Helicoverpa

 

Até uma CARAVANA na cruzada contra helicoverpa

A Caravana Embrapa de Alerta às Ameaças Fitossanitárias tem levado especialistas às regiões agrícolas com a proposta de orientar produtores sobre as múltiplas estratégias de um eficiente manejo integrado de pragas. O alvo principal é ela, a temível Helicoverpa armigera

Sérgio Abud, biólogo, e Breno Lobato, jornalista, da Embrapa Cerrados e integrantes da equipe de coordenação da Caravana Embrapa

No momento em que era finalizado este artigo, a Caravana Embrapa de Alerta às Ameaças Fitossanitárias – ou simplesmente Caravana Embrapa – partia para Santa Catarina, o oitavo estado a ser visitado desde dezembro, quando os 27 pesquisadores envolvidos começaram a viajar para os principais polos agrícolas brasileiros. Divididos em equipes, todos seguem com o mesmo objetivo: levar conhecimentos aos multiplicadores regionais sobre as ameaças fitossanitárias e o restabelecimento do equilíbrio do agroecossistema, tendo como ferramenta chave o Manejo Integrado de Pragas (MIP). É sabido que as características climáticas brasileiras possibilitam várias safras durante o ano. Justamente a oferta climática e a contínua disponibilidade de alimentos tornam o ambiente favorável para a entrada de pragas exóticas invasoras. Um exemplo recente foi a identificação, pela Embrapa, da Helicoverpa armigera, espécie que vem causando grandes prejuízos às lavouras brasileiras.

O problema foi inicialmente detectado nas lavouras do Oeste Baiano, região que vem se destacando há vários anos pelas elevadas produtividades de soja, milho e algodão. No final da safra 2011/ 2012, os produtores perceberam que uma lagarta vinha causando prejuízos significativos, sendo dificilmente controlada pelos métodos até então consagrados para o manejo de outras pragas já conhecidas. No início da safra seguinte, os produtores acusaram uma grande população da lagarta nas lavouras de milho e soja. As pesquisas da Embrapa na região já apontavam, naquele momento, que a população de lagartas estava crescente e oferecia dificuldade no manejo. Preocupados, os produtores pediram ajuda, e vários especialistas da Empresa foram mobilizados. No dia 22 de março de 2013, a Embrapa notificou o Ministério da Agricultura dando conta de que a Helicoverpa armigera, praga até então não identificada em nosso território, estava presente no Brasil.

Informações e estratégias — Identificado o problema, a Embrapa reuniu pesquisadores de diversas áreas para redigir um documento recomendando um manejo fitossanitário emergencial, com foco na Helicoverpa armigera. Como se tratava de uma praga nova no País, não havia informações sobre o comportamento da espécie nem sobre seu correto manejo, considerando a paisagem agrícola dos diversos polos de produção e as condições ambientais brasileiras. Os especialistas da Embrapa reuniram as informações sobre Helicoverpa armigera disponíveis na literatura internacional e, associando conhecimentos sobre o MIP, sistematizaram um conjunto de informações tecnológicas. O propósito das informações era orientar os agricultores quanto ao manejo e à contenção de uma praga que ataca mais de 180 culturas agrícolas – como algodão, soja, milho, tomate, pastagens, citros, milheto e até mesmo plantas daninhas – e que já havia causado problemas em outros continentes.

Desde dezembro, a Caravana Embrapa esteve em oito estados, onde foram realizadas palestras de orientação baseadas no Manejo Integrado de Pragas (MIP)

E a melhor forma para disseminar as informações geradas seria percorrer o País e ir ao encontro dos profissionais de assistência técnica e extensão rural, consultores e representantes de associações e cooperativas. Esses atores têm alta capacidade de multiplicar a informação, viabilizando o alcance de um maior número de produtores Todo esse processo se materializou, então, na criação da Caravana Embrapa, no final do ano passado.

Como funciona — A proposta da Caravana é fazer um alerta in loco nas principais regiões produtoras do Brasil, mobilizando equipes de pesquisadores para a realização de palestras sobre a identidade das ameaças fitossanitárias, os riscos associados e as estratégias fundamentais para a implantação de um manejo integrado de pragas. A adoção do MIP é apontada por especialistas como a melhor estratégia para manejar e conter a explosão populacional não apenas da Helicoverpa armigera, mas de todas as outras pragas do agroecossistema.

O conjunto de informações tecnológicas sobre o MIP foi organizado em uma Desde dezembro, a Caravana Embrapa esteve em oito estados, onde foram realizadas palestras de orientação baseadas no Manejo Integrado de Pragas (MIP) Robinson Cipriano palestra composta por cinco módulos: apresentação dos principais riscos de ameaças fitossanitárias no Brasil e a bioecologia da Helicoverpa armigera; MIP – conceito e abordagem territorial, com foco nas pragas e paisagens agrícolas dos diversos polos de produção nacional; tecnologia de aplicação de produtos biológicos e químicos; manejo de resistência às proteínas Bt e controle químico; e controle biológico, incluindo entomopatógenos (bactérias, vírus e fungos), parasitoides (Trichogramma) e a preservação dos insetos inimigos naturais das pragas.

Em seguida, um representante local relata a ocorrência de pragas na região e, em seguida, é feito um debate com a participação de todos os presentes. Assim, as informações são niveladas e, quando possível, há o encaminhamento de ações conjuntas para a elaboração de um plano fitossanitário regional com a participação e a responsabilidade de todos. Durante as Caravanas, os especialistas não apenas apresentam as informações sobre o MIP como também conseguem prospectar informações que retroalimentam o sistema de pesquisa, em busca de respostas que até então não dispomos sobre a Helicoverpa armigera e outras pragas.

Conhecimento a caminho — As equipes percorrerão os polos agrícolas até o final março deste ano. Além de pesquisadores, a Caravana conta com a participação de associações e representantes locais, extensionistas, professores, consultores, grupos técnicos de programas fitossanitários, agências de defesa e secretarias de agricultura. A ação conta com o apoio da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) e da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). São parcerias que não só dão maior capilaridade à circulação das informações como também provêm o apoio financeiro para que as equipes possam, de fato, pôr o pé na estrada.

Até o momento, a Caravana Embrapa vem recebendo um grande apoio da imprensa, que contribui para a divulgação dos trabalhos e leva as informações a todo o País, alcançando principalmente as pessoas que não puderam participar do evento em sua região. No Rio Grande do Sul e no Piauí, em especial, os programas de rádio foram grandes parceiros, levando as informações aos rincões onde ainda não é possível sintonizar a TV.

Oportunidades e percepções — Ao se fazer uma análise inicial, pode-se dizer que a Caravana tem proporcionado uma excelente oportunidade para que a Embrapa e a pesquisa agropecuária como um todo estreitem os laços com o sistema produtivo ao prospectar possibilidades de interações para a pesquisa científica. Além disso, a ação tem nos permitido acelerar o processo de transferência de conhecimentos e tecnologias, principalmente em temas emergenciais como as ameaças fitossanitárias. Já estão sendo estudadas estratégias para a apresentação de outros temas importantes que serão alvo de futuras ações, tendo os agentes de assistência técnica e extensão rural como os principais parceiros.

Com a realização das primeiras viagens em dezembro e janeiro, já percebemos uma mudança na adoção de tecnologias para o manejo de pragas. O uso de armadilhas luminosas e com feromônios tem sido uma ferramenta para o monitoramento e a identificação de lepidópteros nas lavouras. Ao identificar as espécies e a densidade populacional, o produtor tem as informações necessárias para tomar a decisão correta sobre que tática deverá utilizar para o manejo das pragas. As ações de manejo cultural, com a destruição da oferta de alimentos no manejo pós-colheita, também têm sido utilizadas. E, onde antes se notava o uso excessivo de inseticidas químicos com aplicações calendarizadas e com baixa qualidade na tecnologia de aplicação, agora se observa a discussão sobre planejamento e uso dos agroquímicos mais seletivos, com rotação de princípios ativos e modo de ação. Também é notável o aumento da demanda por agentes de controle biológico, como vírus, bactérias e as vespinhas Trichogramma.

Mensagem final — Em todas as viagens, as equipes deixam uma mensagem ao público: o produtor precisa ter em mente que o MIP deve ser feito com foco no complexo de pragas presente na região e também na paisagem agrícola, ou seja, ele deve pensar de modo territorial. Isso porque as pragas não respeitam cercas nem fronteiras, e o manejo deve ser adotado de forma sistêmica. Assim, os insetos benéficos e os agentes de controle biológico existentes na natureza podem voltar a ser fortes aliados na defesa das lavouras contra a entrada de pragas exóticas invasoras como a Helicoverpa armigera.

O uso correto do MIP restabelece o equilíbrio agroecológico da paisagem agrícola e reduz os riscos de entrada de novas pragas exóticas invasoras. Nesse sentido, é importante o trabalho cooperativo de todos os atores do agronegócio: instituições de pesquisa, universidades, empresas de produtos químicos e biológicos, agentes dos departamentos de defesa do Governo, instituições de capacitação, imprensa, representantes de classes, políticos, extensionistas, consultores, cooperativas, associações, produtores e todos os envolvidos na cadeia produtiva. Somente a união das competências garantirá a segurança alimentar do País com sustentabilidade e equilíbrio social e ambiental.