Plantio Direto

 

ROTAÇÃO de culturas: muito recomendada, pouco utilizada

Eng. Agr. Dra. Lutécia Beatriz Canalli, pesquisadora do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar)

Um dos pilares do plantio direto é a rotação de culturas, cujo objetivo é dar maior sustentabilidade ao sistema. O estabelecimento de um sistema de rotação de culturas envolve necessariamente o uso de diferentes espécies de plantas, num esquema de uso intensivo do solo, visando à adição contínua de resíduos ao solo, após a colheita das culturas de interesse comercial (soja, milho, feijão, trigo, algodão, etc.) ou o manejo de plantas de cobertura.

Esse complexo resulta num ambiente mais diversificado, onde a adição contínua de resíduos ao solo proporciona resultados diretos de melhoria da fertilidade física, química e biológica do solo e também reduz a incidência de pragas e doenças, além de reduzir a infestação por plantas daninhas. Portanto, quando a área não estiver sendo cultivada com culturas comerciais, é importante que se utilize plantas de cobertura, visando justamente manter o solo protegido. Além disso, o uso de plantas de cobertura com diferentes características traz benefícios ao solo e ao desenvolvimento das plantas de interesse comercial.

A planta de cobertura terá de ser preferencialmente uma gramínea que gere bastante massa e com potencial forrageiro, como a braquiária num sistema bem manejado de integração lavoura-pecuária

Plantas de cobertura de espécies leguminosas (ervilhaca, tremoço, crotalária, guandu, ervilha forrageira, lab-lab, mucuna, etc.) fixam nitrogênio por meio de uma simbiose com bactérias específicas, processo que acontece na raiz destas plantas. E, com isso, estas plantas se beneficiam com o nitrogênio fixado e, quando manejadas, deixam o solo rico em nitrogênio, que vai aos poucos sendo liberado no solo com o início do processo de decomposição dos resíduos destas culturas. Isso pode propiciar redução de adubação nitrogenada, com consequente redução dos custos de produção das lavouras comerciais.

Quando se pensa em rotação de culturas, não existe uma fórmula ou receita mágica que sirva para todos, pois cada propriedade deve ser pensada de acordo com suas características, potenciais, dificuldades ou limitações

Por outro lado, plantas de cobertura de espécies gramíneas (aveia, triticale, centeio, azevém, braquiária, milheto, etc.) aportam bastante massa seca (palha) ao solo, pois são agressivas e perfilham bastante. Além disso, estas plantas apresentam alta relação carbono/nitrogênio (C/N), ou seja, elas apresentam mais carbono em sua composição, o que lhes confere a característica de decomporem mais lentamente, proporcionando cobertura e proteção do solo por mais tempo. Por isso, elas devem sempre fazer parte de um sistema de rotação de culturas, garantindo proteção ao solo. Vale destacar que, entre as gramíneas, o azevém e a aveia preta são capazes de, após manejados para formar a palhada, liberarem exudados radiculares capazes de impedir a germinação de algumas espécies de plantas daninhas, funcionando assim como supressoras destas invasoras. Não por acaso, alguns produtores chamam estas espécies de “plantas limpadoras de área”.

O nabo forrageiro, com raiz pivotante e vigorosa, que cresce atingindo maiores profundidades, tem o poder de realizar a descompactação do solo naturalmente, sem a necessidade de o produtor fazer uso de escarificador, o que seria um retrocesso em relação ao plantio direto. O uso do escarificador acaba afetando a estrutura do solo, rompendo os agregados formados pelo não revolvimento do solo no sistema plantio direto, com perda substancial de matéria orgânica.

Muitas espécies de plantas de cobertura também podem e devem ser usadas com a intenção de controlar doenças e pragas. Quando planejamos uma rotação de culturas bem diversificada, com diferentes espécies de plantas comerciais e de cobertura, já estamos definindo um ambiente mais saudável no que diz respeito ao aparecimento de pragas e doenças, pois, neste caso, estas terão menor possibilidade de se manifestar. Neste caminho, algumas espécies de plantas de cobertura bloqueiam o aparecimento de algumas doenças ou pragas, por serem resistentes a estas.

Profilaxia da lavoura — Assim, o plantio de braquiária antecedendo feijão, por exemplo, evita a infestação por mofo branco (antracnose); as crotalárias spectabilis, breviflora e ocroleuca são eficientes no controle de nematoides. A infestação de áreas produtivas por nematoides tem aumentado muitos nos últimos anos, e se os produtores não pensarem em rotação, com a inclusão de novas espécies resistentes aos nematoides no sistema de produção, vão acabar inviabilizando suas áreas.

Também alguns produtores têm necessidade de ter forragem para alimentar o gado leiteiro ou de corte no período do inverno, onde no verão é lavoura. Neste caso, a planta de cobertura terá que ser preferencialmente uma gramínea com potencial forrageiro. É possível fazer o ajuste destas duas atividades, lavoura e pecuária, que num sistema bem manejado é chamado de integração lavoura-pecuária. Mas tem que ser um sistema ganha- ganha, ou seja, a lavoura tem que apresentar bom resultado e a produção de leite ou carne também.

Para isto, é preciso um ajuste adequado destas atividades, com o estabelecimento da forrageira intercalar ou logo após a colheita da soja ou milho, por exemplo. E o pastejo tem que ser controlado, podendo ser contínuo ou rotacionado (com piquetes), permitindo a entrada dos animais quando o pasto estiver bem formado e retirando os mesmos da área (rotacionado) ou reduzindo a carga animal (pastejo contínuo), quando o pasto estiver com 20 centímetros. Isto quer dizer que nunca deve-se exceder este limite, se o objetivo é evitar a compactação do solo. Esse residual de 20 centímetros funciona como um tapete que amortece o impacto do casco do animal na área de pastejo, evitando a compactação.

Também deixa uma quantidade boa de material vegetal para interceptar a luz solar e acelerar o rebrote, favorecendo a recuperação do pasto mais rapidamente para que possa ser pastejado novamente. A cada pastejo, quando a área for deixada para rebrote, é necessário aplicar nitrogênio (uréia ou similar) para impulsionar a recuperação do pasto. Com estes cuidados é possível triplicar a massa verde produzida por uma determinada espécie comparada com ela mesma quando utilizada somente como cobertura, sem uso de fertilizante. Ao final, no mínimo 30 dias antes do plantio da cultura de verão, a área deve ser deixada para rebrote para obter uma quantidade razoável de massa verde, que será manejada para o plantio da cultura de verão em plantio direto.

Solo mais fértil — Outro aspecto que pode ser melhorado com a rotação de culturas é a fertilidade do solo. Com a adição contínua de resíduos vegetais ao solo e o não revolvimento do mesmo no sistema plantio direto, estes resíduos vão se decompondo lenta e gradualmente e, desta forma, aumentam a matéria orgânica, melhorando a disponibilidade de nutrientes no solo. Também, com o uso de plantas de cobertura com diferentes sistemas radiculares, explorando o solo em diferentes profundidades, ocorre a reciclagem de nutrientes no sistema, beneficiando as culturas comerciais que são plantadas na sequência.

Não se pode deixar de mencionar o uso de plantas de cobertura em consórcio. É possível potencializar os benefícios trazidos ao solo e às culturas subsequentes, usando juntas duas ou mais plantas de cobertura com diferentes características. Pode-se, por exemplo, plantar aveia + ervilhaca e haverá uma cobertura capaz de produzir bastante massa e também suprir nitrogênio para a cultura subsequente. Esta combinação também é um excelente pasto para o gado leiteiro, pois o nitrogênio melhora o teor de proteína no leite e leite com mais proteína tem melhor preço.

Já aveia preta + ervilhaca + nabo forrageiro, além dos benefícios das duas primeiras mencionados, com a inclusão do nabo forrageiro está se prevenindo ou resolvendo a compactação do solo. Estes são somente dois exemplos, mas dá para fazer uma série de combinações, baseadas no conhecimento das características das plantas de cobertura e no objetivo do produtor. Sempre que misturadas as espécies, é importante atentar para o ciclo das mesmas, de modo que a mistura preferencialmente seja feita com plantas de ciclo semelhantes, favorecendo o manejo das mesmas.

Quando se pensa em rotação de culturas, não existe uma fórmula ou receita mágica que sirva para todos. Cada propriedade é única e deve ser pensada de acordo com suas características, seus potenciais, suas dificuldades ou limitações (operacionais, financeiras, etc.), suas necessidades (problemas com doenças ou erosão, solo compactado, pouca matéria orgânica no solo, pastagens, etc.). Assim, o produtor e seu assistente técnico, conhecendo as características das plantas de cobertura e as características, limitações e necessidades da propriedade, serão capazes de planejar um sistema de rotação adequado para a propriedade em questão.