Show Rural Coopavel

 

Tecnologia e negócios em EFERVESCÊNCIA

O 26º Show Rural Coopavel, em Cascavel/PR, movimentou o recorde de R$ 1,8 bilhão em comercialização de produtos e serviços, consequência de um momento excelente para a agropecuária do norte paranaense. E ainda expôs o melhor e mais avançado em informações técnicas ao produtor

Leandro Mariani Mittmann - [email protected]

O megaevento inaugural do ano da agricultura brasileira deixou claro que 2014 promete ser próspero. A 26ª edição do Show Rural Coopavel, primeira das grandes feiras do ano, promovida pela Coopavel Coope- Tecnologia e negócios em EFERVESCÊNCIA rativa Agroindustrial, em Cascavel/PR, bateu recorde em público e movimentação de negócios. Foram 210 mil pessoas (202 mil em 2013) e R$ 1,8 bilhão (então R$ 1,6 bilhão). Mais do que os grandiosos números, a feira realizada em fevereiro reuniu as principais empresas de máquinas, insumos e serviços agropecuários, que aproveitaram para mostrar seus melhores produtos, sobretudo lançamentos, e as empresas públicas de pesquisa e difusão de técnicas e tecnologias. Foram 440 expositores, 5.050 parcelas de experimentos e 250 apresentações técnicas.

Dilvo Grolli: o crescimento constante em produtividade no campo ocorre de acordo com as pesquisas e tecnologias apresentadas no Show Rural

A feira refletiu o momento pelo qual passa a agricultura de Cascavel e região. "Está muito bem. Bons preços e boas safras nos últimos anos", sintetiza Dilvo Grolli, diretor presidente da Coopavel. Ele acrescenta que há "equilíbrio" entre os segmentos de grãos e carnes desde o ano passado. "O produtor está capitalizado", ressalta. "Nos últimos anos o produtor se capitalizou". Além dos bons preços internacionais das commodities, outra razão para o associado da Coopavel estar de bem com os números é a sua eficiência na lavoura. Sua produtividade média por hectare é de 4.500 quilos de soja e a de milho de 10 mil/12 mil, ante as médias nacionais de 3.050 e 5.300, respectivamente. Grolli revela que na feira estavam expostas experiências com 6 mil quilos de soja e há produtores colhendo 18 mil quilos de milho. "Há um crescimento constante em produtividade no campo de acordo com as pesquisas e tecnologias apresentadas aqui no Show Rural", atestou o dirigente.

Um evento de exposição a público e de mídia como o Show Rural é uma oportunidade preciosa para empresas, privadas ou públicas, exporem os recentes resultados de seus trabalhos de pesquisa. A Embrapa costuma mobilizar dezenas de profissionais e no amplo estande atende os interessados em buscar orientações sobre os mais variados temas. Nesta edição, em tempos de pavor e desc o n h e c i m e n t o quanto a lagarta Helicoverpa armigera, uma equipe esteve de prontidão para esclarecer tudo sobre o Manejo Integrado de Pragas (MIP) para a espécie e as demais. O pesquisador da Embrapa Soja Arnold Barbosa de Oliveira ofereceu ao visitante uma série de orientações. Ele explica, por exemplo, que deve ser feita uma dessecação prévia (entre 15 e 30 dias antes) da lavoura de soja, para assim diminuir o volume de alimento para a lagarta. "A praga é muito polífaga, come de tudo, tem cardápio amplo. Tem que criar uma barreira de escassez de alimento", esclarece.

Orientação de Barbosa, da Embrapa: a helicoverpa é uma praga muito polífaga e, por isso, é importante criar uma barreira de escassez de alimento

Uma atitude fundamental é permanentemente efetuar o monitoramento. "Só aplicar quando a população atingir o nível de controle", adverte. E qual seria? Quatro lagartas por metro linear antes da floração e duas presenças depois da floração. Acrescenta, na hora do controle, a aplicação de produtos mais seletivos aos inimigos naturais, sobretudo os biológicos (com micro-organismos e toxinas que atacam a lagarta) e fisiológicos (que alteraram sua fisiologia). Ou o princípio químico diamida, que é mais seletivo. Além disso, fazer a rotação de inseticidas para assim evitar que a lagarta se torne resistente ao mesmo princípio químico. "As aplicações são muitas vezes necessárias, mas não podem ser feitas sem critério, pois têm efeitos colaterais, que principalmente seriam a resistência e a eliminação ou diminuição dos inimigos naturais", resume.

A Embrapa Soja também aproveitou a feira para anunciar o lançamento da "cultivar mais precoce que a Embrapa oferece", definição do pesquisador da unidade Osmar Conte, referindo-se à BRS 359RR. A variedade é bastante precoce, perfeita para quem planta milho safrinha após a safra de soja, e é adaptada às regiões oeste do Paraná (com ciclo de 120 dias) e sul do Mato Grosso do Sul (110 dias). Conte revela que o plantio é indicado a partir do início de outubro, mas até pode ser já a partir de 20 de setembro. A BRS 359RR tem resistência as principais doenças da oleaginosa e aos nematoides Rotylenchulus reniformis e Meloidogyne incognita. "Ela tem uma arrancada boa", referindo- se à sanidade, precocidade e bom sistema radicular. "O peso da semente é alto. E até 10% das vagens têm quatro grãos. Um diferencial que o produtor gosta". A semente está atualmente em produção e chega ao mercado na safra 2014/15.

Conte, da Embrapa: a nova variedade de soja BRS 359RR é bastante precoce e por isso apropriada para as áreas que receberão milho safrinha

Assistência técnica — Além de tornar públicas as pesquisas, o Show Rural presta um relevante serviço de assistência técnica e extensão rural. A Emater participou do evento sob o tema "Alimento Seguro com Produtividade e Renda", pelo qual os técnicos receberam milhares de pequenos agricultores e os orientaram quanto à geração de alimentos com sustentabilidade, em outras palavras, produzir mais, resultando mais renda à propriedade, mas sempre com olhos na melhoria da qualidade de vida da família. Com este enfoque foi apresentada uma série de tecnologias em segmentos diversos, como piscicultura, apicultura, produção de madeira e cultivo de plantas medicinais. Os técnicos descreveram as possibilidades destas alternativas, que são adequadas a pequenas áreas e não comprometem o desenvolvimento das atividades já existentes, e ainda ocupando a mão de obra disponível. Depois, os interessados em implementá-las podem buscar mais informações e apoio com os técnicos da Emater de sua região.

O Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) igualmente prestou assistência técnica aos visitantes. As conclusões de suas muitas pesquisas foram compartilhadas com os interessados. O pequeno produtor Paulo Rohr, que em 100 hectares produz grãos em rotação com mucuna, guandu e braquiária, além de cultivar cerca de 20 mil mudas de orquídeas por ano, fez uma verdadeira sabatina frente ao pesquisador Rafael Fuentes sobre os usos, vantagens e limitações da Crotalaria spectabilis, espécie que ganhou uma parcela no estande da instituição. "Qual o tamanho da semente? Funciona como a braquiária? É o mesmo rotor (da plantadeira)?", questionava ele a Fuentes, que pacientemente respondia a tudo. "É o que a gente está recomendando para nematoide", acrescentou o pesquisador. Rohr é um conhecido agricultor dos especialistas do Iapar por sempre buscar aprimorar suas atividades, inclusive sediando projetos de experiência da instituição.

Produtor Rohr e pesquisador do Iapar Fuentes: instituição de pesquisa leva aos visitantes uma "mensagem técnica bem objetiva"

"Levamos uma mensagem técnica bem objetiva", descreve Fuentes o trabalho do Iapar no Show Rural. Ele teve a missão de explicar a importância da rotação de culturas, uma prática fundamental para a preservação da produtividade da lavoura. "O verão não pode ser uma monocultura de soja", lembra. "O milho não pode ser só utilizado na safrinha", complementa. De acordo com ele, a "sucessão que se repete" entre soja + milho safrinha ou soja + trigo acaba por ter como consequências em lavouras de plantio direto a falta de cobertura de solo ou palhada insuficiente, invasoras resistentes a herbicidas e infestação de nematoides. Fuentes sugere que no inverno deve ser feita a rotação entre milho e trigo e que no verão, uma vez a cada três ou quatro anos, a área receba uma planta de cobertura. Desta forma, um terço ou um quarto da área estará sempre se reabilitando. "É preciso investir na recuperação de solo e recuperação da matéria orgânica", adverte.

Compras — Mais do que aprender e conhecer sobre técnicas e tecnologias, o Show Rural é uma oportunidade ímpar para adquirir ou ao menos se informar sobre os detalhes da máquina ou equipamento necessitado na propriedade. As centenas de opções estão todas ali, dispostas a poucos metros uma das outras. É só esclarecer tudo, inclusive as condições de pagamento, junto ao vendedor. Dinheiro para financiamento não tem faltado. Oferecidas por tradicionais agências bancárias com amplas agências sediadas no parque, ou mesmo pelos bancos próprios das montadoras.

Os irmãos Delício e Waldir Menezes, produtores de 435 hectares de soja, mesma área dedicada ao milho safrinha, e outros 1.090 de mandioca, em Tapira/ PR, município tradicional no cultivo do tubérculo, visivelmente entusiasmados, acionaram um sino no estande da montadora reservado a quem fazia uma compra. Os Menezes compraram um trator de 154cv por R$ 216 mil, financiados pelo banco da montadora, o 11º trator da propriedade. "Estamos renovando", justificou Delício. "Praticamente todo o ano, renovamos", comentou. "Não podemos nos queixar", respondeu ao ser questionado sobre o momento econômico da agricultura. Eles trabalham junto a mais três irmãos e jamais tinham estado na feira em razão da "falta de tempo".

Já o produtor Joacir Antônio Dolci, de Antônio João/MS, ao decidir ampliar a área dos atuais 800 hectares de soja e 600 de milho, entendeu ser necessário mais uma colheitadeira. Dolci não revelou o valor da compra que vai compor com as outras duas colheitadeiras que utiliza na propriedade trabalhada junto com dois filhos. "A ideia é ampliar a área na próxima safra de verão", explica, algo entre 200 e 300 hectares arrendados. Segundo ele, no início de fevereiro, na sua região, o preço da soja estava a R$ 58, um valor interessante, mas o milho não passava de R$ 20, preço ruim em razão do custo do transporte. "Não remunera nada. O milho está no vermelho. Não está bem devido à logística", justifica.

Visita paraguaia — Uma imagem bastante comum no estacionamento da feira e de hotéis é a de carros com placas do Paraguai. O país vizinho, terceiro maior produtor de soja da América do Sul, fica a apenas 130 quilômetros de Cascavel. Inclusive, uma montadora levou um grupo de 50 produtores do país para visitar o Show Rural e conhecer a linha de produtos da empresa. "Aproximar os clientes e mostrar as tecnologias disponíveis no Paraguai", explica Diego Acunha, diretor da montadora para Paraguai, Uruguai e Bolívia. Entre os visitantes, um grupo de 18 produtores que pertence a uma colônia chamada Curuguaty, no município de Nueva Durango, onde plantam milho e soja e criam gado de corte e de leite. A comunidade é composta por 365 famílias, sendo que as primeiras vieram do México, 35 anos atrás.