Na Hora H

 

O EXEMPLO QUE VEM DE FORA

Acabo de chegar de viagem de uma visita que fiz de três dias à Venezuela, a convite da Fedeagro (Federação das Associações de Entidades do Setor do Agronegócio), para proferir palestra em sua assembleia anual. Confesso que havia um grande interesse nesta palestra, menos pelo palestrante e muito mais pelo exemplo Brasil. Tanto assim que a minha palestra marcada para as 10h só veio a ser feita às 12h30min, pois todos esperavam a presença do ministro da Agricultura, que queria participar e ouvir a nossa fala, mas como o Presidente da República o havia convocado para uma reunião, teve de ir de helicóptero, pois a conferência estava sendo realizada em Valencia, a capital industrial da Venezuela, que fica a quase 200 quilômetros de Caracas.

O novo ministro da Agricultura é um ainda jovem pesquisador que fora presidente do INIA (a Embrapa de lá) e que ao chegar foi logo convidado a apresentar as suas saudações aos mais de 500 dirigentes e representantes de entidades. Ao invés de fazer a sua saudação, acabou proferindo um longo discurso muito mais de justificativas de erros na política econômica e política pública rural que estão levando aquele país de grande produtor a um dos maiores importadores de alimentos, proporcionalmente a sua população, e tentando explicar as causas da tremenda redução no processo produtivo. Sentimos o mal-estar de todo o auditório inclusive o nosso próprio, pois fomos convidados a levar o exemplo de um País que igualmente há 40 anos passou pelo mesmo constrangimento, o de grande importador de alimentos.

Só que a situação deles hoje, creio, é bem maior que a nossa nas décadas de 1960 e 1970. Se aqui importávamos cerca de 30% do que consumíamos, eles estão importando proporcionalmente muito mais do que nós. Até o arroz, que eram exportadores, este elemento básico de sua alimentação é importado em larga proporção. Importam também em larga escala o leite, a carne, o frango, o suíno e até o milho, dizem eles, para produzir a sua tradicional arepa. As verduras, legumes e flores. O açúcar, que também eram autossuficientes, importam e muito.

Só que a situação deles hoje, creio, é bem maior que a nossa nas décadas de 1960 e 1970. Se aqui importávamos cerca de 30% do que consumíamos, eles estão importando proporcionalmente muito mais do que nós. Até o arroz, que eram exportadores, este elemento básico de sua alimentação é importado em larga proporção. Importam também em larga escala o leite, a carne, o frango, o suíno e até o milho, dizem eles, para produzir a sua tradicional arepa. As verduras, legumes e flores. O açúcar, que também eram autossuficientes, importam e muito.

Esta foi a apresentação que me fizeram como introdução à minha fala. Fiquei constrangido, imaginando no meu íntimo e pensando o seguinte: mas este não era um país que os nossos atuais dirigentes diziam querer se espelhar como protótipo de um socialismo moderno? O famoso socialismo bolivariano. Procurei humildemente apresentar as experiências vividas por mim como profissional, homem público que fui, professor e produtor rural que sou, e as políticas públicas adotadas àquela época. A palestra causou grande interesse, tanto assim que as perguntas foram inúmeras e nas mais variadas áreas e questões.

Fiquei muito curioso com o que de fato se passa por lá, não só nas políticas públicas do setor rural, mas também na política econômica. Aproveitei bastante a viagem de volta a Caracas (cerca de duas horas e meia) sugando tudo que podia dos meus companheiros de viagem, dois ex-participantes de governo e hoje empresários. Deram-me alguns artigos e livros que eu pude deliciar na viagem de volta ao Brasil. Fiquei chocado com os relatos que tive. Pensei que a minha palestra provavelmente deveria ter causado muito constrangimento a parte dos espectadores.

Como pode um país como aquele produzir com as distorções no campo político e econômico em que vivem? Ao tomar o avião de volta, pude ver na prática a verdadeira atrocidade que vive o povo Venezuelano, subjugado a uma política cambial como a que tem. No câmbio oficial um dólar vale seis bolívares venezuelanos. Eu não havia necessitado fazer câmbio, pois me proporcionaram todos os custos de viagem. Era um convidado. Quando fiz o meu check-in avisaram-me que a taxa de embarque havia subido, que a minha passagem havia sido comprada antes do decreto de aumento e que eu teria de pagar 136 bolívares a mais. Tentei justificar, pois na realidade eu não tinha nem um vintém venezuelano. Nada adiantou eu dizer que a minha passagem havia sido comprado por uma entidade e que isto fora muito recente. O decreto veio depois. Pedi desculpas e tentei me dirigir a uma casa de câmbio para trocar meus dólares para pagar a diferença da nova taxa de embarque.

Qual foi a minha surpresa que, como havia constantemente abordado nos hotéis que fiquei, apareceu um montão de pessoas dizendo o seguinte: fazemos o seu câmbio de um para 60 e outros um para 65. Mas como? O câmbio oficial é de um dólar para seis bolívares? Sim, todos afirmavam, mas nós temos um câmbio de um para 65! Fiquei muito incomodado, pois não desejaria de forma nenhuma ter qualquer problema com a polícia de lá. Com dificuldade cheguei a uma casa de câmbio e tratei de fazer a minha troca. Voltei ao guichê paguei na moeda corrente de lá os 136 bolívares que devia. Isto é, paguei 136 ou 1.360 bolívares? Depende do lado que você está. Se na legalidade, 1.360, ou na clandestinidade, 136.

E confuso, não é? Só então passei a entender por que os produtores de lá não são capazes de produzir. Ou caem na ilegalidade e produzem ou ficam na legalidade e não produzem. Arrisquei e perguntei a um companheiro de viagem ser este fato existente só na Venezuela. Imediatamente me respondeu: não, só aqui e em Cuba isto acontece! Estremeci. Que risco corremos. Afinal, já estou sonhando que as aspirações bolivarianas daqui estão chegando ao fim. Graças a Deus.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura