Reportagem de Capa

 

A integração REVOLUCIONA a agricultura

Assim como o plantio direto, a integração lavoura-pecuária vem representando um marco importante para o agronegócio brasileiro. Paisagens e realidades são transformadas, e o que antes era um sistema único de produção, passa a ser espaço para duas ou mais atividades. Os desafios para ampliar o uso da tecnologia ainda são grandes, mas relatos de produtores e pesquisadores são indicadores otimistas dos resultados já alcançados e dos que ainda virão no futuro

Denise Saueressig
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Uma mudança nada silenciosa está ocorrendo no campo brasileiro. Assim como aconteceu com o plantio direto, a integração lavoura-pecuária (iLP) transforma dúvidas e desconfianças em boas notícias. E em pelo menos um aspecto a motivação para a existência das duas práticas se assemelha. Na década de 1970, a erosão tomava conta do solo, tornando as terras menos produtivas. Hoje, as pastagens degradadas prejudicam a rentabilidade da pecuária e depreciam o lucro do produtor. Nas duas situações, foi preciso agir e fazer algo de novo. No caso da integração, mais do que reformar pastos exauridos, foi possível descobrir que a mesma área suportava uma segunda atividade. E mais: é justamente essa segunda atividade que pode ajudar a recuperar a condição do solo e devolver o vigor para o alimento do gado.

Entusiasta e estudioso do assunto, o pesquisador Luiz Carlos Balbino, chefe da área de Transferência de Tecnologia da Embrapa Cerrados, recorda que as primeiras experiências com integração surgiram nos anos 1970. Quando o Cerrado passava pelo processo de ocupação das terras, era comum os produtores cultivarem arroz num primeiro ano e, na sequência, plantarem pastagens, o que mais tarde gerou o Sistema Barreirão. Nos anos 2000, já com a intensificação das áreas de plantio direto, surge o Sistema Santa Fé, que faz o consórcio entre grãos e braquiária. Ao mesmo tempo, na Amazônia, foram desenvolvidos trabalhos com pastagens e árvores. “Com o passar do tempo, a necessidade e a curiosidade em saber mais sobre o sistema estimularam novas pesquisas e geraram conhecimento sobre o tema”, analisa.

Mais recentemente, além da questão produtiva, o apelo ambiental foi determinante para difundir o interesse pela integração, considerada prática sustentável de produção. Estudos realizados nos últimos anos já comprovaram que o sequestro de carbono é maior em áreas manejadas corretamente.

Compromisso — Em 2009, durante a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP 15), na Dinamarca, o Brasil assumiu o compromisso voluntário de reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa entre 36,1% e 38,9% até 2020. O tratado internacional assinado pelo Governo fomentou a criação, em 2010, do Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono), em que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) propõe metas em diferentes processos tecnológicos: recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, sistema plantio direto, fixação biológica de nitrogênio, florestas plantadas e tratamento de dejetos animais.

Um dos objetivos é ampliar a adoção de sistemas de iLPF e de sistemas agroflorestais em 4 milhões de hectares até 2020. Hoje, a Embrapa estima que a integração esteja presente em uma área de cerca de 2 milhões de hectares. Mas o potencial é bem maior. Segundo o IBGE, o Brasil tem cerca de 170 milhões de hectares de pastagens. Cerca de 80% desse total apresentam índices zootécnicos abaixo dos recomendados, o que normalmente indica algum estado de degradação. “Acreditamos que é possível adotar a integração em cerca de 50 milhões de hectares, recuperando as áreas com problemas e sem ocupação de novas terras”, enumera Balbino.

Crédito — O Plano ABC criou linhas de crédito para os produtores interessados em adotar as práticas propostas. O recurso liberado inicialmente, na safra 2010/2011, foi de R$ 2 bilhões. Na temporada 2011/2012 foram disponibilizados R$ 3,15 bilhões, mas aplicado apenas R$ 1,5 bilhão. No ciclo seguinte, dos R$ 3,4 bilhões anunciados, R$ 2,9 bilhões foram aplicados. Na atual safra, são R$ 4,5 bilhões, com juros de 5% ao ano. O prazo de pagamento para projetos de integração é de até oito anos, podendo chegar a 12 anos quando o componente florestal estiver presente, incluindo até três anos de carência.

O secretário de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do Mapa, Caio Rocha, informa que cerca de 10% dos recursos contratados no programa são destinados à integração. A maior parte do recurso, em torno de 60%, é aplicada em recuperação de pastagens. O programa também integra uma ação maior de capacitação promovida pelo Mapa e que pretende realizar atividades de assistência técnica com 100 mil médios produtores este ano. “Acredito que a principal questão para a adesão aos sistemas integrados seja o conhecimento e, nesse sentido, a capacitação desempenha uma função essencial”, considera Rocha.

Difusão — Iniciativas públicas e privadas vêm ajudando a difundir a integração. Em São Paulo, o Integra SP, coordenado pelo governo, existe desde o ano passado. A meta é recuperar mais de 300 mil hectares de pastagens até 2020. Há cerca de quatro anos, São Paulo tinha entre 10 milhões e 11 milhões de hectares de pastagens. Atualmente, devido à expansão de outras atividades, como o cultivo da cana, a área com pastagens é estimada em 7,5 milhões de hectares. Desse total, 60% apresenta algum nível de degradação e 20% está muito degradado, cita o engenheiro agrônomo Orlando Melo de Castro, coordenador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), da Secretaria de Agricultura do estado. “Produtores interessados em adotar o sistema recebem apoio com assistência técnica e com os recursos disponíveis no Feap (Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista)”, explica.

Além da necessidade de melhorar os índices pecuários, os bons preços dos grãos vêm ajudando a estimular os produtores. Nas propriedades paulistas onde a integração é praticada, o sistema é feito com soja e milho, principalmente. “Também há casos com amendoim, sorgo e girassol, além de um trabalho interessante com eucalipto e ovinos desenvolvido pela Apta”, relata Castro.

José Alberto Pires, da Emater/MG: programa estadual quer promover o uso da tecnologia em larga escala nos cultivos comerciais

Em Minas Gerais, experiências com integração são conduzidas desde os anos 1980. Mais recentemente, em 2008, foi criado o Programa Estadual de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Em diferentes regiões do estado, a Emater, a Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais) e a Universidade Federal de Viçosa (UFV) mantêm 450 unidades demonstrativas de integração lavoura-pecuária e outras 1.700 unidades de fomento florestal.

O engenheiro agrônomo José Alberto de Ávila Pires, coordenador técnico da Emater, explica que as áreas de teste normalmente têm entre um e dois hectares e que a grande meta para os próximos anos é ampliar a integração em larga escala nos cultivos comerciais. Segundo ele, de um total de 25 milhões de hectares de pastagens no estado, entre 12 milhões e 13 milhões de hectares têm algum grau de degradação. “Temos um desafio importante na parte financeira, já que estimamos em R$ 5 mil por hectare a implantação de um projeto de iLPF. Por isso, é fundamental que os produtores possam acessar os recursos oficiais disponíveis para adesão à tecnologia”, declara.

Em regiões como Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e Noroeste, as experiências com iLP vêm resultando em bons negócios. “São locais valorizados para a agricultura, e é comum pecuaristas arrendarem essas terras por determinados períodos e, depois, as receberem de volta com pastagens recuperadas. De tempos em tempos, este ciclo se repete”, assinala Pires.

Recuperação no arenito — A Cocamar, com sede em Maringá/PR, fomenta a integração há 14 anos. A cooperativa integra a Rede de Fomento ILPF, iniciativa coordenada pela Embrapa e que ainda tem como parceiros a Syngenta e a John Deere. Na Cocamar, uma equipe de cerca de 30 técnicos trabalha auxiliando produtores nas diferentes etapas de implantação da iLP. Na área de abrangência da cooperativa, no noroeste do Paraná, o arenito tem 2 milhões de hectares de pastagens, dos quais 70% têm problemas de produtividade. São solos arenosos, de baixa fertilidade e propícios à erosão. Foi preciso realizar vários tipos de experiência para entender qual a melhor condução para os sistemas na região, conta o coordenador técnico de iLPF da cooperativa, Rafael Franciscatti dos Reis.

Hoje, a integração é realizada com soja Divulgação José Alberto Pires, da Emater/MG: programa estadual quer promover o uso da tecnologia em larga escala nos cultivos comerciais A GRANJA | 31 e braquiária. No início do processo, a área com o pasto pouco produtivo recebe calcário um ano antes do plantio da soja. Logo após a colheita da oleaginosa, o capim é plantado e, 70 dias depois, os animais passam a ocupar a área. Normalmente, a lotação é de 2 UA (unidade animal) por hectare, com uma média de ganho de peso de 500 gramas/dia durante o inverno. “Em 100 dias de pastejo, a produção média é de seis arrobas por hectare, podendo chegar a dez arrobas por hectare”, descreve.

Em meados de setembro, o pasto é dessecado e, a partir do início de outubro, a área recebe a lavoura de soja novamente. Depois da colheita, volta a braquiária e, então, a pecuária permanece por dois anos no talhão. “Sabemos que mais de dois anos de soja na mesma área provoca a diminuição do teor de matéria orgânica do solo, assim como mais de dois anos com pasto também reduz a produtividade. Ou seja, precisamos da rotação para a sustentabilidade do sistema”, conclui

Em 2010, a Cocamar monitorava propriedades de 17 produtores que investiam em integração. Agora são 99 produtores numa área de 43 mil hectares, sendo que 8,5 mil hectares são cultivados com soja. Para os pecuaristas que resolveram apostar no sistema, o custo do primeiro ano é calculado em 37 sacas de soja por hectare. No segundo ano, o valor já cai para 30 sacas por hectare. “Buscamos uma média de produção de 43 sacas por hectare para a viabilidade da atividade e estamos conseguindo. Esse ano, mesmo com a falta de chuva e o calor excessivo, os produtores conseguiram até superar esse número, sendo que, nas lavouras tradicionais, as perdas ficaram em torno de 25%”, detalha Reis.

Entre os objetivos do projeto da Cocamar está elevar de R$ 180 para R$ 560 por hectare a rentabilidade da pecuária, o que significa 18 arrobas por hectare a partir do sexto ano. “Ainda temos desafios, como mudar o pensamento de alguns produtores. Aqueles que têm uma visão empresarial aceitam mais fácil novas tecnologias. Outros, só mudam por necessidade ou se enxergam o vizinho fazendo diferente. Mas mostramos a eles o quanto a integração pode melhorar a rentabilidade do negócio, com diversificação, estabilidade e mais eficiência”, justifica.

Intensificação — Também no Paraná, um dos trabalhos de referência em produção conservacionista vem do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), que promove treinamento de técnicos para a difusão de informações e dias de campo com produtores. O pesquisador Sérgio José Alves diz que, anualmente, mais de 5 mil produtores e, aproximadamente, 500 técnicos passam pelas atividades realizadas em conjunto com cooperativas. “Um dos caminhos futuros está voltado aos sistemas intensivos, em que o gado pode ser abatido com menos de dois anos de idade com o uso de alta tecnologia. Alguns produtores de ponta vêm conseguindo manter dez animais por hectare em pastos de verão e quatro animais por hectare em pastagens de inverno, com engorda de 800 gramas por animal/dia”, revela. Nesse manejo, as áreas não mecanizáveis são utilizadas para o cultivo das árvores e a manutenção dos animais entre outubro e maio. Nas demais áreas, é feito o cultivo da soja ou do milho e, posteriormente, o pasto de inverno.

O pesquisador do Iapar recorda que era chamado de maluco na década de 1990, quando preconizava o uso da integração. “Muitos produtores achavam que a produtividade da soja pudesse ser prejudicada com o pastoreio do gado, mas a conclusão de nossos estudos mostra que ocorre o contrário. Em áreas analisadas em Campo Mourão, por exemplo, a média de rendimento é de 65 sacas por hectare em áreas onde há o pastejo no inverno, enquanto nas áreas tradicionais o volume fica em 61 sacas por hectare”, atesta Alves.

A explicação vem da melhoria das condições do solo com maiores produção de biomassa, reciclagem de nutrientes e presença de microrganismos na terra. A cobertura permanente também diminui a incidência de plantas daninhas, assim como a maior quantidade de palha ajuda a minimizar os efeitos na ocorrência de estiagem. O especialista do Iapar aponta que os resultados da iLP já são bastante consistentes, mas ressalva que as informações a respeito da iLPF ainda precisam de mais avaliações. Para isso, experimentos com diferentes espaçamentos vêm sendo conduzidos.

Mudança de atitude — Depois de perceber que a pastagem não oferecia mais a rentabilidade necessária para a criação do gado, o produtor Gerson Bortoli resolveu tomar uma atitude para mudar a realidade na sua propriedade em Umuarama/PR. Em 2004, ele foi um dos primeiros produtores paranaenses a investir na integração para recuperar a condição do pasto. Hoje, é um defensor do sistema. “Minha rentabilidade passou de R$ 800 por hectare com a pecuária para até R$ 2,5 mil por hectare com as duas atividades”, avisa.

Produtor Mário Zafanelli: a primeira experiência com a soja não deu certo, mas agora ele pretende persistir no cultivo da lavoura

O início foi em apenas 50 hectares, mas os resultados positivos que logo apareceram fizeram com que a área fosse aumentando ano após ano. Hoje, são 375 hectares cultivados com soja no verão e braquiária no inverno. No primeiro ano, para não investir mais do que poderia pagar, Bortoli contratou outro produtor para realizar a colheita da soja. Agora, ele conta que já tem toda a estrutura necessária para as duas atividades e funcionários devidamente capacitados para a mudança de funções.

A lotação da pastagem, que antes era de 1,5 cabeça por hectare, hoje chega a quatro cabeças por hectare. “Tínhamos um boi sanfona, que ganhava peso no verão e perdia no inverno. Agora, o gado ganha mais peso no inverno. É quase um confinamento a céu aberto”, comemora. Segundo ele, o ganho médio diário fica entre 1 quilo e 1,2 quilo por cabeça. Entre 20 e 25 de agosto, o gado está pronto para o abate. Cerca de duas semanas depois da saída dos animais, é feita a dessecação e, no início de outubro, a soja é semeada em plantio direto. Prevenido, Bortoli ainda cultiva um pouco de milho no inverno para poder fazer silagem em caso de geada.

A produtividade média da soja fica entre 55 e 60 sacas por hectare, mas o produtor já chegou a contabilizar 75 sacas por hectare em um talhão. “Esse ano tivemos problemas com a estiagem na região toda, mas a cobertura no inverno conserva os nutrientes e a umidade do solo, o que faz com que os efeitos não sejam tão severos”, salienta.

Persistência — Na fazenda em Alto Paraíso, também no noroeste do Paraná, o produtor Mário Aluízio Zafanelli acredita que é preciso deixar o imediatismo de lado e focar na persistência para promover mudanças no sistema produtivo. Há seis anos ele resolveu cultivar soja em rotação com a pecuária, mas os resultados não foram positivos. “Acho que as variedades não eram tão boas quanto as que existem hoje, e eu também não fiz plantio direto na área”, observa.

Nesta safra ele resolveu tentar de novo e plantou soja em cerca de 55 hectares. No total, a fazenda tem quase mil hectares onde Zafanelli trabalha com cria, recria e engorda do gado. A estiagem afetou a produtividade da oleaginosa este ano, mas, mesmo assim, a rentabilidade não foi negativa. “Sei que posso melhorar muito meu sistema, realizando o plantio mais cedo e com variedades mais produtivas”, projeta.

Produtor Gerson Bortoli: rentabilidade passou de R$ 800 por hectare com a pecuária para até R$ 2,5 mil por hectare com a integração

Nas próximas safras, ele pretende ampliar o cultivo da soja e conseguir manter uma lotação de quatro animais por hectare na fazenda. Uma das dificuldades ainda é a terceirização da colheita, serviço que tem um alto custo para o produtor. Boa parte da estrutura para a lavoura ele já tinha, em função do cultivo do milho para o consumo animal. “Outra coisa que precisamos entender é que a soja e o milho são bem diferentes. O cereal é bem mais simples de ser cultivado em comparação com a oleaginosa. Por isso, é preciso buscar mais informações para obtermos uma melhoria na produtividade”, constata Zafanelli.

Equilíbrio — Há cerca de 15 anos, quando o rendimento da pecuária não pagava sequer os custos, o produtor Alysson Paolinelli tentou reformar a pastagem. Durante três anos o investimento funcionou, mas, logo depois, a situação voltou a ficar ruim. “Conheci o trabalho da Embrapa com o sistema Barreirão, resolvi experimentar e nunca mais deixei de fazer integração”, conta o ex-ministro da Agricultura e colunista d’A Granja.

Na sua propriedade em Baldim/MG, além da criação de gado, Paolinelli cultiva milho, sorgo e soja. Segundo ele, esse foi o ano mais seco já registrado na sua região, com 60 dias de estiagem no auge do verão. “Perdi 50% do milho e brinco que não colhi soja, mas sim gergelim, de tão pequenos que estão os grãos. No entanto, vou conseguir usar a produção para fazer a ração que será usada no confinamento. Isso mostra como a integração pode ser importante. Mesmo num ano negativo, é possível manter um equilíbrio entre as atividades”, argumenta. Na opinião do produtor, a integração representa claramente uma nova revolução para a agricultura brasileira. “Recentemente, recebi a visita de dois produtores americanos, e eles, que já se espantam com a nossa segunda safra, ficam ainda mais surpresos aos conhecerem a integração. É uma vantagem que só um país tropical pode conseguir”, frisa.

Produtor Alysson Paolinelli: mesmo num ano negativo, a integração ajuda a manter o equilíbrio na propriedade

Diluição de custos — Em Juara/MT, o produtor Ben Hur Cabrera Mano viu os índices de lotação da pastagem sendo multiplicados por quatro em áreas recémrecuperadas pela integração com a lavoura. Há 11 anos trabalhando com a prática, ele implantou a integração em 7 mil hectares do total de 9 mil hectares de área produtiva da Fazenda Janba. No início, foi preciso inclusive investir na estrutura de escoamento dos grãos, já que a distância até a rodovia era de 400 quilômetros em estrada de terra. “O agricultor que ainda não investiu na integração está deixando de ganhar dinheiro. Nossa receita de segunda safra com carne é maior do que uma segunda safra com milho ou girassol”, afirma.

Produtor Ben Hur Cabrera Mano: receita de segunda safra com carne é maior do que uma segunda safra com milho ou girassol

No período de verão, o produtor cultiva arroz e soja. No final de janeiro, depois da colheita, o pasto é implantado, e o gado permanece por um período de seis a sete meses na área. O arroz de terras altas tem produtividade entre 3.600 e 4.200 quilos por hectare em variedades não híbridas e entre 6 mil e 7 mil quilos por hectare em variedades híbridas. No primeiro ano de cultivo da soja, a produtividade é de 45 sacas por hectare e, depois, passa para 60 sacas por hectare.

Uma área de 100 hectares da propriedade também recebeu diferentes espécies florestais para experimentos com iLPF. As árvores mais antigas estão com três anos, e Cabrera acredita que só terá uma conclusão mais precisa do sistema no décimo ano de cultivo. A fazenda abriga uma das Unidades de Referência Tecnológica (URTEs) acompanhadas pela Embrapa em Mato Grosso. Em parceria com o Sistema Famato (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso), as URTEs funcionam como sede para dias de campo voltados a técnicos e produtores do estado.

Cabrera financia seu sistema com crédito oficial do Programa ABC. Segundo ele, o lançamento do plano ajudou a implantar com maior rapidez a integração, que incrementou a rentabilidade da propriedade em pelo menos 50%. “O sistema ajuda a diluir os custos e nos deixa menos expostos às crises normais que acometem a agricultura, além de permitir maior estabilidade e planejamento à atividade”, elogia.

Modelo — Pelo seu histórico de recuperação, a Fazenda Santa Brígida, em Ipameri/GO, se tornou referência e campo fértil para especialistas entusiasmados com a iLPF. Um deles é o pesquisador da Embrapa Cerrados João Kluthcouski, ou João K, como todos o chamam. “A Santa Brígida se tornou um berçário, uma geradora de novas tecnologias. Apenas em integração, são 12 diferentes opções de sistema”, destaca. Em 2006, quando o processo de transformação foi iniciado, a fazenda de 922 hectares tinha 500 bois magros sobre um pasto em situação precária. Agora, são 1,7 mil cabeças bem alimentadas em uma pastagem que funciona integrada com a lavoura. O ganho de peso médio é de 1,2 quilo por animal ao dia apenas no pasto. “E ainda fazemos o boi barato, com custo de R$ 37,50 a arroba, enquanto na pecuária tradicional da região, o custo é de R$ 80 a arroba”, pontua.

Os experimentos com eucalipto ocupam uma área de 82 hectares, e as avaliações são bastante positivas nas áreas plantadas com espaçamentos maiores no sentido leste-oeste. Nas últimas duas safras, mesmo com a ocorrência de veranicos agressivos, a produtividade média da soja foi de 63 sacas por hectare. Na lavoura de milho, o rendimento, que em 2006 era de 80 sacas por hectare, hoje chega a 180 sacas. “Queremos ir mais longe e alcançar 100 sacas por hectare na soja na próxima safra”, prossegue João K. Para ele, a integração representa a maior revolução verde de todos os tempos e terá o mesmo impacto do plantio direto para a agricultura. “Defendo que a tecnologia passe a fazer parte da grade curricular obrigatória nos cursos de graduação para que o tema seja difundido e alcance cada vez mais espaço”, enfatiza.

Marize Costa, proprietária da Fazenda Santa Brígida: 500 bois magros deram lugar a 1,7 mil cabeças em pasto integrado com lavoura

A proprietária da Santa Brígida, Marize Porto Costa, é dentista e professora na sua área de formação. Até 2002, ano em que ficou viúva, ela não sabia praticamente nada sobre a atividade rural. Hoje, ela confessa que está cada vez mais envolvida com o campo e diz que os investimentos não devem parar tão cedo. “Para a próxima safra já arrendamos uma área de 1,2 mil hectares em uma propriedade vizinha para aumentarmos nossa produção”, revela. Além de modelo para pesquisadores, a fazenda em Ipameri é sede de eventos técnicos, como dias de campo. “Acho muito importante que as novas gerações conheçam o sistema de integração e vejam como é possível quebrar paradigmas. Ainda é comum os pecuaristas enxergarem a agricultura como um bicho de sete cabeças e vice-versa”, considera Marize.

Planejamento financeiro — Se na etapa técnica a integração gera dúvidas e motiva pesquisas, no aspecto econômico essa necessidade é ainda mais latente. É difícil descrever detalhadamente custos e resultados quando as propriedades e os sistemas são tão diferentes entre si. Para gerar informações que auxiliem os produtores na tomada de decisão, pesquisadores da Embrapa Gado de Corte desenvolveram uma análise econômica a partir de experimentos conduzidos na unidade em Campo Grande/MS.

O trabalho avaliou três sistemas de produção, sendo que um envolveu apenas a iLP (soja+braquiária) e dois incluíram o componente florestal. Na iLPF1, o eucalipto foi implantado com espaçamento de 22 metros entre linhas e dois metros entre plantas, totalizando 227 árvores por hectare. Na iLPF2, o espaçamento entre linhas foi reduzido para 14 metros, com 357 árvores por hectare. Uma das conclusões – com resultado já esperado – é que a iLPF1 e a iLPF2 têm custos 19% e 27% maiores em relação à iLP. “Nesse aspecto, o sistema iLP é mais vantajoso, pois exige menos capital inicial, além de mostrar resultado líquido positivo já no primeiro ano”, indica a zootecnista Mariana Pereira, pesquisadora da Embrapa Gado de Corte.

Considerando um planejamento de longo prazo, levando em conta a comercialização da madeira depois de 12 anos, é fundamental que o produtor saiba que o seu fluxo de caixa pode ficar negativo em alguns anos em função dos altos custos de manutenção das árvores. Além disso, quando o espaçamento entre linhas foi reduzido, no sistema iLPF2, houve queda na produção de carne a partir do quinto ano. “É importante se perguntar se há condições financeiras para suportar essas instabilidades em determinados momentos”, orienta Mariana.


Para começar, orientação e cautela

Um das características da integração é a versatilidade – pode ser desenvolvida em todos os biomas brasileiros, em cultivo consorciado, em sucessão ou em rotação, e em diferentes combinações: agropastoris (lavoura e pecuária); silviagrícolas (floresta e lavoura); silvipastoris (pecuária e floresta); e agrossilvipastoris (lavoura, pecuária e floresta). A decisão de adotar a integração representa um passo importante em direção a uma mudança grande na vida do produtor. Por isso, é mais do que justificável iniciar o processo com o máximo de informações possíveis sobre a tecnologia. Ler sobre o assunto, buscar ajuda de um especialista e ouvir o depoimento de outros produtores é um bom começo. Os serviços prestados pela Emater, cooperativas e associações de produtores podem ajudar muito nesse momento.

Em seguida, é hora de promover um diagnóstico da propriedade, avaliando o solo, a topografia, o clima, as áreas mais adequadas ao sistema e as modificações e investimentos que serão necessários. “É preciso conhecer as possibilidades da prática, assim como considerar o mercado e o escoamento para os produtos que serão gerados”, recomenda o pesquisador Luiz Carlos Balbino (foto), da Embrapa Cerrados.

Um agricultor que pretende iniciar a criação de gado precisa pensar em estruturas como cerca, curral, brete e aguadas, além de definir qual o perfil de pecuária que adotará. Também é importante que os funcionários consigam manejar os animais. Para o pecuarista, é preciso considerar quais as áreas aptas à mecanização e, claro, projetar a compra de máquinas específicas para a agricultura. No começo, o mais indicado é alugar equipamentos mais caros, como a colheitadeira. Ou então, interagir com outros produtores que podem prestar o serviço de colheita.

Na hora de decidir sobre a cultura agrícola ou sobre a pastagem, é importante prestar atenção ao zoneamento e às variedades mais indicadas para a região. O mesmo vale para a raça do gado ou até a espécie animal que será manejada, já que também existem experiências interessantes de integração com ovinos e caprinos. “Não há uma receita pronta, e o que vale para um produtor pode não ser adequado ao seu vizinho. Tudo vai depender do sistema escolhido e se vai haver um grau de complexidade maior ou menor. Costumo fazer uma comparação: fazer arroz ou feijão ou fritar um ovo são coisas simples, mas fazer tudo ao mesmo tempo pode ficar complicado. Por isso, é preciso saber se existe habilidade”, ilustra Balbino.

Uma dica que vale para todos os perfis de propriedades é iniciar a iLP com cautela, numa pequena área. Ao analisar financeiramente os formadores do sistema, é importante lembrar que a lavoura apresentará o retorno mais rápido, em torno de seis a oito meses. Para o gado, o cálculo é entre 1 ano e 1 ano e meio, enquanto o componente florestal começará a trazer retorno a partir do quarto ou quinto ano.

A opção pelo cultivo de árvores, que tem investimento maior e retorno de longo prazo, deve receber uma análise ainda mais crítica para evitar a interferência negativa sobre as demais atividades. Uma das considerações, por exemplo, é dar preferência ao plantio das linhas no sentido leste-oeste, para que a luminosidade não seja prejudicada. Se a direção for norte-sul, o ideal é que o número de árvores seja menor, com espaçamentos maiores entre as linhas. Também é importante planejar a desrama e o desbaste das árvores. “Em um sistema florestal intensivo, é normal termos mais de 1 mil árvores de eucalipto por hectare, mas numa área agrossilvipastoril, podemos pensar em cerca de 350 árvores por hectare. No entanto, todos esses detalhes serão definidos de acordo com o objetivo do produtor, ou seja, se ele quer dar prioridade à madeira, ao pasto ou à lavoura”, observa o pesquisador.

Um manejo correto do componente florestal pode significar aumento de rendimento para a atividade pecuária. Balbino cita estudos da Embrapa Gado de Leite que mostram um ganho em torno de 20% na produção quando os animais têm a opção do sombreamento. “Na criação de gado de corte é parecido. Os animais procuram o conforto térmico proporcionado pela sombra depois do pastejo, e há pesquisas que indicam incrementos nos índices reprodutivos e no ganho de peso. Também existe a percepção de que essa interferência é mais importante em raças europeias, que sentem mais o calor. Outro estudo ainda aponta para danos menores no pasto em caso de geada”, enumera o especialista. Segundo Balbino, a busca de novas e reveladoras informações é incessante entre os pesquisadores. “Entre as nossas avaliações estão análises sobre materiais de soja e forrageiras mais adaptadas ao sombreamento”, complementa.