Glauber em Campo

POR QUE IMPORTAMOS O QUE DEVERÍAMOS EXPORTAR?

GLAUBER SILVEIRA

Constantemente, temos visto reportagens sobre o preço de diversos produtos que duplicam ou quadriplicam de preço, produtos estes que fazem parte do dia a dia dos brasileiros e compõem a cesta básica. O tomate virou vedete dos noticiários, mas tivemos diversos produtos na mesma situação, como feijão, cebola, milho etc., e em um país com tamanha área agrícola isto não deveria acontecer. E o que está ocorrendo é que estamos sofrendo de falta de planejamento e investimentos, principalmente nos produtos que diariamente ocupam a mesa dos brasileiros.

Em dez anos, a importação de frutas e hortaliças cresceu mais de 400%, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), e o Governo justifica que isso ocorreu porque melhorou o poder aquisitivo do brasileiro. Segundo o IBGE, cada brasileiro consume 27 quilos de frutas e verduras por ano, enquanto na Itália o consumo é de 157,7 quilos, EUA, 98,5 quilos e Israel, 73 quilos. Concordo que nosso consumo tem aumentado, mas não justifica importarmos tanto quando deveríamos estar produzindo para nosso consumo e inclusive exportando.

Este aumento de consumo de frutas e hortaliças pelo brasileiro deve ser visto como uma oportunidade nacional e não uma oportunidade para outros países, como Argentina, Chile, China, Espanha e Portugal, que têm incrementado suas exportações para o Brasil. Um país como o nosso, com terras férteis, abundância de água, não tem justificativa para ser o segundo maior importador de alho do mundo. Em 2013 importamos 157.830 toneladas deste produto, principalmente da China. E uma coisa é certa: a área de produção brasileira está caindo. Em 2006 tínhamos 10 mil hectares; já em 2013 baixou para 8 mil hectares. Algo está errado.

Mas não é só alho que compramos da China. Temos a cada ano importado mais e mais ameixa, pêssego, nectarina, maçã, uva, citros, coco-da-baía. É impressionante, importarmos até coco-da-baía, mesmo com enorme aptidão que o Brasil tem para produzir este produto. Também temos importado muita cebola. Em 2013, foram 263 mil toneladas, e com isto vemos produtos a cada ano explodirem seu preço pela sua falta no mercado. Na minha visão, é simplista a justificativa de que o problema é sazonal ou de clima. A realidade é outra. Faltam planejamento público, apoio técnico ao pequeno produtor, insumos registrados para produção, etc.

Alguns justificam que tivemos nos últimos dez anos um incremento de 110% na produção brasileira de hortaliças, enquanto a população cresceu apenas 25%. Mas vale lembrar que o brasileiro não come nem 30 quilos de frutas e verduras por ano, enquanto a FAO recomenda 146 quilos, ou seja, a maioria da população no País não tem acesso às frutas e às verduras, não por uma questão de educação alimentar, mas, acima de tudo, devido ao preço. Isso porque estamos importando frutas e verduras em um país com aptidão excepcional para produção, e que nos últimos 12 anos, segundo a Embrapa, mantém a mesma área de produção de hortaliças. E o pior é que as verduras e frutas que o brasileiro tem acesso diminuem sua área de produção no país. Como o alho, que perdeu 20% de sua área de produção. A banana também saiu de 504 mil hectares em 2006 para 485 mil em 2013. A cebola perdeu 10% de sua área plantada e a mandioca, 300 mil hectares nos últimos cinco anos.

Quando vemos estudos sobre a comercialização de frutas e verduras, nos deparamos com a realidade que chega à mesa do brasileiro. Alimentos 400% mais caros do que o preço recebido pelo produtor. Existem mecanismos para diminuir esta diferença, o consumidor pagar menos e o produtor receber mais, mas para isto acontecer é preciso de estratégia comercial, como acontece na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp).

E não estamos falando de um mercado pequeno. Frutas e verduras movimentam quase R$ 100 bilhões no Brasil e geram milhares de empregos. Mas, infelizmente, temos visto uma falta de priorização pelos governos neste setor. Afinal, não basta ter o Plano de Safra para a pequena produção. É preciso muito mais. É fundamental incentivar a produção, dar treinamento, assistência técnica, investir em pesquisa, disponibilizar produtos fitossanitários. E mais: romper a sazonalidade por meio do incentivo ao plantio em regiões diversas, afinal, temos áreas acima e abaixo do Equador. Sim, é preciso criar uma logística nacional de distribuição e apoio à comercialização.

Em um país que se orgulha de ter assentado tantas famílias e que em todo momento enaltece a agricultura familiar, ser importador de produtos de primeira necessidade, como frutas e verduras, assim como de arroz e feijão, é sinal de que existe um problema aí. Mas o pior é que nos projetos de assentamentos todos tinham como prioridade a produção de produtos da cesta básica. Porém, por falta de estratégia, investimentos e assistência técnica, muitos se converteram em um bolsão de miséria, e nem conseguem produzir para subsistência. E o que os produtores e a população brasileira esperam que seja feita de toda esta situação? É simples: que a constante falta de tomate e de outras frutas e hortaliças acorde os que podem e têm poder de fazer o que deve ser feito.

Engenheiro agrônomo e produtor