Plantio Direto

 

REDE SOLOVIVO

é a qualificação da gestão do plantio direto

Luís Carlos Hernani, pesquisador da Embrapa Solos

Nas áreas onde o SPD tem sido adotado de acordo com os princípios preconizados é verificada uma série de melhorias, de fertilidade do solo à eliminação quase total da erosão

O ambiente natural da Terra é composto por litosfera, hidrosfera, atmosfera e biosfera, correspondentes, respectivamente, a rochas, água, ar e seres vivos. A interação desses componentes torna ativa parte importante da litosfera, a pedosfera, correspondente aos solos, que, ao lado dos corpos hídricos, contêm e mantêm os processos vitais neste planeta. A agricultura é uma das atividades econômicas cujas ações influenciam e são fortemente afetadas por esses componentes naturais. Consequentemente, a forma de se manejar a terra com vistas a gerar dividendos econômicos tem importância fundamental para a conservação ambiental e melhoria da qualidade de vida.

Em uma floresta, muitos processos e fenômenos vitais complexos estão ocorrendo. Muitos deles trazem ensinamentos fundamentais para o manejo adequado do ambiente na atividade agrícola. Verificam-se, por exemplo, presença de máxima biodiversidade, máxima atividade fotossintética, generosa serapilheira e efetivos sistemas radiculares, explorando diferentes volumes de solo. Nessa condição, a natureza busca a manutenção do máximo de espécies, mediante a contínua captação e produção e ou transformação de energia pela parte aérea, a necessária sustentação e obtenção de nutrientes e água, excreção de substâncias e troca de gases pelas raízes ativas e plena proteção e reciclagem de nutrientes pela serapilheira. Embora na grande maioria das lavouras predominem espécies anuais, esses processos naturais que ocorrem nesse ambiente com florestas devem ser considerados de forma criteriosa quando se quer desenvolver um adequado sistema de manejo conservacionista e sustentável das terras.

O sistema plantio direto (SPD), desenvolvido no Brasil por produtores e pesquisadores, é considerado a forma de manejo das terras mais evoluída e conservacionista que se conhece. A condução adequada de um sistema de produção agrícola em SPD deve considerar criteriosamente os processos descritos para a floresta, deve buscar, ao longo de todo o tempo e não apenas em uma época do ano, o cultivo de espécies diversificadas, visando ao máximo de fotossíntese e de raízes diversificadas. Se conduzido conforme se preconiza, o SPD proporciona satisfatória economicidade e melhorias no âmbito social e ambiental, pois, simultaneamente, conserva e melhora o solo, a biodiversidade do entorno natural e a disponibilidade e qualidade de água. Pode-se dizer que nenhuma outra forma de manejo agrícola pode suplantá-lo.

Danosas simplificações — Mas nem tudo está perfeito. Ao longo dos últimos 35 anos de adoção e desenvolvimento dessa forma de manejo, alguns problemas têm sido observados. Certos agricultores passaram a adotar ações para simplificar o sistema de manejo. Eles têm observado principalmente o lado econômico de sua atividade no curto prazo. Então, ocorreu uma série de simplificações, muito questionadas: a eliminação pura e simples de terraços; o plantio em linha reta e, muitas vezes, morro abaixo; o cultivo continuado de monoculturas sobre cobertura formada por espécies espontâneas; a ausência de consorciação de culturas e de arranjos adequados de rotação e de integração de espécies; a ausência de diversificação de insumos e o uso contínuo de elementos sulcadores da semeadora. Essas e outras ações, adotadas por dez ou mais anos, geraram problemas.

Na verdade, a área de SPD com rotação e consorciação de culturas e arranjos integrados de produção agrícola não chega a 2 milhões de hectares no Brasil

A área de SPD com rotação e consorciação de culturas e arranjos integrados de produção agrícola não chega a 2 milhões de hectares no Brasil. No entanto, se considerar o manejo em "plantio direto" em todas as suas formas de uso, ou seja, com ausência de preparo de solo, em uma ou outra cultura ou, mesmo, por dez ou 15 anos seguidos, no cultivo de sequências vegetais simples ou, especialmente, no cultivo de soja sobre cobertura morta de plantas espontâneas, a área com este plantio direto pode então chegar a 22 milhões de hectares. Nessa forma inadequada de manejo percebe-se biodiversidade severamente limitada, pouca cobertura morta, extensos períodos sem cultivo ou com cobertura casual e aleatória de espécies espontâneas.

Nas áreas onde o SPD tem sido adotado de acordo com os princípios preconizados, percebe-se a melhoria da fertilidade do solo, a eliminação quase total da erosão, a melhoria do uso e da produção de água boa, boas produtividades das culturas e estabilidade econômica da propriedade. Por outro lado, nas áreas onde este sistema é utilizado de forma inadequada ocorrem problemas como o aumento dos custos de produção, devido à ocorrência de pragas, doenças e espécies tolerantes a herbicidas, compactação do solo e erosão, além de instabilidade e, até, queda na produtividade.

Tais problemas vêm sendo apontados em áreas com larga experiência de cultivo em plantio direto no Brasil. Essa situação tem preocupado os técnicos e os produtores, devido ao aumento de custos e à queda de rendimento das lavouras. A Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha e Irrigação, representante maior dos produtores de plantio direto, vem buscando o apoio de outras instituições, no sentido de solucionar as dificuldades. Os impactos negativos proporcionados pelo manejo inadequado em áreas com plantio direto, incrementados pela volta do uso de implementos agrícolas para o preparo do solo, vão além dos econômicos, afetando a qualidade ambiental, com prejuízos para a biodiversidade e a quantidade e qualidade da água. Com isso, instituições como a Itaipu Binacional também estão imbuídas na busca de formas para minimizar esses problemas.

Como funciona a Rede — A Embrapa uniu-se à Itaipu Binacional para organizar uma rede de pesquisa, a Solo- Vivo. Esta rede está embasada em um projeto que visa, mediante um processo participativo agricultor-pesquisador, desenvolver e validar ferramentas que permitam qualificar a gestão de terras em propriedades agrícolas e em bacias hidrográficas, além de indicar arranjos produtivos que possibilitam a utilização plena do SPD e a obtenção de seus efeitos na sustentabilidade agrícola, na diminuição da emissão de gases de efeito estufa, no sequestro de carbono pelo sistema solo-planta e na melhoria da quantidade e qualidade de água.

O projeto foi formalizado com a participação de 21 instituições e 57 pesquisadores. A partir de agora será iniciada uma nova fase da articulação para que outras instituições venham a se engajar, permitindo a formação de uma massa crítica. O trabalho se desenvolverá em seis regiões: Passo Fundo/RS, Londrina/ PR, Marechal Cândido Rondon/PR, Paranapanema/SP, Maracaju/MS e Rio Verde/GO. Em cada região, duas microbacias serão selecionadas para receber o monitoramento de solo, água e sistemas de produção, por quatro anos.

A escolha das regiões deveu-se às condições básicas para a realização das atividades previstas no projeto: existência de equipe local integrada, multidisciplinar e com experiência no tema para facilitar a execução e reduzir custos; e disponibilidade de dados de experimentos de longo prazo envolvendo sistemas de produção agrícolas, base para seleção de indicadores, valores de referência e fatores de ponderação e composição de índices de qualidade de uso das terras. Nas áreas selecionadas há agricultores com história, pioneirismo e experiência no manejo com plantio direto, fator preponderante no processo participativo que se quer imprimir no projeto.

Entre as etapas a serem conduzidas estão as seguintes: a definição e o detalhamento dos indicadores e métodos adequados ao desenvolvimento do trabalho, de forma homogênea em todas as regiões; a seleção das microbacias a serem monitoradas em cada região; a seleção de propriedades para o monitoramento de indicadores de solo; a implantação de estações hidrosedimentológicas para monitoramento de indicadores ligados à água; o monitoramento dos sistemas produtivos e aplicação, desenvolvimento e validação de índices. Haverá a proposição conjunta das ferramentas que deve culminar com a formação crítica que permitirá não apenas a qualificação do manejo do sistema solo-planta-atmosfera nas regiões de estudo, mas, sobretudo, permitirá a proposição de posicionamento que a sociedade deve assumir diante do agricultor que produz melhores serviços ambientais fundamentais.

Algumas das questões a serem verificadas neste trabalho são as seguintes: a agricultura conservacionista baseada em SPD pode efetivamente melhorar a qualidade do solo e da água e a biodiversidade em termos gerais, incrementando o sequestro de carbono no sistema solo/ planta, gerando as bases para a Agricultura de Baixo Carbono? Os benefícios econômicos, sociais e ambientais da agricultura baseada em SPD podem ser maximizados pela utilização de arranjos de produção envolvendo culturas com elevado potencial de aporte de fitomassa e que, ao mesmo tempo, propiciem retorno econômico ao produtor, em curto prazo, por meio da produção de alimentos, fibras e bioenergia? Se o próprio agricultor adquirir a percepção correta dos princípios fundamentais da agricultura conservacionista e do SPD, então os resultados socioeconômicos ambientais advindos da gestão dos sistemas de produção agrícola, sob essa forma de manejo, poderão ser altamente benéficos.

Neste projeto, que tem previsão para iniciar em abril, deverão ser desenvolvidas, de forma conjunta, ferramentas que permitam a qualificação da gestão de terras e a melhoria e a utilização plena do SPD. Os principais interessados serão induzidos a formalizarem instrumentos e propostas de políticas governamentais para incrementar a adoção do SPD e para promover o reconhecimento daqueles que, enquanto cuidam de produzir economicamente e com elevado desempenho ambiental, ainda fornecem muitos outros serviços extremamente importantes à manutenção da qualidade de vida.