Eduardo Almeida Reis

  Untitled Document

EMPREENDEDORISMO

Milhares de famílias desabrigadas, imensas lojas comerciais com água pelo teto, estradas intransitáveis mesmo nos trechos asfaltados, rios batendo recordes de transbordamento e um sujeito pacato, normalmente alegre e de bem com a vida, perguntando: “Qual teria sido o motivo que me levou para lá?”.

Empreendedorismo? Virou moda esse substantivo, da rubrica marketing, que entrou em nosso idioma no século passado, justamente quando andei cavoucando na região alagada em fevereiro, março e abril. Malárias à beça: tive 11. Camionetas Ford com oito amortecedores, os quatro de fábrica e mais quatro adaptados. Banhos tomados nos rios infestados de piranhas. Teco-teco alugado e o piloto avisando: “Por aqui, doutor, se o piloto confiar nos instrumentos sifu”. Isso depois de regular os instrumentos para voar num sentido e o monomotor tomar o sentido contrário.

O noticiário das cheias do Rio Acre e do Rio Madeira lembrou-me dos tempos em que andei naquela região, primeiro por conta própria, depois a serviço de um grupo europeu. A serviço, tudo bem: era trabalho e o trabalho forja caracteres, como digo às minhas filhas sempre que se queixam de que estão trabalhando demais.

O que até hoje me intriga foi a tentativa de me estabelecer na Amazônia por conta própria. O que levaria um sujeito, nascido e criado em Ipanema, encaminhado no trabalho carioca, a se meter por lá? Encaminhado, sim. Basta lembrar que o diretor de redação e dois diretores- sócios do maior jornal do Rio, quando informados da minha ideia de tentar a vida na roça, perderam mais de uma hora trancados comigo numa sala tentando demover o jovem jornalista daquela maluquice. Em linhas gerais, os três amigos, hoje saudosos amigos, diziam que o jornal precisava de humor

Já naquele tempo precisava de humor sadio e engraçado, pormenor valioso sobretudo agora que o pessoal inventou o humor sem graça. Teimoso feito porca parida, insisti na ideia original, para não dizer maluca. Não posso dizer que tenha quebrado a cara, mas andei próximo. Só quem já passou pelo impaludismo por falciparum e dez vezes por vivax sabe o que sofre um malarioso. Houaiss e Aulete/digital não têm malarioso, que fui encontrar no Volp, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

Volto à pergunta: empreendedorismo? Não creio. Ganância também não se aplica à ideia burra, que explica a ousadia: burrice, qualidade, caráter ou condição de burro (‘falto de inteligência’); asnice, burreza, burriquice. Sendo embora reincidente nas asnices, confesso que não conhecia os substantivos burreza e burriquice.

Em rigor, só uma coisa explicaria o fato de um cavalheiro carioca, na flor dos seus 30 e poucos aninhos, meterse naquela empreitada: andar atrás de saia. Não foi o caso. Passados tantos anos, é difícil explicar o teco-teco em que o voo visual vale mais que os instrumentos, a picape Ford com oito amortecedores, semanas inteiras à base de cerveja e ovos cozidos, considerando que os pratos servidos nos “restaurantes” eram aeroportos de moscas avoantes ou falecidas. Ovo cozido tem uma casca, que deve conferir ao produto encascado um mínimo de limpeza. E a cerveja, ou isto que se chama de cerveja no Brasil, naquelas circunstâncias parecia cerveja alemã nos conformes do preceito de pureza datado de 1516, que só permitia Wasser (água), Hopfen (lúpulo) e Gersten-Malz (cevada-malte).

Insisto na pergunta: que levaria um praiano a tentar na Amazônia? Teria sido a vontade de ficar rico? É possível e provável, mas a maluquice teve relação com a idade. Todo jovem se considera imortal. Devo ter tido espírito jovem, porque andava próximo dos 40 aninhos.

Havia três filhas pequenas. Portanto, a necessidade de continuar morando numa cidade. Pensei em Cuiabá, considerando que Porto Velho, fundada em 1907, ainda me parecia muito nova, enquanto Cuiabá deve datar de 1719 e era conhecida por mim desde 1953.

Acabei educando as meninas em Juiz de Fora, cidade-polo da Zona da Mata de Minas, que tem boas escolas e ótima universidade. Não digo que Cuiabá não as tenha, mas tem o problema do calor. Você dorme bem no quarto refrigerado, acorda animado e acaba estacionando o carro ao sol.

Quando volta para pegar o carro, encontra a caneta Bic torta como se fosse um cipó. Pois é: faz calor de entortar Bic. A partir daí, o aparelho termorregulador do “pioneiro” entra em parafuso e só volta ao normal à noite, depois de quatro caipirinhas de vodca. Comigo era assim, mas é normalização que não recomendo. Álcool e outras drogas não devem ser louvados por um cronista sério numa revista seriíssima.