Eduardo Almeida Reis

 

BOBINHA

EDUARDO ALMEIDA REIS

Cuidemos de assuntos rurais. Assisti ao nascimento do Banco Rural, que se chamava Banco Rural de Minas Gerais e teve como primeiro presidente o engenheiro Francisco de Sá Lessa, nosso vizinho no Rio, brasileiro ilustre e incorruptível, que foi prefeito do Rio de Janeiro.

Mineiro da melhor cepa, o doutor Lessa morava numa casa em Copacabana, muro baixo, portas sempre abertas, e não foi há mil anos. A onda de violência é recente e não tem mais que 40 anos. Num certo domingo, estava o engenheiro assentado na poltrona da sala, janelas abertas para o corredor que levava à garagem, quando viu passar um rapaz que lhe deu boa-tarde. Convidado para “acabar de chegar”, conversaram durante horas sobre a cidade natal deles dois, Diamantina, no Alto Jequitinhonha.

Na hora das despedidas, o dono da casa recomendou ao visitante que não deixasse de aparecer para nova conversa, quando ficou sabendo: “Mas eu moro aqui, doutor Lessa!”. Pois é: o conterrâneo morava havia dois anos em um dos quartos, por cima da garagem, e o dono da casa não se lembrava. Em Diamantina houve o precedente de um sujeito que foi visitar família amiga e ficou 24 anos.

Durante anos tive conta no Banco Rural, através da qual recebia o pagamento das crônicas diárias que escrevia para um jornal de Belo Horizonte. Certa feita, escrevi esculhambando um inspetor que apareceu na agência de Juiz de Fora assustando os funcionários com os seus coices.

Se estou lembrado, acho que o comparei aos cavalos brancos da Escola de Equitação de Viena, treinados para atuar em belos espetáculos, enquanto ele, inspetor, era um jumento que só sabia dar coices. Nesse mesmo dia, a presidência do banco entrou em contato com o presidente do jornal pedindo a minha cabeça. Talvez por seus telhados de vidro, banqueiros são muito “sensíveis” às críticas e têm imenso poder de fogo. Quase perdi o emprego, mas era o “mais lido” do jornal e o presidente fez que não ouviu a reclamação do banco. Mais tarde, um dos diretores do Rural me disse que o tal inspetor era tão grosso e imbecil que se indispôs com toda a diretoria do banco que o empregava. Foi escorraçado.

Passam-se os anos e me mudei para Belo Horizonte. Sempre cliente do Rural, andei tomando uns uísques com alguns dos seus dirigentes. Certa feita, no andar da diretoria, fui efusivamente cumprimentado por um diretor que só conhecia de vista, sujeito muito simpático, e um colega dele me disse: “Este sujeito ainda vai quebrar o banco”.

Não deu outra. O tal diretor, que achava tudo muito fácil, se envolveu com o “publicitário” Marcos Valério e daí para os mensalões, o mineiro e o brasiliense, foi um pulo, com as consequências que todos vimos e continuamos vendo.

Faz tempo que não entendo o noticiário escrito, falado ou televisado. Toda a imprensa comentou um crime de morte ocorrido no Rio, depois de uma discussão entre um passageiro e o motorista de um ônibus, destacando o fato de o crime ter sido cometido “por 65 centavos”. O passageiro só tinha uma nota de 50 reais e o motorista não tinha troco. Discutiram e o motorista “matou o passageiro por 65 centavos”, ênfase midiática que parecia justificar um homicídio se cometido por 100 reais.

Se isso não é distorção da lógica, do bom senso, de tudo que se deve pedir do noticiário escrito, falado ou televisado, não entendo mais nada, como não entendi, no processo do mensalão, a condenação da presidente (ou presidenta?) do Banco Rural a vários anos de cadeia em regime fechado.

De tão bobinha, Kátia Rabello é inimputável. Herdou a presidência de uma instituição bancária como poderia ter herdado uma pastelaria, uma carrocinha de pipoca, uma boate ou um sítio de 20 hectares.

Conheci-a num congresso realizado no Grande Hotel do Araxá, que reuniu empresários e jornalistas. Seu banco patrocinava o evento, motivo pelo qual a jovem presidente (ou presidenta?) coordenou palestra sobre as virtudes das instituições bancárias.

Uma lástima! Quis fazer graça, que não tinha; tentou lidar com os grandes empresários como crianças, que não são. Seu banco, naquele tempo, já estava condenado. Passaram-se alguns anos até estourar a AP-470, vulgo mensalão, com a bobinha presidindo o banco herdado. Sobrou para ela, tadinha, que era bailarina de alguma qualidade e dançou na hora da condenação. Foi um exagero.