano de 1949. Após a Segunda Guerra Mundial, a Holanda e a Europa ficaram bem devastadas, uma insegurança muito grande, e ele resolveu vir para o Brasil. Ele tinha ouvido muito sobre o Brasil pelos outros imigrantes que estavam vindo para cá. Residiu dois anos em Holambra/SP, na colônia holandesa formada ali e, por fim, acabou se mudando para Não-Me- Toque/RS, onde o pai e grande parte dos irmãos dele nasceram. E o meu avô sempre mexendo com lavoura. Meu avô faleceu quando o pai tinha 15 anos e os irmãos mais velhos continuaram o negócio junto com ele. O pai trabalhou desde os dez anos de idade, fez a opção, de muito precoce, parar de estudar e começar a trabalhar. Logo após o avô falecer, ele optou por ajudar os irmãos para poder participar na sociedade. Os irmãos eram Gerardus, Cornélio, Theodorus, Henrique e o Thomas, o mais novo, que entrou na sociedade mais tarde. Hoje não estão mais vivos o Henrique, o Gerardus e o Thomas. Eles tinham uma área em Ernestina/ RS e Santa Bárbara do Sul/RS. E aí começaram a expansão. Em 1976, adquiriram uma área em Paracatu/MG e outra em Dourados/MG, e no final de 1976/ início de 1977, o meu pai assumiu a área de Dourados. Após a morte do meu avô, os irmãos mantiveram a sociedade, mas aos poucos foram se separando. O primeiro a sair foi o Henrique, em 1977, o Theodorus saiu em 1982, o Thomas em 1993/94, e o meu pai ficou na sociedade com o Gherardus até o ano de 2000. Nesse ínterim, o pai vendeu as áreas que tinha em Dourados e se mudou para Minas Gerais, onde adquiriu mais uma área. O pai e o Gerardus residiam em Paracatu, a família ficava em Brasília e o meu pai em Paracatu administrando o negócio. E em 2000, o pai resolveu separar a sociedade por diferenças de gestão. Os dois tocaram o negócio separados por 20 anos, o meu pai respondendo por Dourados e depois Primavera do Leste/MT – onde foi comprada uma área em 1985, que ficou com a gente até 1993 – então o que o meu pai conversava e concordava, o outro assinava embaixo e eles tocavam o negócio de forma autônoma. O Gerardus fazendo o que achava melhor em Paracatu e o meu pai, em Dourados e Primavera. Em 1993, começamos a mexer com algodão em Dourados, pois de 1986 a 1993 trabalhamos com semente de soja em Dourados, mas a região não era muito propícia ao algodão por causa da condição climática. Em Dourados, tem um problema sério que é a definição do término das chuvas, que não é bem clara. Perdemos muito algodão pronto por causa de chuvaradas, por ficar 30 dias sem poder colher o algodão. Então, isso motivou o meu pai a querer sair de Dourados. E era uma região complicada para fazer semente de soja, além do problema para o algodão, e ele resolveu vender tudo e aumentar a área em Minas. E aí começou o choque de gestão. Em 2000, ele saiu da sociedade e começou a busca por mais áreas.

A Granja — E a tua participação no negócio e a chegada ao Piauí?

Sanders — Eu comecei a fazerAgronomia em 1997 em Dourados, onde estudei em 1997 e 1998, e no início de 1999 fiz vestibular em Brasília na UnB (Universidade de Brasília) e me mudei para Brasília, onde estudei de 1994 a 2004. Neste processo, em 2000 eu já comecei a participar. Começamos inicialmente em Minas Gerais, que tinha áreas disponíveis para venda, mas não achamos nada que agradasse. Eu voava, e então levei meu pai para ver área em Minas, na Bahia... E em uma viagem à Bahia, em julho de 2000, ao visitar uma área em Formosa do Rio Preto, não deu tempo de chegar em Paracatu, e optamos em pousar em Barreiras. O pai encontrou no hotel um conhecido dele que estava na região e ele perguntou o que estávamos fazendo ali. Meu pai disse que estava vendo área para comprar, que foi ver uma em Formosa do Rio Preto, Fazenda Águia de Prata, e ele disse “ah, pertinho do Piauí, tem um pessoal que está plantando no Piauí, estão falando muito bem, tem umas áreas muito bonitas, planas, boas de chuva...” e aí despertou o interesse. Então, em outubro de 2000, meu pai veio ver algumas áreas no Piauí e aí surgiu o Piauí na história. E ele começou a procurar o que tinha de ofertas de áreas para vender no Estado. Procurando áreas surgiu a fazenda que a gente está aqui. Na verdade, eram produtores da Bahia que tinham formado um grupo para assumir esta área que era a antiga Fazenda Saponga, cultivada desde 1988. O pessoal do grupo nos ofertou um pedaço da área. E esta área tinha uma dívida grande no Banco do Brasil e Banco do Nordeste, dos antigos proprietários. Eles ofertaram 7.800 hectares do total, e todas as áreas juntas somavam uns 36 mil, 38 mil hectares. O pai se interessou, mas disse que queria estes 7.800 hectares, uma área bruta, livre de dívidas. E o pessoal estava negociando com o Banco do Brasil, que não se definia, e o pai disse que não dava mais para plantar na safra 2000/01. E em março de 2001, o pai adquiriu uma aérea em sociedade com meu sogro (que na época eu só namorava a filha dele), e ele comprou uma área em março, separada desta daqui. Viemos ver esta área em abril de 2001, e acabou que, quando estávamos em Uruçuí/PI, pousando na casa de um conhecido antigo nosso, o mentor do grupo que adquiriu a Saponga ligou e disse que o Banco do Brasil tinha colocado a área a leilão em função da dívida e arrematado. E eles iriam perder, então, precisavam ofertar, e o pai pegar a área que tinha a dívida, senão eles iriam perder. Aí o pai entrou no negócio e acabou que, em julho de 2001, a negociação se concretizou. O pai assumiu a dívida antiga no Banco do Brasil e a coisa começou. A busca de expansão de área pelo meu pai quando se separou da sociedade com o tio Gerardus lá em Paracatu fez com que acabássemos aqui no Piauí.

A Granja — Para quem já teve lavouras em tantos lugares, quais são os diferenciais de produzir no Piauí? Quais as principais características da região?

Sanders — A grande diferença do Piauí para outras regiões é a questão dos preços dos produtos agrícolas. São superiores a qualquer outra região de maior expressão de produção. Diretamente ligado a esta condição é a logística. Na nossa região, estamos a uma distância de 850 a 1.100 quilômetros de todas as capitais do Nordeste. É como a se a nossa região de Uruçuí e Sebastião Leal fosse o centro de um raio que faz aquele giro por todo o Nordeste. A região está bem localizada para atender o mercado do Nordeste. Toda a nossa logística é por aqui. A entrada e saída são pelos portos do Nordeste. Estamos bem, a 820 quilômetros do Porto do Itaqui, em São Luís/MA, que é o principal porto para saída de soja e entrada de adubo. E tudo é asfalto.

A Granja — E quanto a solos, regime de chuvas...?

Sanders — O Piauí tem uma variação bem grande de solos, com 10% a 40% de argila. As áreas da Fazenda Progresso estão em uma média de 30% de argila, o que é muito bom para a região. A pluviosidade média na região é de 1.100 milímetros por ano. O período de chuva começa no finalzinho de outubro, dos dias 20 a 25, finalizando em maio. As últimas chuvas esporádicas, uma ou duas, acontecem em maio. Sempre é normal um veranico em dezembro ou janeiro. No ano passado, o veranico grande foi em fevereiro. É normal um veranico de 20 dias. Só que a gente percebe que, em comparação com outras regiões, aqui o solo suporta muito bem. Quinze a vinte dias sem chuva não é tão severo quando você fala de áreas corrigidas, com fertilidade alta. Isto sempre chamou a nossa atenção.

A Granja — Como é que vocês tomam a decisão de ampliar ou não a área, ou de uma cultura específica?

Sanders — O que a gente tem feito nos últimos anos é agronomicamente o que fica melhor. Esta decisão de plantio não tem respeitado tanto os quesitos econômicos, preços de commodities e tal. Temos embasado mais o que agronomicamente fica melhor, as sucessões de culturas e rotações. E a coisa tem dado certo. Acho que com um pouco de sorte também a gente ter conseguido acertar. Os preços nos últimos anos têm sido bons de uma forma geral a todos os produtos. A principal decisão do que plantar, em que área e que tamanho tem sido agronomicamente o que fica melhor.

Granja — E quais são as produtividades que vocês obtêm?

Sanders — Na safra 2013/14, na Fazenda Progresso, nos 15.686 hectares de soja, fechamos com uma média de 51 sacas por hectare. No milho, nos 5.590 hectares, fechamos com 138,27 sacas por hectare. A estiagem que tivemos de 22 de dezembro até 21 de janeiro afetou muito seriamente o milho, pegou a cultura em uma fase muito crítica. O algodão neste ano estamos prevendo uma média entre 290 e 300 arrobas por hectare. Pelo que já colhemos, tivemos área com 350 arrobas, 285, 305, vai ter área com 240... mas acredito que em uma média entre 290 e 300 arrobas.

A Granja — Como ocorre a gestão do negócio de vocês? O que justificou a premiação concedida pelo Rally da Safra?

Sanders — A avaliação para conceder o prêmio a cada categoria é uma fotografia. O que motivou foi a organização da fazenda. Estamos em uma região que, na época em que chegamos, não tinha nada de infraestrutura. Então, você tinha que ter tudo dentro da fazenda, senão a coisa não ficava viável, não viabilizava o empreendimento. Na época, começamos a montar uma estrutura muito grande dentro da sede da Fazenda Progresso. Começou em 2001 e a gente sempre construindo, aumentando... UBS (Unidade de Beneficiamento de Sementes), algodoeira, silo, armazenagem, alojamento... Ficou uma estrutura muito grande. E eu resido aqui dentro da fazenda. Me mudei pra cá em 14 de outubro de 2004, após concluir a faculdade de Administração de Empresas, em agosto de 2004, e Agronomia, em 2002. Aqui é a minha casa. Minha mãe é uma pessoa que tem um capricho, um conhecimento de paisagismo, de jardinagem, de organização, de arquitetura. Ela tem um conhecimento empírico que todo mundo fica admirado com a capacidade dela de criar os ambientes, de fazer as coisas. A fazenda é muito grande. Incluindo o aeroporto, são 41 hectares de sede. E chama muita atenção porque tudo é organizado. Do ferro-velho até a portaria, tudo é organizado, ornamentado, com jardim, gramado, asfalto. Então, tudo chama muito a atenção. Quem chega aqui tem esse impacto, e o grande impacto é ver este negócio que a gente criou onde chove pouco, o período de chuvas é curto e há carência de tudo. Então a pessoa não imagina chegar e ver uma coisa desse tipo aqui no Piauí. Isso é o que chama muito a atenção. Outra questão é que eu fico aqui presente dentro da fazenda pelo menos 330 dias por ano. Estou muito presente. E fazenda tomou um porte muito grande. Nestes 13 anos de existência cresceu em um ritmo muito acelerado, venceu os desafios, os problemas climáticos, e conseguimos manter um ritmo de crescimento, embora tivéssemos adversidades de clima, preços, adaptação de tecnologias. Nós implantamos aqui na região o algodão herbáceo em alta escala e tivemos que adaptar tecnologia, fitotecnia, aprender com a cultura na região. E desenvolvemos um pacote que hoje serve de modelo a outras empresas também fazerem. Ficou mais fácil. Fomos os precursores, os pioneiros do algodão. Foram várias coisas que levaram a esse mérito para a gente. Embora seja uma empresa grande, ela tem uma versatilidade muito grande, uma velocidade que conseguimos dar para as decisões, para as coisas fluírem, porque a gente está dentro. Montamos uma equipe e tudo é feito de forma participativa, e estamos sempre junto na hora das decisões, sempre presentes. Conseguimos união com os nossos colaboradores para tomar uma decisão mais acertada. Trocando informação, tendo a informação de forma mais rápida e decidir de maneira mais rápida. E quem decide está sempre aqui presente, e assim a coisa flui com muita velocidade. Até brinquei no dia da entrevista do Rally da Safra que a Fazenda Progresso é “um navio que tem a agilidade de um caiaque”. Por ela não ser tão burocratizada, não ter tantos níveis hierárquicos, e quem é dono está sempre presente, participando do processo de gestão.