Armazenagem

Vantagens de guardar em casa e em grande ESCALA

A armazenagem de grãos em unidades de ampla capacidade tem como benefício distribuir o escoamento ao longo do tempo, adequando a oferta às variações de demanda – portanto, com a possibilidade de administrar as flutuações de preços

Carlos Cogo, consultor em agronegócios

Nos últimos cinco anos, a produção brasileira de grãos aumentou em 50 milhões de toneladas, enquanto a infraestrutura para escoar a safra, transportar insumos e armazenar não avançou. No Brasil, a capacidade estática atual de armazenagem soma 151,3 milhões de toneladas, para uma produção de grãos de 191,2 milhões de toneladas em 2014. Segundo orientação da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o ideal é que a capacidade estática de um país seja 1,2 vez maior que a produção de grãos, o que de fato ocorre dos Estados Unidos, que é 1,25. No Brasil, essa relação é de apenas 0,8. Para atender a relação ideal recomendada pela FAO, a capacidade estática de armazenagem no Brasil deveria ser de 229,4 milhões de toneladas.

Considerando apenas a necessidade de estocagem da safra atual, o déficit de armazenagem atinge 51 milhões de toneladas em 2014 no Brasil, considerando que os estoques de passagem de 2013 para 2014, de 10 milhões de toneladas, compõem uma oferta total de 201,2 milhões de toneladas. O que fazer para equacionar esse imenso déficit de armazenagem? Quais impactos se teria sobre o escoamento das safras e a rentabilidade líquida dos produtores se o País tivesse capacidade de armazenagem ajustada à crescente produção efeito direto da inadequação do sistema de escoamento das safras (transportes e armazenagem) é a queda dos preços dos produtos em face da necessidade de comercialização após a colheita e com a grande oferta concentrada em uma mesma época no mercado.

Tendência de piora — Nos próximos anos, haverá um agravamento da situação de armazenagem, acarretando problemas na logística de movimentação das safras de grãos e frequentes congestionamentos nos portos. Devido ao alto custo do carregamento de estoques, o Governo brasileiro transferiu a responsabilidade para o setor privado, diminuindo assim sua interferência no mercado. No Brasil, apenas 16% da capacidade de armazenagem se localiza nas propriedades agrícolas, o que sobrecarrega o transporte e a armazenagem intermediária em épocas de colheita, além de elevar a demanda de estocagem nos portos.

A baixa capacidade de armazenamento nas propriedades rurais é uma situação desfavorável do Brasil frente aos grandes produtores mundiais de grãos, que têm no campo a maior parcela das unidades para guardar seus produtos. Essa condição força o produtor a comercializar prontamente suas safras, na época de preços baixos, além de causar problemas de logística, com congestionamentos nas redes de armazenagem intermediária e terminal. Na época das colheitas de grãos, os preços pagos aos produtores sofrem um forte achatamento, decorrente da alta dos preços dos fretes, das filas de caminhões nas rodovias e da demora prolongada para embarques nos portos.

De todos os investimentos necessários para eliminar o “caos logístico”, o único que surtiria efeito no curto prazo é a construção de armazéns graneleiros, tanto em baixas como em grandes escalas. Com mais silos, o produtor pode escalonar melhor o escoamento dos grãos e organizar a exportação dos produtos. Além disso, gastaria menos com o congestionamento dos caminhões e, com mais capacidade de armazenamento, o produtor ganhará mais poder na formação de preço.

O armazenamento é considerado uma atividade de apoio fundamental para as etapas de escoamento e comercialização, visto que a presença de unidades armazenadoras próximas aos locais de produção, aos mercados consumidores, aos portos e às indústrias de beneficiamento possibilita a racionalização de transporte e a alocação estratégica dos estoques. A tecnologia aplicada nas atividades agrícolas permite produzir cada vez maior quantidade e melhor qualidade, ampliando as épocas da colheita e possibilitando, em algumas regiões brasileiras, até três safras distintas.

PCA — Considerando a produção de soja e milho das últimas cinco safras e os preços médios recebidos pelos produtores brasileiros, os prejuízos acumulados atingem estão estimados em R$ 6,1 bilhões, um montante de recursos suficientes para cobrir mais de 60% do déficit atual de armazenagem no Brasil. Dos 27 estados, apenas nove, a maior parte sem tradição agrícola, teriam capacidade nominal para acomodar as safras. Os produtores e empresas do agronegócio sempre entenderam a importância de construir armazéns, mas havia outras prioridades, com os investimentos destinados à ampliação da área plantada, à compra de máquinas agrícolas, etc. – até porque as linhas de crédito são mais acessíveis e, para armazenagem, eram mais complexas. Entretanto, no Plano Agrícola e Pecuário 2013/2014, o Governo Federal anunciou o lançamento do PCA – Plano de Construção e Ampliação de Armazéns, que destina créditos de R$ 25 bilhões nos próximos cinco anos para investimentos na construção de silos para armazenagem de grãos.

O armazenamento em grande escala envolve a utilização de equipamentos e estruturas de elevado custo de implantação. É necessário que os profissionais saibam tirar o máximo proveito dessa estrutura, de tal forma a obter o máximo de capacidade de processamento, a ter o mínimo custo operacional e a melhor qualidade final possível para o produto. É importante que os profissionais que atuam na área de armazenamento saibam os princípios básicos de funcionamento, de regulagem e de manutenção de todos os equipamentos utilizados em uma unidade armazenadora. Durante o armazenamento, o produto passa por uma série de operações, como, por exemplo, descarga na moega, pré-limpeza, secagem, limpeza, aeração, tratamento fitossanitário, expedição, dentre outras. Uma série de equipamentos é utilizada para transportar e manipular o produto.

Dentre os inúmeros benefícios da armazenagem em grandes escalas, está a distribuição do escoamento ao longo do tempo, adequando as condições de oferta às variações de demanda e, consequentemente, amenizando flutuações nos preços de mercado. A conservação do produto é uma questão central na atividade de armazenagem. Dependendo das condições desta, podem ocorrer significativas perdas quantitativas ou qualitativas nos produtos agrícolas.

A temperatura e o teor de umidade são os principais fatores a influenciar o crescimento de microrganismos e insetos que causam deterioração dos grãos.

A limpeza e a secagem dos grãos são atividades prévias à armazenagem que contribuem para sua conservação. Em geral, essas atividades de pós-colheita são realizadas nas unidades armazenadoras, que costumam dispor de sistemas de limpeza e de secagem de grãos. É muito comum que as unidades armazenadoras não se restrinjam à armazenagem propriamente dita, agregando outras atividades da cadeia produtiva de grãos.

Há produtores, com volume de produção elevado, que possuem unidades armazenadoras próprias no estabelecimento agropecuário. O produtor rural pode, também, utilizar uma unidade armazenadora pertencente a uma empresa que presta serviços de armazenagem. Os ganhos gerados por uma unidade armazenadora depen- Embora crescentes, os investimentos em infraestrutura de armazenagem no Brasil não acompanharam a agricultura, o que afeta o sistema logístico para a movimentação das safras e gera congestionamento nas estradas dem do grau de integração vertical de seu proprietário. Para uma empresa que presta serviços de armazenagem, a unidade armazenadora gera uma receita, que é função do preço cobrado.

Nos casos em que a unidade armazenadora pertence a um produtor, ou a uma empresa, ou cooperativa cerealista, a armazenagem não é uma fonte direta de receita, mas permite vender os produtos, em bom estado, quando os preços são mais favoráveis. O grau de integração vertical do proprietário da unidade armazenadora está relacionado à questão da coordenação das decisões na cadeia produtiva.

Se a armazenagem é verticalmente integrada a outras atividades da cadeia produtiva (a montante e a jusante), as decisões de investimento na armazenagem tendem a estar coordenadas com as decisões de investimento na produção agrícola.

Embora crescentes, os investimentos em infraestrutura de armazenagem no Brasil não acompanharam a agricultura, o que afeta o sistema logístico para a movimentação das safras e gera congestionamento nas estradas