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Procuram-se EXECUTIVOS para o agronegócio

Apesar do cenário promissor para o agronegócio, inclusive com a criação de novas posições – como Gestão de Farming –, há falta de interesse por parte de profissionais em trocar as grandes cidades por municípios do interior

Jeffrey Abrahams, responsável pela prática de Agronegócios da Fesa, consultoria especializada em busca e seleção de altos executivos

A busca de um executivo para o mercado do agronegócio é uma tarefa complexa. É um segmento que possui uma gama de nuances e diferenciais. Quem participa desse dia a dia sabe muito bem que o executivo agro é alguém com o pé na terra e o cérebro na tecnologia. Além disso, precisa ter grande traquejo para lidar com todos os níveis da organização, da diretoria aos trabalhadores do campo. É como ter que juntar leite e azeite em um único copo e tirar daí uma bebida homogênea. São mundos diferentes, vocabulários diferentes, serviços diferentes. Isso, sem falar na postura em reuniões de clientes nacionais e internacionais, nas quais é preciso se portar ainda de uma forma específica, dependendo do país em questão.

Os últimos anos trouxeram a globalização e a expansão do agronegócio, o que desencadeou uma maior complexidade no mercado. Tenho certeza que tal crescimento deve continuar ainda por muitos anos, pois é o agronegócio que produz boa parte do alimento mundial. Com o crescimento populacional, o segmento agro pega carona e embarcará em um desenvolvimento contínuo com o aumento da demanda. Já vemos um cenário muito positivo no segmento. De acordo com o Índice de Commodities Brasil (IC-Br), calculado pelo Banco Central (BC), no ano passado a alta ficou em 3,12%. Esse é um fator que impacta positivamente a demanda do mercado por mais profissionais da área.

Aliado a isso, o setor tem atraído a atenção de novos investidores em diversas áreas, principalmente com a entrada dos fundos de private equity e das multinacionais que aterrissam de forma crescente em território nacional. Em relação às companhias já atuantes no Brasil, sua clara expansão nos últimos anos é mais um pilar que sustenta a criação de novos empregos no campo, desde oportunidades pré-porteira até pós-porteira.

Apesar do cenário tão promissor, vejo muita falta de interesse por parte de profissionais. Muitos deles não estão dispostos a trocar as grandes cidades por municípios do interior do País que ainda estão em fase de desenvolvimento. No interior de Goiás, por exemplo, há posições abertas com altos salários, mas em minhas buscas de exe- Divulgação A GRANJA | 55 cutivos tenho retorno pouco positivo para oportunidades em locais assim.

A maioria dos executivos de alta gerência tem família e filhos, por isso entendo sua relutância para tais mudanças de endereço. Mas esse é um momento em que as oportunidades precisam ser abraçadas ou o Brasil acabará por perder sua chance de ganhar destaque internacional cada vez maior. Além dessa ramificação do mercado agro, as companhias também estão na busca de executivos, não só com sólida formação técnica em profissões tradicionais como engenharia agronômica, zootecnia e veterinária, mas que tenham ainda uma especialização em alguma área diferenciada, como financeira, gestão de pessoas, supply chain e avaliação de terras.

Novas posições e oportunidades no mercado — O crescimento do mercado agro, junto à sua especialização e modernização, trouxe para o campo novas carreiras para os altos executivos do setor. Um exemplo desse movimento de mercado foi a criação da posição de Gestão de Farming, tanto na área de grãos quanto etanol, que exige altos executivos capazes de buscar e adquirir novas terras com menores preços para prepará- las física e legalmente para futura venda ou uso para agricultura de precisão. É necessário que esse profissional conheça a fundo o processo de registros, demandas ambientais e os quesitos para a seleção das terras, assim como as questões pluviométricas, climáticas, adequação geográfica e de solo.

Outra nova posição é a de Gestor de Risco Agrícola, que exige profissional capacitado tecnicamente para o mapeamento de áreas agrícolas para resseguro. É necessário que o executivo tenha grande network entre decisores, conhecimento de underwriter agrícola e de legislação do mercado de seguros. Já o Gestor de Acesso ao Mercado tem a função de maximizar a penetração de mercado e buscar ferramentas financeiras para diminuir a perda cambial e preço de commodities para a companhia. É um profissional que precisa conhecer as cadeias de valores nas diferentes regiões do País, além de ferramentas de distribuição e vendas, marketing, CRM e financeiras.

Com salários muito atrativos, vejo que não é a falta de interesse que traz a dificuldade para as empresas de captar o profissional certo, mas sim de achar um executivo completo e que tenha ainda a vontade de enfrentar o desafio de se deslocar para cidades menores do País. Como competências, o mercado de trabalho agro exige também que o profissional tenha um perfil de liderança, com foco em resultado, globalizado e que seja de fácil adaptabilidade. Afinal, apenas conhecimento não faz com que um profissional seja respeitado e entendido por todos os colaboradores de uma empresa, ainda mais em nosso segmento.

Sem perder o bonde — O mundo mudou e se modernizou, por isso precisamos ter um olhar diferente quanto ao Brasil agrícola. Financeiramente, o País e as empresas possuem meios de sobra para investir mais e mais no campo, já que o retorno é garantido. O crescimento da busca de profissionais para dar sustentação ao crescimento do mercado do agronegócio existe há cerca de uma década. O Brasil parece que está acompanhando esse desenvolvimento, mas, se der mais foco ao segmento, conseguirá se destacar de forma inédita internacionalmente.

Atualmente, as empresas do agronegócio têm recursos suficientes para continuarem em ascensão. Para que esse cenário continue positivo, os profissionais do setor não podem deixar as oportunidades passarem diante de si. É preciso agarrá-las e impulsionar o crescimento do mercado. Temos boas demandas em empresas que atuam nos diversos segmentos do agronegócio, passando por máquinas e implementos, biotecnologia, fertilizantes químicos, defensivos agrícolas, grãos e sucroalcooleiro. Além disso, o mercado mundial está cada vez mais competitivo e para que o Brasil não fique para trás, precisamos explorar novas fronteiras, como Cerrado, Triângulo Mineiro, Oeste Baiano e o interior de São Paulo. O mercado de trabalho no agronegócio responde rapidamente quando há investimento e oferta de mão de obra especializada. Vamos focar nisso e fazer do Brasil o celeiro do mundo.