Plantio Direto

Fertilidade nos solos de diferentes ''CERRADOS''

Fernando Penteado Cardoso, Eng. agr. sênior,
Esalq/USP, 1936

PARTE II – FINAL

Em decorrência da agricultura tradicional se basear nos solos na turalmente férteis, numa época em que a nutrição mineral das plantas era quase que desconhecida, foi constatado o problema da perda da fertilidade inicial, originando como consequência os esforços iniciais da pesquisa agronômica para recompor os níveis anteriores. A pesquisa assim orientada teve como um dos pioneiros F. Dafert, do Instituto Agronômico (IAC), de Campinas/SP, no final do século XIX. Seus relatórios iniciais trazem recomendações de adubação para cafezais em terras inicialmente férteis que se esgotaram. As terras originalmente pobres, de norte a sul do País, continuavam a ser aproveitadas como pastagens naturais para bovinos.

O problema da restauração da fertilidade originou trabalhos experimentais tanto do IAC como de outros centros de pesquisa, sejam federais ou estaduais, localizados em vários pontos do País. Em 1942, Cardoso de Menezes e outros publicaram o resultado de pesquisas realizadas na Estação Experimental de Sete Lagoas/MG, relatando o aumento deprodução por calagem e adubação em solo de cerrado. A produtividade alcançada foi modesta quando comparada com a obtida em solos férteis de mata alta. Ao que se informa, os resultados foram melhores quando empregaram calcário dolomítico em vez de calcítico, face à deficiência do solo em magnésio.

O problema da restauração da fertilidade dos solos originou trabalhos experimentais tanto da instituição IAC, sediada em Campinas/SP, como de outros centros de pesquisa, sejam federais ou estaduais

Em 1948, o pesquisador José Emilio G. Araújo, do Instituto Agronômico do Sul, em Passo Fundo/RS, divulgou o resultado de pesquisa, mostrando que os sintomas de crestamento do trigo podiam ser eliminados pelo enriquecimento do solo em cálcio por meio da calagem. Seu relatório “O Alumínio Trocável, Possível Causa do Crestamento do Trigo”, extenso e pormenorizado, traz a citação de trabalho anterior, datado de 1944, de autoria de Benedito O. Paiva, do Rio Grande do Sul. Essas pesquisas da década de 1940, concentradas na cultura do trigo, mal visualizavam que estavam abrindo caminho para o cultivo da soja e do milho no verão nas terras fracas e ácidas dos campos nativos.

Nos anos 1950, Feuer, da Universidade de Cornell/EUA, apresentou excelente relatório de levantamento dos solos do Brasil Central, decorrente de encomenda feita pela comissão da Novacap, da qual participava o engenheiro-agrônomo Bernardo Sayão, amigo pessoal do presidente JK. Reza o relatório que na região de cerrado do Brasil Central era viável a produção de alimentos e de outros produtos agrícolas.

Em 1956, Colin McClung e outros do Instituto de Pesquisas IRI, em Matão/SP, estudaram a restauração da fertilidade em solos inicialmente férteis então esgotados pela cultura de café. Ante os resultados insatisfatórios, tiveram a ideia de comparar esses solos com outros igualmente fracos, porém, desde que sua origem seja de cerrado. Adotaram o sistema de adubação “todos menos um” para determinar quais nutrientes eram deficientes. Os resultados acima da expectativa foram publicados em boletim da própria instituição e reproduzidos na publicação Bragantia, do IAC.

Apesar das restrições ao aproveitamento das terras fracas dos cerrados, sob a alegação de que deve ser preservado, não há impedimento, seja ético, econômico ou social em transformar esses solos depauperados em terras agricultáveis

Seguiram-se validações em campo localizados em diferentes solos de cerrado em três regiões do estado de São Paulo. Os resultados foram divulgados pelo Boletim N° 29 do IRI, publicado em 1963, constituindo a evidência científica de que as terras fracas de cerrado podiam ser convertidas em solos agricultáveis próximos das terras muito férteis revestidas de mata alta, ricas de espécies vegetais encontradas unicamente nesses tipos de solo, que deram origem aos extensos cafezais do País.

Estes eram os conhecimentos técnicos que originaram o sucesso das aberturas da vegetação de cerrado nas regiões de clima favorável de muita insolação, calor e chuvas confiáveis. As pesquisas agronômicas continuaram por iniciativa das instituições preexistentes e a nova empresa que reuniu os diversos estabelecimentos federais, a Embrapa.

A partir dos anos 1970, a Embrapa Cerrados, então Centro de Pesquisa da Agricultura no Cerrado (Cpac), em Planaltina/DF, dedicou-se a estudos dos solos pobres do Brasil Central, enquanto a Embrapa Trigo, em Passo Fundo/RS, bem como outras estações experimentais, dedicaram-se ao estudo dos solos pobres de origem. Vieram consolidar e aperfeiçoar as práticas agrícolas então adotadas pelos produtores de soja e de outras culturas, baseadas na aplicação de calcário, completada por adubação com fósforo e demais nutrientes.

Efeito do gesso — Nesse período foi comprovado pela Embrapa o bom efeito do gesso para aumentar a resistência do arroz à estiagem. Movimentando o cálcio para camadas mais profundas do solo, o gesso promovia um sistema radicular capaz de procurar a umidade em horizontes onde remanescia durante a seca.

Em 2009, a Fundação Agrisus - Agricultura Sustentável promoveu e financiou um levantamento sobre a fertilidade dos solos cultivados pelo sistema de plantio direto, que evita o revolvimento da terra. As 2.342 amostras coletadas em 1.171 locais por todo o País revelaram a formação de um horizonte rico em fósforo na camada subsuperficial onde foi aplicado e não revolvido. Esta constatação, embora anteriormente prevista, veio a confirmar a possibilidade de aplicar doses de adubo fosfatado apenas suficientes para arranque e reposição.

As pesquisas sobre o Cerrado justificaram a premiação do engenheiro agrônomo Edson Lobato, da Embrapa Cerrados, ao partilhar o Prêmio Mundial do Alimento (WFP) em 2006, ao lado de outros técnicos dedicados ao aproveitamento do Cerrado, sejam Colin McClung e Alysson Paolinelli.

Nos anos 1970, a Embrapa comprovou que, movimentando o cálcio para camadas mais profundas do solo, o gesso promove um sistema radicular capaz de procurar a umidade em horizontes onde remanescia durante a seca

Por duas vezes, em 1995 e 2004, Norman Borlaug, Prêmio Nobel da Paz 1970, visitou o Cerrado em companhia do autor. Empolgado com o que viu, não se conteve ao exclamar o seguinte: “Estou convencido de que o que está acontecendo no Cerrado é um dos acontecimentos espetaculares de desenvolvimento agrícola que ocorreu no mundo nos últimos 100 anos”.

Por vezes são noticiadas restrições ao aproveitamento dessas terras fracas de origem, sob a alegação de que o Cerrado deve ser preservado. Na realidade, não há impedimento, seja ético, seja econômico ou social, em transformar esses solos depauperados em terras agricultáveis, produzindo alimento para o País e para o mundo. A preservação dos cerrados e dos campos nativos se justifica por motivos históricos, científicos e sociais ao proporcionar lazer turístico. Para tanto, serão suficientes as áreas pedregosas ou declivosas impróprias para cultivo e os parques públicos de proporções limitadas situados nos diversos subbiomas por todo o País.