Soja

 

Riscos e prejuízos de o MIP ser ignorado

Um estudo junto a produtores e técnicos de soja na região de Palmeira/PR apontou que o Manejo Integrado de Pragas é confundido com o limitado Uso Racional de Inseticidas

Engenheiro agrônomo João Carlos Hoffmann, especialista, professor do Técnico Agropecuária-CAEGV, [email protected], e engenheiro agrônomo Rui Scaramella Furiatti, doutor e professor de Agronomia da Universidade Estadual de Ponta Grossa/PR, [email protected]

O Manejo Integrado de Pragas (MIP) é recomendado pela maioria dos órgãos de pesquisa, extensão rural e universidades como uma ferramenta imprescindível na construção de uma agricultura sustentável. Porém, não conta com o mesmo entusiasmo e motivação dos agricultores (Morales, 2006). São poucos os agricultores brasileiros que utilizam MIP na cultura da soja por motivos ainda em parte desconhecidos. Mesmo em regiões onde há tecnologia avançada aplicada na agricultura, o manejo de pragas ainda está baseado fortemente no controle químico. Os produtores altamente técnicos não adotam o MIP na soja em larga escala e quando utilizam um manejo mais técnico de insetos o fazem por meio do Uso Racional de Inseticidas (URI), o qual está baseado na quantificação dos insetos e recomendação de inseticidas (Furiatti, 2011).

No entanto, o MIP contempla um sistema complexo baseado em conhecimento profundo do agroecossistema, em que se utilizam medidas de manejo biológico, genético, físico e cultural, com uso restrito de pesticidas (Kogan, 2001). No MIP, além do URI, é preciso escolher adequadamente as cultivares para cada época de plantio, optar por variedades resistentes, preocupar-se com a fertilidade do solo e a adubação equilibrada, monitorar os insetos potencialmente pragas e seus inimigos naturais, manejar os hospedeiros intermediários, conhecer a bioecologia dos insetos, usar inseticidas seletivos aos insetos úteis, entre outras tantas práticas que compõem o MIP.

Visando contribuir na elucidação dos motivos da baixa adoção do MIP na soja, um estudo foi realizado no município de Palmeira/PR como parte do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), que visa projetar para o futuro a intencionalidade da ação do professor da Rede Pública Estadual de Ensino (Secretaria Estadual de Educação/PR). O estudo seguiu sob a orientação de professor da Universidade Es- Leandro Mariani Mittmann A GRANJA | 69 Fonte: Hoffmann, 2013 Fonte: Hoffmann, 2013 Fonte de renda dos sojicultores de Palmeira/PR; safra 2012/2013 Culturas assistidas pelos técnicos nas lavouras de Palmeira/PR; safra 2012/2013 tadual de Ponta Grossa (Uepg), com o auxílio de questionário contendo 13 perguntas, aplicado a 60 produtores, número proporcional a estrutura fundiária do município (21 pequenos com área entre 16 e 64 hectares e renda bruta anual de R$ 130 mil; 24 médios, com área de 64 a 240 hectares e renda bruta anual de R$ 130 mil a R$ 700 mil, e 15 grandes, com área maior que 240 hectares e renda bruta anual superior a R$ 700 mil) e também a 18 técnicos (15 da iniciativa privada e três do Poder Público). A metodologia teve como base entrevistas efetuadas pelos estudantes do curso Técnico em Agropecuária do Colégio Agrícola Estadual Getúlio Vargas.

Confusão — A pesquisa deixou claro que grande parte dos técnicos e sojicultores confunde URI com MIP e não valoriza as demais estratégias de controle, além da química. Os técnicos mostraram razoável conhecimento na identificação das pragas, mas os pequenos sojicultores não têm conhecimento para distinguir os principais insetos que atacam a cultura. Ambos, sojicultores e técnicos, principalmente do Poder Público, não foram capazes de identificar inimigos naturais (insetos, fungos e bactérias que se alimentam das pragas) e não os levam em consideração nas recomendações de inseticidas.

A maioria dos técnicos e sojicultores conhece o conceito de inseticidas mais seletivos aos inimigos naturais. Já os produtores não, e, quando muito, trabalham atrelados ao URI. Uma forma de mudar esse cenário seria a atualização em entomologia aos técnicos e cursos de aperfeiçoamento aos sojicultores, além da atuação mais efetiva da assistência técnica pública e privada. Quando o MIP da soja foi difundido entre 1977 e 1980, o sucesso se devia em especial à assistência técnica pública ofertada pelo Estado e à atuação efetiva das cooperativas.

A maioria dos sojicultores declarou procurar assistência técnica na iniciativa privada antes de aplicar inseticidas. Observase o afastamento do Poder Público na assistência técnica das lavouras de grãos, embora elas sejam importantes na fonte de renda dos agricultores. A maioria dos técnicos da iniciativa privada e sojicultores afirmam que aplicam inseticidas pelo calendário ou aproveitando a aplicação de herbicidas e fungicidas. Os técnicos do Poder Público dizem que não recomendam a mistura de tanque, mas reduziram suas atividades nas lavouras de grãos e não emitem receituário agronômico.

Na região de Palmeira, outro aspecto importante no fomento do MIP seria o retorno dos técnicos formados no Colégio Agrícola Estadual Getúlio Vargas às propriedades das famílias. Por meio de pesquisa realizada com 181 desses alunos egressos nos anos de 1994 a 1996, constatou- se que 13,2% trabalhavam como técnico em agropecuária, 7,1% cursavam universidades na área de Ciências Agrárias e apenas 17,6% com a família no campo (Hoffmann, 1997). A adoção do MIP na soja deverá passar pelo ensino, pesquisa, extensão rural, assistência técnica, indústria de inseticidas e usuários, através de ações públicas e institucionais, como aponta essa pesquisa.