O Segredo de Quem Faz

DETERMINAÇÃO no Oeste da Bahia

O relato de vida do produtor Júlio Cézar Busato ajuda a contar a história do crescimento do agronegócio no Oeste da Bahia. Um dos precursores da região, ele e a família deixaram o Rio Grande do Sul no final dos anos 1980 para investir numa das terras mais prósperas para a agricultura no País. Os 80 hectares cultivados no Sul se transformaram em 40 mil hectares em solo baiano, onde as potencialidades e os desafios andam juntos. Hoje, além de cuidar dos negócios nas 14 fazendas da família, Busato é presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) e da Bahia Farm Show, feira que chega à 10ª edição entre 27 e 31 de maio, em Luís Eduardo Magalhães.

Denise Saueressig
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A Granja – Quais são as origens da sua ligação com o campo?
Júlio Cézar Busato -
Nossa família sempre trabalhou com agricultura. Meu bisavô veio do norte da Itália, da região de Vêneto, onde era agricultor. Ele se instalou no Rio Grande do Sul, na região do Planalto Central, que mais tarde se transformaria na cidade de Casca. Meu avô criava gado e cultivava erva-mate. Com a chegada da soja, na década de 1970, e a mecanização, meu pai começou a plantar soja e milho. Desde criança sempre estive envolvido e ajudando nos trabalhos da propriedade. Colhíamos soja à mão, batíamos na trilhadeira estacionária. Depois, com a chegada dos tratores e colheitadeiras, aprendi a operar máquinas agrícolas, terminei o segundo grau e fiz faculdade de Agronomia na UPF (Universidade de Passo Fundo), onde me formei em 1988. Na ocasião, falei para meu pai que iria para a Bahia ou Mato Grosso para plantar feijão e milho irrigados. Naquela época, cultivávamos uma área de 80 hectares em Casca, o que, no futuro, seria insuficiente para retirar o sustento de nossas famílias. Fui conhecer o Mato Grosso e optei pela Bahia por ter maior potencial de irrigação e pela proximidade do mercado nordestino, além de um povo maravilhoso que tão bem nos acolheu. Hoje, somos um grupo familiar formado por meu pai Helio Busato, por mim e meus irmãos Roque Roberto, Marcos Antônio e André Busato. Trabalhamos juntos em um condomínio familiar até hoje.

A Granja - Como iniciou o trabalho na Bahia?
Busato -
Chegamos em 1988, eu e meu pai. Inicialmente, arrendamos uma área de 880 hectares em São Desidério, juntamente com a família Damo, que foram nossos sócios no início. Em 1989, vieram minha esposa Renate e meu filho Cézar Augusto, com apenas dez meses de idade.

A Granja - O que foi preciso fazer para começar a produção? Quais eram as principais dificuldades na época?
Busato -
Acho que foi preciso muita coragem, perseverança, trabalho e otimismo. A região plantava na época 200 mil hectares de soja e alguns pivôs de feijão. A tecnologia de plantio praticamente não existia e é aí que está o grande mérito dos produtores da região, pois nos unimos e, juntamente com professores, pesquisadores, consultores, agrônomos, técnicos da iniciativa pública e privada, construímos uma tecnologia que hoje proporciona os melhores índices de produtividade de soja e algodão não irrigados do mundo. Outro ponto foi a falta de mão de obra especializada. Minha primeira equipe de operadores de máquinas veio do Rio Grande do Sul. Nos anos seguintes fomos treinando mão de obra local. Também faltavam variedades adaptadas para a região, energia elétrica, telefonia, hospitais, escolas e um dos problemas que perdura até hoje, que são as estradas vicinais. Em 1988, a cidade de Luís Eduardo Magalhães era somente um posto de gasolina e, para chegar a Barreiras, eram necessárias cinco horas de viagem em um carro 4X4 para poder enfrentar os atoleiros.

A Granja – Atualmente, qual é a estrutura dos negócios da família?
Busato –
A nossa empresa, a Fazenda Busato, é formada por 14 propriedades na região Oeste da Bahia. Temos um grupo de 12 engenheiros agrônomos, mais de 150 técnicos agrícolas e quase 1.000 funcionários que foram treinados e preparados para exercerem sua função, fato este que eu considero como nosso maior patrimônio. Temos uma área irrigada de 4,5 mil hectares onde fazemos duas colheitas anuais. Plantamos na safra 2013/2014, 17 mil hectares de algodão, que é nosso carro chefe, 20 mil hectares de soja e 3 mil hectares de milho.

A Granja - Hoje qual é a área plantada da região Oeste da Bahia e quais as médias de produtividade?
Busato -
A área plantada é de 2,2 milhões de hectares e nossa média de produção ao longo dos anos é de 270 arrobas de algodão, 53 sacas de soja por hectare e 170 sacas de milho por hectare.

A Granja – Em 1990 o senhor ajudou a fundar a Aiba e agora é presidente da associação. Qual é a representatividade da Aiba atualmente?
Busato -
A Aiba representa 1,3 mil produtores associados em uma área de 1,68 milhão de hectares.

A Granja – Na sua opinião, quais são as principais potencialidades da região?
Busato -
São imensas! Existe a disponibilidade de 4 milhões de hectares que podem ser incorporados ao sistema produtivo respeitando todas as normas do Código Florestal vigente. Claro que são áreas mais marginais onde o índice pluviométrico é menor do que as áreas já cultivadas, mas que possuem um potencial enorme para irrigação, pastagens, silvicultura, criação de aves, suínos, bovinos de corte e de leite, geração de energia – tanto termoelétrica como eólica e solar – além da agroindustrial que deverá se desenvolver no futuro.

A Granja - E quais são os grandes desafios dos produtores locais?
Busato -
Eu diria que nosso maior desafio é a logística. Temos problemas sérios com armazenagem, estradas vicinais, rodovias e portos. Tudo está para ser construído. Felizmente, já se iniciaram as obras da FIOL (Ferrovia de Integração Oeste-Leste) e devem começar também as obras do Porto Sul em Ilhéus. Estamos trabalhando em um sistema transmodal, utilizando a hidrovia do Rio São Francisco, pois quase 80% de tudo que é produzido no Oeste baiano é destinado ao Nordeste para os mercados da avicultura, suinocultura, bovinocultura e tecelagem. Um outro ponto que dificulta o desenvolvimento do agronegócio é a legislação trabalhista que não está adequada aos tempos de hoje e, principalmente, às propriedades rurais. A legislação vigente é de 1939 e esta prejudicando não só o agro, mas também a indústria e o comércio brasileiros. Este é um ponto que deve ser muito debatido no Congresso Nacional, pois é quem pode e deve promover as mudanças que são extremamente necessárias para o País. Na área ambiental, amorosidade na obtenção das licenças para incorporarmos mais áreas ao sistema produtivo também é um problema. Claro que tivemos muitos avanços nos últimos anos, mas precisamos avançar mais rápido. Para finalizar, temos problemas ainda com o custo de produção e o controle de pragas como a Helicoverpa armigera e a mosca branca, que são problemas que devem ser combatidos em conjunto por todos os produtores em um programa fitossanitário efetivo e eficiente.

A Granja – Um dos primeiros registros da Helicoverpa armigera foi no Oeste baiano. Como está o combate à praga pelos produtores locais?
Busato –
A helicoverpa foi identificada simultaneamente em cinco estados. Aqui na Bahia, por fazermos uma agricultura tecnificada, e por já estarmos fazendo o Manejo Integrado de Pragas (MIP), nós detectamos a presença dela e rapidamente juntamos nossas associações, comunicamos o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) e enviamos um grupo de agrônomos e pesquisadores para a Austrália, país onde ela dizimou a cultura do algodão na década de 1970. Dentro do processo de combate à praga, contratamos cinco entomologistas renomados, a Embrapa nos forneceu mais três e junto com os consultores, agrônomos, técnicos e agricultores da região, construímos e implementamos o Programa Fitossanitário da Bahia. Com todo esse esforço, este ano conseguimos reduzir nossas perdas com a helicoverpa, passando de quase R$ 2 bilhões em 2013, para R$ 1 bilhão nesta safra. O programa está sendo melhorado e, no futuro, vamos reduzir muito estas perdas.

A Granja - E como está o enfrentamento das dificuldades burocráticas para liberar a importação de substâncias para o combate à praga?
Busato -
Faz um ano e seis meses que estamos trabalhando nesta questão juntamente com a Secretaria Estadual da Agricultura (Seagri/BA), o Ministério da Agricultura, além de outras associações como a Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) e a Aprosoja (Associação Brasileira dos Produtores de Soja). O que aconteceu, é que o Brasil não estava e não está preparado para combater uma praga desta magnitude. É uma praga exótica, extremamente destrutiva, que não existia nas Américas e que de alguma forma atravessou o Oceano e se instalou no Brasil. O Mapa possui um aparato legal de 1938 que lhe dava poderes para interditar a área atacada, exterminar a praga ou controlá-la, com produtos que o próprio Mapa importaria e usaria. Isso é de uma época em que o Brasil ainda era importador de alimentos. Hoje, nosso País é um grande exportador. Como essa lei poderia ser aplicada no caso da helicoverpa se ela já estava instalada em cinco estados e rapidamente se espalhou pelo País? O Mapa autorizou a importação do Benzoato de Emamectina, que é um produto usado em mais de 80 países como Japão, Estados Unidos, Canadá e Austrália, além da Europa. Eles utilizam em tomate e alface. No Brasil, foram importadas 44 toneladas que estão até hoje apreendidas no Oeste da Bahia. Foi votado pela Câmara dos Deputados, Senado e a presidente Dilma Rousseff sancionou um decreto que autoriza o Mapa em uma situação emergencial, que é o caso, importar e permitir o uso de produtos que são utilizados em países desenvolvidos. Já se passaram mais de seis meses e ainda não conseguimos utilizar esta ferramenta que é de suma importância no nosso Programa Fitossanitário. Estamos trabalhando e torcendo que esta situação se resolva o mais breve possível, pois existem produtores, principalmente os médios e pequenos produtores da agricultura familiar que estão perdendo grande parte de suas colheitas, por não terem produtos eficientes no combate à praga.

A Granja – Quais são as novidades e as expectativas para a Bahia Farm Show deste ano?
Busato -
Esta é uma edição comemorativa dos dez anos da feira. Este ano, houve o crescimento da área em 20% em relação ao ano passado e o evento estará mais bonito. As novidades ficam por conta dos expositores, mas certamente a feira terá o que existe de mais moderno em máquinas, implementos e insumos agrícolas. A previsão é ter um volume de negócios em torno de R$ 1 bilhão. Tivemos no ano passado, aproximadamente R$ 700 milhões em negócios fechados e acreditamos que a boa safra de 2013/2014, com destaque para o algodão, além dos investimentos em armazenagem e irrigação, deverão motivar os produtores e impulsionar os negócios. Aproveito para convidar os produtores para a nossa feira que será realizada de 27 a 31 de maio, para que possam ver de perto o que existe de melhor em tecnologia agrícola.