Café

  

MECANIZAÇÃO da colheita viabiliza cafeicultor

À medida que se intensifica o uso das máquinas no sistema de colheita, a redução de custo é maior, refletindo o elevado custo operacional do serviço braçal. E ainda tem os benefícios indiretos, como rapidez e colheita seletiva

Prof. Dr. Fábio Moreira da Silva, Depto. Engenharia da Universidade Federal de Lavras/MG (Ufla), Eng. Felipe Oliveira e Silva, doutorando do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica, e Nayara Baungartem Miranda, acadêmica de Eng. Agrícola da Ufla

Hoje, mais do que nunca, com o cenário internacional do mercado do café, os cafeicultores precisam buscar redução de custo para viabilizarem seu negócio. Normalmente, a redução de custo unitário da saca de café passa pelo aumento de produtividade, porém este incremento, isoladamente, representa maior produção e oferta de mercado, o que pressiona ainda mais os preços para baixo. Em períodos que o preço de mercado não cobre os custos de produção, como o que se vivencia, a saída que resta aos produtores é reduzir seu custo global e, neste caso, para não comprometer os tratos culturais, resta somente reduzir os custos operacionais. Sobre este aspecto a mecanização das operações de cultivo e colheita assume um importante papel que vem dando fôlego aos cafeicultores nestas épocas de crise.

Momentos como este já foram vivenciados pela cafeicultura a exemplo da safra de 2000, em que o custo de produção era de R$ 138/saca no sistema de produção manual, contra R$ 115/saca no Divulgação A GRANJA | 61 sistema semimecanizado e R$ 99/saca no sistema mecanizado, para a produtividade de 35 sacas/hectare. Nesta época, em julho de 2000, o preço de mercado pago pela saca era de R$ 115, observando que os produtores que tinham adotado o sistema semimecanizado de produção se encontravam em equilíbrio econômico e os que estavam no sistema mecanizado estavam obtendo com saldo positivo, mesmo mediante o momento de crise.

A forma como as operações de colheita são realizadas, manual ou mecanicamente, caracterizam o sistema de produção, como manual, semimecanizado, mecanizado e supermecanizado. O sistema manual pode ser considerado como convencional, em que as diversas operações são realizadas a partir de trabalho braçal. O sistema semimecanizado consiste na utilização associada de trabalho braçal e máquinas. O sistema mecanizado considera o uso das colhedoras e o supermecanizado consta de todas as operações da colheita feitas mecanicamente, com colheita seletiva e recolhimento mecânico do café caído no chão.

A tendência que se verifica em regiões em que predominam pequenas e médias propriedades, com topografia e arquitetura das lavouras limitantes ao uso das colhedoras, é a expansão do sistema semimecanizado sobre as operações de derriça e abanação, com o emprego equilibrado de trabalhadores e máquinas, atendendo em especial a agricultura familiar. Em regiões com topografia mais plana e em propriedades maiores, o sistema mecanizado tem apresentado forte expansão.

Vários fatores devem ser observados para se optar por um destes sistemas de colheita, como topografia, espaçamento de plantio, área cultivada. Porém, os seguintes parâmetros são fundamentais para balizar esta decisão: desempenho médio operacional e custo do serviço braçal ou mecanizado. O custo da mão de obra é regionalmente variável, porém, fácil de ser determinado. Contudo, o desempenho operacional e o custo da mecanização, por sua vez, são mais complexos e específicos.

Desempenho e custo da colheita manual — Com relação à colheita manual, avaliando turmas de apanhadores para começo, meio e fim de safra, o desempenho operacional varia de cinco a seis medidas por homem/dia, para uma jornada de oito horas, considerando medidas volumétricas de 60 litros. O custo da mão de obra na safra 2013, baseado em 1,5 salário mínimo mensal, resultou em diárias de R$ 60, já incluindo os encargos sociais. Salienta-se que para trabalhadores temporários a menor diária líquida praticada foi de R$ 60 - acrescidos os encargos sociais, totalizou R$ 85 para uma lavoura com produtividade média de 35 sacas/hectare de café beneficiado. O volume de frutos a serem colhidos é da ordem de 280 medidas/ha, o que requer o serviço de 47 homens/ha. Para a diária de trabalhadores temporários a R$ 85, o custo da colheita manual foi de R$ 3.995/ha, ou R$14,30/medida.

Desempenho e custo da colheita semimecanizada — A colheita no sistema semimecanizado normalmente é feito por duplas, sendo um homem com o derriçador e outro fazendo o repasse e o levantamento do café derriçado. O repasse é a operação manual que retira os frutos restantes após a derriça mecanizada e o levantamento trata-se do recolhimento e da limpeza do café derriçado no pano ou no chão. Com o derriçador, um homem derriça de 20 a 30 medidas/dia, que, divididas pela dupla, resultam na média de 10 a 15 medidas/homem/dia.

Para a mesma lavoura, com 280 medidas/ ha de frutos a serem colhidos, o desempenho médio da dupla de trabalho é de 25 medidas/dia, que requer 11 diárias/ ha. Considerando o custo do derriçador de R$ 3/hora, com a diária bruta de R$ 100 do operador mais a diária de R$ 85 do ajudante, totaliza o custo de R$ 210/dia. Sendo assim, o custo total da colheita semimecanizada soma R$ 2.300/ ha, ou parcial de R$ 8,20/medida, com redução de 42% em relação à colheita manual.

Desempenho e custo da colheita mecanizada — Para os médios e grandes produtores, o sistema mecanizado de colheita tem sido largamente adotado, resultando em elevado desempenho operacional com significativa redução de custos. O desempenho médio das colhedoras é de 60 medidas/hora em lavouras típicas do Sul de Minas, chegando a colher mais de 80 medidas/hora em lavouras devidamente plantadas para a mecanização.

Para as colhedoras automotrizes, o custo horário na safra de 2013 foi da ordem de R$ 130/hora. Considerando a mesma lavoura com produção de 35 sacas/ ha, com volume de frutos a serem colhidos de 280 medidas/ha, a operação mecanizada requer no máximo quatro horas/ha, colhendo em torno de 75% da carga pendente, o que representa um volume de 210 medidas, colhidas a um custo operacional de R$ 520/ha. Contudo, é preciso considerar o custo do repasse manual para colher os frutos restantes juntamente com os que caíram no chão, da ordem de 70 medidas/ha, a um custo R$ 20/medida (valor médio praticado na safra 2013 com encargos sociais), resultando em R$ 1.400/ha, sendo mais que o dobro do custo da máquina, o que eleva o custo final da colheita no sistema mecanizado para R$ 1.920/ha, que corresponde ao valor parcial de R$6,86/ medida, com redução de 52% em relação a colheita manual. Mesmo para os produtores que não dispõem da colhedora e fizeram a colheita com máquina alugada ao valor de R$ 200/hora, o valor da medida saiu por R$ 7,86, com redução de 45%.

O Brasil dispõe atualmente da mais moderna tecnologia mecanizada do mundo para a cafeicultura, podendo atender do pequeno ao grande cafeicultor, o que coloca o País na hegemonia da produção

Desempenho e custo da colheita supermecanizada — No sistema supermecanizado, a colheita é feita com duas passadas da colhedora, em colheita seletiva, retirando em torno de 97% dos frutos e assim dispensando a operação de repasse. Na colheita seletiva, a velocidade operacional recomendada é de 1.600 metros/hora, sendo o dobro da velocidade na colheita convencional. Desta forma, requer o tempo de três horas/ ha, que custa, em duas passadas, R$ 780/ ha. Neste caso, não há repasse manual, contudo, em média, 20% dos frutos são contabilizados como perdas de colheita, o que corresponde ao volume de 56 medidas/ ha a serem recolhidas. Neste sistema o recolhimento também é mecanizado, recolhendo em torno de 80% do café de chão a um custo entre R$ 6 a R$ 10/medida, o que resulta em custo final de colheita em torno de R$ 1.138,00/ha, ou parcial de R$ 4,18/medida, com redução de 70% em relação à colheita manual.

Como se observa à medida que se intensifica o uso das máquinas no sistema de colheita, a redução de custo é maior, refletindo o elevado custo operacional do serviço braçal, perante a viabilidade técnica e econômica dos sistemas mecanizados, sem contar benefícios indiretos, como rapidez e colheita seletiva, que resultam em melhor qualidade do café produzido. A cultura do café apresenta um elevado custo de produção, sendo que a colheita representa de 30% a 40% destes custos e a racionalização destes gastos pode determinar a viabilidade do processo produtivo em época de crise.

Considerando o atual custo de produção da ordem de R$ 300,00/saca e o custo da colheita manual de R$115,00/ saca, a redução de 42% no sistema semimecanizado, resulta no custo de colheita de R$65,00/saca e de produção de R$250,00/saca, equiparando ao valor médio de mercado (julho/2013), situação similar às condições econômicas da safra de 2000, em que o sistema de produção semimecanizado demonstrava equilíbrio econômico, se sustentando mesmo em época de crise.

No sistema mecanizado, o custo de colheita cai para R$ 55/saca e o de produção, para R$ 240/saca, resultando em pequeno soldo e, no sistema supermecanizado, o custo se reduz a R$ 218/saca, demonstrando viabilidade mesmo em época de crise. É preciso destacar que o manejo no sistema supermecanizado é limitado, não se aplicando a todas as lavouras e/ou safras, dependendo de carga pendente, dinâmica de maturação e, sobretudo, gestão de colheita seletiva.

Em suma, podemos afirmar que o Brasil dispõe atualmente da mais moderna tecnologia mecanizada do mundo para a cafeicultura, podendo atender do pequeno ao grande cafeicultor, o que coloca o País na hegemonia da produção, com sustentabilidade mesmo em época de preços baixos, superando as crises, como ocorreu na safra de 2000 e deve ocorrer neste momento que se vivencia.