Trigo

Lucro vai depender da forma de COMERCIALIZAÇÃO

Caso a área do cereal cresça como se estima e a produtividade seja boa, a consequência será a queda de preços. Portanto, o produtor deve se antecipar para fazer acordos de preços com o comprador

Lucilio Alves, pesquisador do Cepea

As incertezas quanto à área cultivada e ao tamanho de safra de trigo em cada ano preocupam agentes de forma geral e o Governo, uma vez que o Brasil importa pelo menos metade de sua necessidade de consumo. De qualquer forma, vale considerar o pouco, ou quase nenhum, programa de incentivo para o cultivo do cereal no Brasil e a certa concentração de moinhos, que muitas vezes chega a dificultar as vendas do produtor. Isto limita a liquidez e tende a pressionar as cotações em anos de produção doméstica acima da média. Para produtores, além da baixa liquidez, cita-se o risco climático, custo relativamente alto e a concorrência (no Paraná), ou falta de (no Rio Grande do Sul), com outras culturas na segunda safra.

Na safra 2013/14, colhida em 2013, a área cultivada com trigo no Brasil cresceu 16,6%, para 2,2 milhões de hectares, sendo a maior desde 2009, segundo dados da Conab. A produtividade média foi de 2,5 toneladas/hectare, a terceira maior da história – perdendo apenas para 2010/11 e 2011/12. O Rio Grande do Sul registrou a maior produtividade agrícola histórica para o estado, de 3,06 t/ha, depois de ter produzido apenas 1,9 t/ha na safra anterior. Já o Paraná produziu apenas 1,9 t/ha, a menor desde 2006/07, depois de ter tido produtividade recorde na temporada passada. No agregado do País, a produção chegou a 5,5 milhões de toneladas, a quarta maior da história, segundo dados da Conab. Mesmo assim, o Brasil deverá importar 6,5 milhões de toneladas, para atender uma demanda interna de 11,3 milhões de toneladas.

Considerando-se que nosso principal fornecedor, a Argentina, produziu apenas 10,5 milhões de toneladas em 2013/14 e, na temporada anterior, apenas 9,3 milhões de toneladas, contra mais de 17 milhões de toneladas em 2011/12, segundo dados do USDA, o excedente interno para exportação é cada vez menor – considerase que a Argentina tenha consumo para cerca de 6 milhões de toneladas. Adicionam- se aqui os problemas políticos daquele país. Assim, o Brasil precisa buscar novos fornecedores para atendimento da demanda.

Desde junho de 2013, a principal origem das importações brasileiras são os Estados Unidos. Como está fora do Mercosul, há a Tarifa Externa Comum (TEC) incidindo sobre o valor de compra – o Governo brasileiro chegou a liberar a TEC em 2013, reduzindo o custo das importações. Porém, há também um custo maior de frete marítimo, que no final encarece o produto para o Brasil. Assim, isto justifica as altas de preços no Brasil entre abril e setembro de 2013. Porém, com a disponibilidade do produto colhido internamente, as cotações cederam de setembro a dezembro de 2013. Recentemente, os valores continuaram subindo, dados os baixos estoques internos e o maior custo das importações, diante das valorizações do produto americano. Pode-se dizer que as cotações do trigo estão em patamares considerados satisfatórios, apesar de a alta observada em 2014 não ter compensado as quedas do último trimestre de 2013.

Desta forma, para o Brasil, a expectativa para 2014 é de que o cultivo de trigo volte a ganhar espaço, principalmente na Região Sul. O plantio de milho foi prejudicado pela falta de chuvas no Sul e no Sudeste e, diante do baixo retorno financeiro apontando nos meses de janeiro e fevereiro, produtores podem optar pela substituição por trigo. Segundo pesquisas realizadas pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em termos operacionais, a cultura do trigo se mostra mais vantajosa que a de milho em regiões do Paraná. Mesmo ao serem computados os custos totais (operacionais e fixos), o trigo aponta igualdade com a receita total. Já para o milho, sobre o custo total, as margens negativas são ampliadas. Para este resultado, pesquisadores do Cepea levaram em conta a produção do trigo e do milho nas regiões de Cascavel/PR e Londrina/ PR. A simulação baseou-se em coeficientes técnicos (doses de insumos e produtividades) da safra 2012/13 levantados pela equipe do Cepea junto a produtores e consultores das localidades estudadas, com a metodologia denominada “painel”. Foram considerados os valores médios pagos pelos insumos e também os de venda da produção referentes aos meses de novembro/13 a janeiro/14.

Para o trigo, na região norte do Paraná, tomou-se como base uma produtividade média de 47,52 sacas por hectare. Os dados médios apontam que o custo operacional da lavoura seria de R$ 32,59/ saca em janeiro/14, que, tomando-se como base o preço médio de R$ 42,50/ saca de 60 quilos, geraria rentabilidade de 30,4%. Para o milho de segunda safra, com a mesma metodologia, na região, o custo operacional seria de R$ 22,32/saca, para uma produtividade de 74,38 saca/ hectare. Com preço médio de R$ 18,54/ saca de 60 kg, a rentabilidade seria negativa em 16,9%. Na região de Cascavel, a rentabilidade da triticultura também ficaria na casa dos 30%, com custo de R$ 32,20/saca e preço de venda de R$ 42,51. A produtividade considerada foi de 41,32 sacas/hectare. Já para o milho de segunda safra, a rentabilidade seria negativa em 6%, para uma produtividade de 82,64 sacas/ hectare. O custo médio seria R$ 19,50/saca e o preço considerado foi de R$ 18,34/saca.

Comercialização — Os produtores devem ficar atentos quanto à forma de comercialização do trigo nesta temporada. O custo parece ter aumentado em relação ao ano anterior e, por outro lado, os preços podem ceder no segundo semestre. Os novos dados da Conab, divulgados em março, apontam que os estoques finais em 31 de julho de 2014 devem totalizar 1,04 milhão de toneladas, impacto principalmente pelas exportações praticamente nulas na temporada – a estimativa é de exportação de 50 mil toneladas entre agosto de 2013 e julho de 2014. Estes estoques serão bem maiores que os de final de julho de 2013, que eram de 342 mil toneladas, segundo a Conab.

Caso a área com a cultura realmente cresça – no Paraná já se fala em acréscimo de mais de 20% – e se, felizmente, a produtividade for boa, a oferta interna deve representar uma parcela maior da disponibilidade total, podendo resultar em menor liquidez – em anos anteriores chegou a não haver negociação em até 60 dias – e, consequentemente, quedas de preços. Compradores e vendedores precisam se antecipar nos acordos para que não ocorram perdas expressivas para uma das pontas e desequilíbrio em 2015.