Reportagem de Capa

Acerte o ALVO

O crescimento acelerado da agricultura brasileira vem acompanhado de uma série de desafios que fazem parte da rotina do produtor. A cada safra, é preciso combater antigos e novos problemas que ameaçam a produtividade da lavoura e a rentabilidade da colheita. E na hora de controlar pragas, doenças e plantas daninhas, prevenção, tecnologia e informação são aliadas para um trabalho eficiente e seguro

Denise Saueressig
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As condições naturais do País fazem a agricultura brasileira uma das mais competitivas do mundo. Mas também é nesse ambiente tropical, onde é possível fazer duas ou até três safras em um único ano, que existe terreno fértil para o aparecimento e agravamento de problemas fitossanitários. É imperativo prevenir e controlar tudo o que pode ameaçar o resultado da lavoura. E nesse processo, unir conhecimento e tecnologia pode fazer a diferença na hora de contabilizar os resultados. Defender a produção de pragas, doenças e plantas daninhas requer muito mais do que o uso da substância certa na pulverização. É preciso considerar a prevenção e o manejo, seguir as recomendações técnicas e prestar atenção aos cuidados com a saúde e com o meio ambiente.

Um dos grandes equívocos praticados no momento da pulverização de um defensivo é voltar o pensamento principalmente para o produto que será aplicado, constata o engenheiro agrônomo Ivan Cruz, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo. “Ao ser registrado para o controle de determinado problema, já se sabe a capacidade do produto. No entanto, o sucesso esperado depende muito da tecnologia de aplicação, das condições ambientais e do estágio de desenvolvimento da planta e da praga”, descreve.

Ele resume o argumento citando o exemplo na aplicação de inseticidas. “Insetos que atacam a espiga do milho, a maçã do algodoeiro, a vagem do feijão ou da soja, o fruto de tomate ou pimentão, entre outros hospedeiros, podem estar abrigados dentro destas estruturas reprodutivas e não serem atingidos pela pulverização”, enumera. Ao analisar esses detalhes, é preciso determinar o tamanho adequado da gota que veiculará o produto para que se tenha uma deposição adequada no local onde está a praga. “A utilização de papéis sensitivos ao molhamento no alvo que se quer atingir deve ser considerada ao se calibrar o equipamento de pulverização. O tipo de bico de pulverização, idade do bico, pressão, velocidade de aplicação e vazão também são essenciais”, acrescenta Cruz.

Nova ameaça — E quando o problema nunca tinha sido visto na lavoura? Nas últimas safras, o ataque da Helicoverpa armigera mostrou o quão complicado pode ser lidar com uma praga até então desconhecida. Pesquisadores, produtores e técnicos saíram em busca de soluções para afastar a lagarta que, com alto poder de destruição e facilidade de dispersão, causou prejuízos estimados em mais de R$ 10 bilhões no ciclo 2012/ 2013. Doutor em Entomologia – a ciência que estuda os insetos – o pesquisador Ivan Cruz ressalta que o surgimento de um problema que não existia no País, como foi o caso da Helicoverpa armigera, não pode ser atribuído ao manejo incorreto em áreas agrícolas. “Na realidade, esse é um assunto complexo, especialmente considerando as inúmeras rotas de entrada no Brasil e o intenso movimento de pessoas e materiais vegetais, que podem involuntariamente estar trazendo espécies de pragas até então inexistentes”, declara.

Pesquisador Ivan Cruz: desconhecimento sobre a Helicoverpa armigera pode ter levado a decisões equivocadas sobre métodos de mitigação.

No entanto, o desconhecimento por parte dos agricultores e dos profissionais do setor sobre a real identificação do problema pode ter levado à tomada de decisões equivocadas sobre métodos de mitigação. “Um fato de grande importância em relação ao manejo desta praga foi a constatação do elevado grau de resistência a inseticidas químicos. Tal fato indicava claramente o risco de ter prejuízos econômicos, que de fato aconteceram, caso não fossem tomadas medidas adicionais para seu correto manejo”, constata.

Uso do Equipamento de Proteção Individual (EPI) é indispensável para a segurança do aplicador

Missão itinerante — A experiência com a helicoverpa também deixou em evidência outras questões, como o uso muitas vezes indiscriminado de defensivos agrícolas, e a necessidade de promover, de forma cada vez mais intensa, o Manejo Integrado de Pragas (MIP). Uma das ações criadas para informar e alertar produtores e extensionistas rurais sobre tecnologias sustentáveis é a Caravana Embrapa de Alerta às Ameaças Fitossanitárias, iniciativa que iniciou em dezembro do ano passado e percorreu 16 estados e o Distrito Federal na primeira fase do projeto. Formada por 33 técnicos e pesquisadores divididos em equipes, a caravana é promovida pela Embrapa, com o apoio da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) e Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).

Um dos integrantes do projeto, o pesquisador Ivan Cruz salienta que a caravana abordou em profundidade os preceitos do MIP. “Também foi foco importante a necessidade de ter uma visão de sistema, considerando a ocupação da terra quase continuada que cria nitidamente uma ‘ponte verde’ fornecendo alimento por um período continuado e em clima favorável que facilita a multiplicação das pragas principalmente em ambientes desequilibrados. Isto tem sido constatado no Brasil, onde uma mesma espécie de praga passa ser chave em vários cultivos dificultando seu manejo”, informa.

Educação e treinamento — O mercado de defensivos agrícolas movimenta em torno de US$ 10 bilhões por ano no Brasil. O País representa 20% da movimentação do setor no mundo e, em média, os gastos com os defensivos formam 25% do custo da lavoura para o produtor brasileiro.

Caso não fossem combatidas, pragas, doenças e plantas daninhas poderiam gerar perdas médias de 40% na produção de alimentos, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). “O Brasil está muito vulnerável à entrada de novas pragas pela série de eventos de âmbito internacional que vêm realizando. Além disso, temos clima propício, por exemplo, para a ocorrência de doenças fúngicas, que se beneficiam da chuva e do calor. Em países do Hemisfério Norte, onde há neve no inverno, existe o combate natural a uma série de problemas”, destaca Eduardo Daher, diretor-executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), que reúne as empresas fabricantes do setor. O dirigente lembra que a Sociedade Brasileira de Defesa Agropecuária (SBDA) estima que existem em torno de 150 pragas exóticas com potencial para chegar às lavouras brasileiras.

A proximadamente 17% do orçamento das indústrias de defensivos é utilizado em atividades de educação e treinamento para o uso correto e seguro dos agroquímicos. A necessidade de investir nessa área ficou ainda mais latente a partir do início dos anos 1990, quando o então presidente do País, Fernando Collor de Mello, extinguiu a Empresa Brasileira de Extensão Rural (Embrater). No Micaela Carvalho Denise Saueressig Pesquisador Ivan Cruz: desconhecimento sobre a Helicoverpa armigera pode ter levado a decisões equivocadas sobre métodos de mitigação A GRANJA | 23 ano passado, a presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que cria a nova Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), que deve funcionar em formato semelhante à antiga empresa.

As empresas da área identificaram, entre uma série de necessidades, a importância de abordar o tema com diferentes públicos. “Esse trabalho envolve desde os maiores conhecedores do assunto, com um MBA em Fitossanidade realizado em parceria com o Instituto Agronômico (IAC), até as crianças e o público urbano”, afirma Daher, lembrando que a Andef produz materiais em diversos formatos, como manuais, DVDs e cartilhas. “Entre essas criações está o personagem Andefino, que fala diretamente ao produtor e está presente nas páginas da revista A Granja Kids, para informar também as crianças”, complementa.

Os informativos da Andef frisam, sobretudo, a importância de manter a segurança antes, durante a depois da aplicação de agroquímicos, considerando o armazenamento e o transporte de produtos, a tecnologia de aplicação, o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), a lavagem e a destinação correta das embalagens e as boas práticas agrícolas. “Nesse último ponto, o produtor precisa lembrar de seguir cinco passos elementares para o processo: a rotação de culturas, o MIP, o vazio sanitário, o refúgio e a rotação de produtos químicos", observa Daher.

No entanto, ressalva o executivo, o marco regulatório brasileiro não tem favorecido o agricultor que precisa rotacionar moléculas na lavoura, já que o processo de registro de um novo defensivo demora em torno de quatro anos para ser concluído. “O rigor na análise é legítimo, mas precisamos de menos burocracia e de um sistema que tenha mais agilidade e eficiência”, assinala.

Segurança para quem aplica — O manuseio de agrotóxicos requer cuidados básicos com a saúde, mas que nem sempre são observados por quem trabalha no campo. Por isso, uma das grandes preocupações da Andef tem sido abordar a importância do uso dos EPIs. “Consideramos que essa é uma questão cultural, e não mais de custos ou de conforto do operador, porque os materiais evoluíram muito nos últimos anos”, relata o gerente de Educação da Andef, Fabio Kagi.

Não há números conclusivos sobre o uso de EPIs no meio agrícola, apenas estimativas baseadas em diferentes amostragens. O que se sabe é que entre aqueles que resistem à utilização, existem os que dizem que sabem da necessidade, mas mesmo assim não usam, e os que dizem não saber se precisam usar. “Por isso, é tão importante investir na educação”, frisa Kagi. Ele lembra que a intoxicação por agrotóxicos pode ser aguda, ou seja, ocorrer em curto prazo, ou crônica, quando acontece ao longo dos anos pela exposição. “A contaminação pela pele ainda é a mais frequente, representando 95% dos casos”, aponta.

As associadas da Andef realizam programas específicos onde o uso de EPIs é abordado. O trabalho envolve parceria com associações de trabalhadores e órgãos multiplicadores, como Emater e Senar. A NR 31 – Norma Regulamentadora do trabalho na agricultura – estipula que o empregador deve: fornecer EPIs adequados ao trabalho; instruir e treinar quanto ao uso de EPIs; fiscalizar e exigir o uso; fornecer EPIs descontaminados a cada nova aplicação; e repor EPIs danificados. São responsabilidades do empregado: usar os EPIs; e informar a necessidade de substituição de EPIs por desgaste e/ou por defeito apresentado.

A utilização dos equipamentos de proteção também recebe uma classificação conforme os níveis de proteção que variam de acordo com o grau de exposição. Por exemplo: um tratorista terá menos exposição que trabalhadores que aplicam defensivos com pulverizadores costais. “Também é importante dizer que nem sempre o manipulador precisa estar com o EPI completo. A bula do defensivo tem pictogramas dos equipamentos necessários na mistura dos produtos e na aplicação, ou seja, indica quais os itens da vestimenta que devem ser usados”, diz Kagi.

Fabio Kagi, da Andef: uso do EPI é uma questão cultural, e a educação é fundamental para alertar os trabalhadores

Manutenção e monitoramento — O processo de pulverização envolve uma série de cuidados e preparações que iniciam muito antes da aplicação do defensivo no alvo. A manutenção dos pulverizadores, por exemplo, deve ser realizada pelo menos a cada seis meses, com a presença de técnicos especializados, aconselha o engenheiro agrônomo Mauro Antônio Rizzardi, professor da Universidade de Passo Fundo (UPF).

Quanto mais informações o produtor reunir sobre a sua área de cultivo e seus alvos, maiores serão as chances de sucesso na aplicação. “Sabemos, por exemplo, que a helicoverpa tem preferência por temperaturas mais amenas, se fazendo presente na lavoura de madrugada. Para o controle de plantas daninhas, é importante saber em qual estágio a mesma se encontra e considerar que, quanto mais cedo a invasora receber o combate, melhor será. Já nas doenças, a principal dificuldade é saber exatamente em que parte da planta o problema se encontra para atingir o alvo”, conclui Rizzardi.

O professor é categórico ao afirmar que sem um monitoramento constante não existe eficiência de controle. “A helicoverpa é um problema sério, mas fez com que o produtor visitasse mais a sua lavoura, porque a lagarta ataca todas as fases da cultura. E, nesse caso, é um diferencial conseguir combater a praga em seu estágio inicial”, comenta.

Professor Mauro Rizzardi: quanto mais cedo o problema for identificado, maiores serão as chances de sucesso no controle

O pesquisador Ivan Cruz, da Embrapa Milho e Sorgo, observa que o agricultor pode utilizar diferentes ferramentas para monitorar as pragas, desde a contagem direta de ovos e de lagartas, até a determinação da presença de mariposas. “Houve um grande avanço no monitoramento de mariposas com o uso de armadilhas iscadas com feromônio sexual. A detecção da mariposa na área indica a proximidade de postura da praga e, logo a seguir, a presença de lagartas”, detalha. A contagem de insetos, acrescenta o especialista, também é parte essencial do manejo integrado. “O resultado da contagem, utilizando qualquer método preconizado pela pesquisa, vai determinar a necessidade ou não de entrar com medidas de controle”, justifica.

Atitude proativa — É interessante que o produtor conheça o histórico da área para identificar problemas que já haviam sido detectados em safras anteriores. Alvos percebidos em fases iniciais terão mais opções de controle por diferentes agroquímicos. Nessa lógica, quanto mais tarde o problema for combatido, mais restrita ficará a escolha. “Sempre que for possível, o agricultor pode considerar o uso de produtos biológicos ou mais seletivos”, avalia o professor Rizzardi.

Uma das grandes dificuldades enfrentadas nos últimos anos pelos produtores vem sendo justamente a resistência de pragas, doenças e plantas daninhas a defensivos. “Gradativamente, perdemos moléculas para os problemas. Observamos um crescimento bastante acentuado na área genética, que oferece variedades mais produtivas, mas a parte química do Denise Saueressig Professor Mauro Rizzardi: quanto mais cedo o problema for identificado, maiores serão as chances de sucesso no controle Fabio Kagi, da Andef: uso do EPI é uma questão cultural, e a educação é fundamental para alertar os trabalhadores A GRANJA | 25 tratamento não acompanha a velocidade dos desafios fitossanitários”, completa.

A perda do efeito desejado em defensivos ocorre algumas vezes por equívocos no manejo e, portanto, requer uma atitude proativa do produtor para ser evitada. Algumas práticas são sempre recomendadas, como evitar a chamada ponte verde, fazer a rotação de culturas e investir em sementes de qualidade para que a planta tenha condições sanitárias para competir com prováveis invasores.

Recomendações gerais para uma aplicação segura

• Ler e seguir todas as instruções e precauções da bula dos produtos antes da aplicação;
• Observar procedimentos para proteger recursos hídricos, a flora e a fauna;
• Usar sempre os EPIs;
• Usar uma abordagem de Manejo Integrado de Pragas;
•Seguir sempre as Boas Práticas de Aplicação;
• Prestar atenção às condições climáticas;
• Manter equipamentos de aplicação com limpeza e manutenção em dia;
• Fazer a tríplice lavagem e destinar corretamente as embalagens de agroquímicos;
• Cooperar e comunicar-se com os demais envolvidos no entorno da propriedade.
Fonte: Ande

O benefício do ambiente — Em sistemas agrícolas bem equilibrados é muito comum a presença de várias espécies de insetos que utilizam como alimento as diferentes fases de insetos pragas. A grande dificuldade, no entanto, é o correto reconhecimento destas espécies benéficas e o papel regulador de cada uma. O pesquisador Ivan Cruz relata que existem duas possibilidades de uso destes insetos benéficos em programas de manejo. A primeira delas é a conservação das espécies já existentes na área agrícola. “Tal conservação é levada a cabo com o uso de produtos e/ou aplicações seletivas e através do manejo adequado da paisagem agrícola propiciando locais de abrigo e/ou multiplicação para os insetos benéficos”, informa.

A outra possibilidade é adquirir os insetos benéficos em biofábricas e liberá- los no campo na época correta. Esse é o caso das vespas Trichogramma, um inseto diminuto que vive exclusivamente de ovos de pragas. “Sua importância principal se deve ao fato de não deixar a lagarta eclodir do ovo. Ou seja, a vespinha diminuta na fase adulta que só se alimenta de néctar ou às vezes nem se alimenta, imediatamente após liberada no campo, procura pelo ovo da praga para colocar seu próprio ovo. A vespa co-evoluiu com a praga e consegue detectar a certa distância a presença do ovo da praga mesmo quando ele é colocado em locais bem protegidos como nos estilo-estigmas do milho. Sua eficiência no controle é alta, semelhante ao que se consegue com outras tecnologias. Porém, com um grande diferencial por ser enquadrada na lista de tecnologias limpas. Também tem sido alternativa preferencial no controle de pragas que atacam locais bem protegidos, como é o caso da helicoverpa”, continua Cruz.

Treinamento — O Brasil reúne uma série de iniciativas que existem para auxiliar o produtor na missão de defender a plantação com eficácia e segurança. Lançado em 2007, o Programa Aplique Bem, desenvolvido entre a Arysta e o Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura de São Paulo, já realizou treinamentos gratuitos com cerca de 35 mil pessoas em 21 estados mais o Distrito Federal. Dois veículos “Tech Móveis” funcionam como laboratórios que avaliam pulverizadores e levam informação com abordagem prática e real às áreas rurais.

O pesquisador do IAC Hamilton Humberto Ramos conta que o mais marcante nesses sete anos de trabalho é a percepção da mudança de atitude. “Isso significa que o trabalhador/agricultor entendeu o problema e suas implicações na eficácia, saúde e custo de produção, e se dispõe a corrigir. Em estudo piloto feito pelo Aplique Bem, mais de 80% das falhas encontradas tinham sido corrigidas após uma primeira ação de avaliação e treinamento. Isso é ganho não só para o agricultor, mas para todo o sistema de produção”, comemora.

Pesquisador Marcelo Madalosso: aplicativo Phytus Pontas permite fazer simulações rapidamente e corrigir a operação

Tecnologia a favor da tomada de decisão — Os recursos da tecnologia são aliados no momento de definir a ponta mais adequada para o trabalho da pulverização. Desenvolvido pelo Instituto Phytus, o aplicativo Phytus Pontas está disponível para download gratuito em smartphones e tablets. O pesquisador Marcelo Madalosso, gerente de Pesquisa e Ensino do Instituto Phytus, explica que, para identificar a ponta mais adequada, o aplicador deve informar a taxa de aplicação em litros por hectare, a velocidade do trabalho e o espaçamento entre bicos. “O aplicativo faz o cálculo e apresenta a vazão, as pontas e suas possíveis configurações de orifício. O App permite fazer simulações rapidamente e trocar ou comprar pontas novas, somente se for o caso. Além disso, é possível verificar o tamanho de gota que está sendo gerado pelo equipamento na calibração informada pelo agricultor e, se houver necessidade, refazer a calibração sem gastos”, enumera.

Pesquisador Hamilton Ramos: Programa Aplique Bem leva treinamento para todo o País e agora será internacionalizado

Na opinião do especialista, um dos problemas do processo de pulverização é justamente a calibração do equipamento. “Para se ter uma ideia, equipamentos novos mal calibrados podem ter funcionamento bem inferior em comparação com equipamentos antigos e bem calibrados. A calibração do equipamento deve ser feita e depois checada constantemente, pois haverá muitos fatores de variação que poderão depreciar a qualidade da gota que está sendo produzida”, observa.

Também de acesso gratuito, o Sistema Gotas foi desenvolvido pela Embrapa Meio Ambiente e ela Embrapa Informática Agropecuária. Para utilizar os recursos do programa, depois de feito o download, o produtor precisa distribuir cartões hidrossensíveis nos alvos da pulverização e, em seguida, realizar uma aplicação apenas com água. Após a pulverização, os cartões devem ser retirados e fotografados para o processamento digital e análise das informações. Recentemente, foi desenvolvida uma versão do Gotas para uso em tablets e celulares, o que permite que toda a atividade seja realizada diretamente no campo. Quem acessa o programa também recebe um manual de utilização.

Pesquisador Aldemir Chaim: Sistema Gotas, da Embrapa, funciona como teste para que o aplicador defina sua regulagem

A importância de seguir o MIP
“Manejo Integrado de Pragas é o sistema de manejo de insetos pragas que, no contexto, associa o ambiente e a dinâmica populacional da espécie, utiliza todas as técnicas apropriadas e métodos de forma tão compatível quanto possível e mantém a população da praga em níveis abaixo daqueles capazes de causar dano econômico”, diz a FAO. O pesquisador Ivan Cruz, da Embrapa Milho e Sorgo, explica que as táticas do MIP envolvem seis tipos de controle: cultural, biológico, comportamental, genético, varietal e químico. A seguir, um esquema preparado pelo especialista detalha mais sobre cada tipo de controle:
Controle cultural:
Tem como objetivo a utilização de práticas agronômicas para tornar o ambiente desfavorável ao aumento populacional da praga e/ou favorecer o aumento e/ou sobrevivência dos insetos benéficos, tais como:
- Dessecação sequencial sem inseticida;
- Eliminação de tigueras/rebrota (soja-algodão) na pós-colheita;
- Eliminação da “ponte verde” na entressafra;
- Manutenção da área de refúgio; - Adoção de vazio sanitário, quando pertinente.
Controle biológico:

O controle biológico, utilizando parasitóides, predadores e entomopatógenos, quando bem planejado e executado, propicia resultados semelhantes a outras estratégias de controle de insetos-praga. É uma das táticas de manejo em ascendência no mundo todo por ser uma tecnologia que não prejudica o ambiente. Pode ser o diferencial no manejo de insetospraga que são de difícil acesso para os produtos químicos como é o caso da Helicoverpa armigera.
Controle comportamental:
Ainda pouco utilizado no Brasil, é uma tática de manejo que pode crescer, considerando o avanço no conhecimento sobre plantas armadilhas e plantas repelentes aos insetos. Há também a possibilidade de uso de semioquímicos para interrupção de acasalamento e/ou a tecnologia “push-pull” (plantas que atraem e matam a praga).
Controle genético:
Uso de insetos macho estéreis da praga para acasalamento com as fêmeas férteis.
Controle varietal:
Utilização de cultivar geneticamente modificada com proteínas eficientes para o manejo da praga.
Controle químico:
Embora seja uma ferramenta importante do MIP, seu uso deve ser cada vez mais especializado. Por exemplo, a escolha de determinado produto deve levar em conta a sua seletividade em relação aos inimigos naturais e polinizadores. Também é necessária a rotação de produtos tanto em relação ao seu modo de ação, quanto ao seu grupo químico.

Um dos idealizadores do sistema, o pesquisador Aldemir Chaim, da Embrapa Meio Ambiente, conta que este ano foram realizados cerca de 2 mil downloads do programa, o que evidencia a grande necessidade dos produtores em buscar tecnologias que auxiliem no processo de aplicação. “O software oferece um arsenal de informações para a tomada de decisão na calibração, como o número de gotas da amostra, a densidade de gotas, a uniformidade e a porcentagem de cobertura. Funciona como um teste para que o produtor defina sua regulagem”, esclarece.


Aviação tem atestado de qualidade

Frequente alvo de críticas sobre possíveis danos causados ao meio ambiente, a aviação agrícola agora tem uma certificação no Brasil. Nessa primeira fase, o programa de Certificação Aeroagrícola Sustentável (CAS) recebeu a inscrição voluntária de 25 empresas de nove estados que solicitaram a auditoria. Dessas, 20 empresas com 90 aeronaves e 87 pilotos conquistaram a certificação de Nível I, que teve início no segundo semestre de 2013. “Até 2017, nosso objetivo é atingir, pelo menos, 75% do mercado formado por 227 empresas e uma frota de 1.925 aeronaves”, conta o professor Ulisses Antuniassi, da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Botucatu), uma das três instituições de ensino que coordenam o projeto junto com a Universidade Federal de Lavras (Ufla) e a Universidade Federal de Uberlândia (UFU). O CAS ainda é realizado pela Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais (Fepaf), com o apoio da Andef e o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag).

O projeto é formado por três níveis que obedecem a diferentes critérios de exigência e que passam por questões relacionadas à segurança, à legislação, à tecnologia e à capacitação. A certificação Nível II será operacionalizada no segundo semestre deste ano e, o Nível III, no primeiro semestre de 2015. “Queremos qualificar o setor aeroagrícola e, consequentemente, reduzir os riscos na atividade”, resume Antuniassi. O professor João Paulo Cunha, da UFU, analisa que existem muitos mitos em torno da aplicação aérea, e constata que a causa da maioria dos problemas que realmente acontecem, são provocados pela falta de qualificação. “Toda e qualquer forma de aplicação tem riscos se for mal manejada”, atesta.

Segundo ele, quando realizada de forma correta e segura, a pulverização feita por aeronaves tem vantagens, como a redução do tempo de operação e o não amassamento da cultura que ocorre pelo contato com as rodas do equipamento terrestre. “Essas são perdas estimadas entre 2% e 10%, sem falar na compactação do solo”, sustenta. Aviões agrícolas utilizados atualmente trabalham com alta tecnologia para a precisão da operação, equipados com GPS, barra de luz e controlador de fluxo, que permite gerar os mapas de aplicação.

O professor cita que, assim como é indicado para a pulverização convencional, é essencial observar as condições climáticas antes de toda operação. Entre as recomendações, estão: umidade relativa do ar mínima de 55%; velocidade do vento entre 3 km/h e 12 km/h; e temperatura abaixo de 30º C. “A tecnologia também nos permite definir o tamanho das gotas que serão depositadas. Gotas muito grandes batem nas folhas e caem no solo, enquanto gotas muito pequenas serão levadas para longe do alvo e podem contaminar rios ou áreas vizinhas”, prossegue Cunha.