Abelhas

 

COLMEIAS e lavouras em harmonia

Estratégias de manejo podem ajudam a manter as abelhas por perto e favorecer a relação dos polinizadores com a plantação

Denise Saueressig
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Praticamente um terço dos alimentos produzidos no mundo é dependente da polinização realizada pelas abelhas. A informação é da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que estima que a contribuição da polinização para a agricultura represente 153 bilhões de euros no mundo todo. A di- Divulgação mensão dos números mostra a vital importância de manter em harmonia a convivência entre as abelhas e as atividades agrícolas. O Brasil tem mais de duas mil espécies descritas, sendo o País com a maior diversidade de abelhas, informa a bióloga Roberta Nocelli, professora adjunta do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Segundo ela, que realiza pesquisas com abelhas desde o final dos anos 1990, no mundo todo são 20 mil espécies e, aqui no Brasil, a estimativa é de que possam existir outras 5 mil espécies em áreas ainda não visitadas.

Um dos focos do trabalho da professora é avaliar a influência do uso de defensivos agrícolas sobre as abelhas e como os prováveis impactos desse manejo podem ser minimizados. “O ideal é que o agricultor e o apicultor possam estar em contato para que a relação seja mais clara e positiva para os dois lados”, resume. No momento da aplicação de defensivos, especialmente os inseticidas, Roberta recomenda que sempre seja seguida à risca a bula do produto para evitar o uso além do necessário. “Ainda é importante o uso apenas quando a praga estiver presente na lavoura e não de forma preventiva, como sabemos que acontece em muitos casos. A pulverização durante a florada também será prejudicial, porque naturalmente, haverá mais abelhas no local”, enumera.

A contaminação do inseto por agroquímicos pode ocorrer de duas formas, explica Roberta. A primeira é pelo contato direto com as partículas do defensivo e, a segunda, pela transmissão por outros indivíduos. “Nesse caso, as abelhas ingerem pólen e néctar com resíduos químicos, não morrem, retornam para a colmeia e acabam contaminando as demais abelhas”, cita a bióloga.

Professora Roberta Nocelli: agricultor e apicultor devem estar em contato para que a relação seja mais clara e positiva para os dois lados

Problemas — A professora Roberta integra uma rede de pesquisadores formada por especialistas da UFSCar e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e que, desde os anos 1970, estuda os insetos polinizadores. Por telefone ou por e-mail, os pesquisadores vêm recebendo informações de apicultores sobre o desaparecimento ou morte de abelhas em diferentes regiões do País. Pelo controle que é feito, algumas conclusões foram obtidas nos últimos anos. “A maior concentração de casos relatados ocorreu entre os anos de 2011 e 2013. E entre as possíveis causas, identificamos morte por falta de alimento devido à seca, como em localidades do Nordeste, e em regiões de predomínio da monocultura”, destaca a bióloga.

No total, desde 2007 até o final de 2013, foram recebidos 14.912 registros por parte de apicultores. “Esse é um número subestimado e considera apenas os apiários, porque é difícil monitorar as espécies nativas”, acrescenta Roberta. O Brasil também já tem casos de ataque do ácaro Varroa, um ectoparasita que infesta diversas espécies de abelhas. “Na Europa a ocorrência é bem mais comum. Aqui, tínhamos resistência, mas agora sabemos que há problemas em alguns locais”, relata.

Existem debates no mundo todo a respeito do efeito de determinados defensivos sobre a vida dos insetos polinizadores. É o caso, por exemplo, dos inseticidas neonicotinóides, que passam por avaliações e restrições de uso na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. A União Europeia chegou a proibir a utilização dessas substâncias por dois anos. “Aqui no Brasil, o Ibama está analisando os produtos e determinou algumas regras para a pulverização”, informa Silvia Fagnani, diretora de assuntos regulatórios e internacionais do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg). Ela ainda lembra que o Brasil tem uma das legislações mais rígidas no âmbito da liberação e uso de defensivos agrícolas. “A questão, quando se trata da convivência com as colmeias, é que existem práticas de manejo mais adequadas e que devem ser seguidas”, menciona.

Convivência pacífica — Entre as culturas agrícolas, existem as muito dependentes, as pouco dependentes e aquelas que não dependem dos agentes polinizadores para o seu desenvolvimento. A soja e o algodão são exemplos de plantas autopolinizáveis, mas que atraem as abelhas. O maracujá, a cereja, o melão e a maçã têm alta dependência da polinização. “Na Região Sul, o cultivo da maçã é referência em polinização manejada, como existe nos Estados Unidos, em situações em que o apicultor é contratado. No estado de São Paulo, temos a produção do mel de laranjeira, que é um caso clássico em que um se beneficia do outro, ou seja, a planta e a abelha”, observa a bióloga Roberta Nocelli.

Pesquisador Fábio de Albuquerque: cultivo de outras plantas próximas ao algodoeiro serve como estímulo alimentar para as abelhas

O setor O Brasil tem cerca de 350 mil apicultores e uma produção anual em torno de 50 mil toneladas de mel. No ano passado, as exportações representaram US$ 54,1 milhões, valor 3,4% superior ao registrado em 2012. O volume, no entanto, foi 3% inferior, segundo a Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel). “Nosso produto é diferenciado pela alta qualidade, e acreditamos que podemos conquistar muitos outros mercados no exterior se conseguirmos ampliar a produção”, ressalta a secretária executiva da Abemel, Joelma Lambertucci.

O engenheiro agrônomo Fábio Aquino de Albuquerque, pesquisador da Embrapa Algodão, integra o Projeto Polinizadores do Brasil, que faz parte de uma rede internacional de estudos sobre polinização coordenada pela FAO. Entre as linhas de pesquisa que iniciaram em 2010 estão avaliações em áreas de cultivo de algodão no Centro-Oeste, com perfil agro-empresarial, e no Semiárido nordestino, em pequenas propriedades com produção agroecológica. “Encontramos cerca de 80 espécies de abelhas silvestres na região de cultivo orgânico e, depois de dois anos de análises, constatamos um aumento de 12% no peso da fibra e de 16% em sementes por capulho. São números bem importantes se pensarmos que esses insetos trabalham de graça para o agricultor”, constata Albuquerque.


Uma das propostas do projeto é avaliar e sugerir planos de manejo que facilitem o convívio dos agentes polinizadores com grandes lavouras de cultivo convencional. “São várias atitudes que devem ser consideradas, como o uso de produtos mais seletivos, as formas de aplicação e os horários da pulverização”, detalha o pesquisador da Embrapa. Em países como os Estados Unidos, acrescenta o agrônomo, já existem produtores instalando colmeias em torno dos algodoeiros e obtendo um aumento em torno de 20% na sua produção. “Uma possibilidade é o cultivo de outras plantas próximas ao algodoeiro, como girassol ou crotalárias, que servem como estímulo alimentar para as abelhas e promovem a diversidade”, sustenta.