Reportagem de Capa

 

Lavoura de muitas POSSIBILIDADES

A safra de arroz 2013/14 do Rio Grande do Sul está embalada por um clima de otimismo. Os produtores trabalham com a expectativa de que os preços se mantenham elevados ao longo do ano e contam com a rentabilidade proporcionada pelo cultivo alternativo da soja adaptada às áreas de várzea. Também, pela primeira vez, as exportações superaram significativamente as importações por influência do mercado e não devido a ajuda de mecanismos do Governo, como vinha ocorrendo anteriormente. Parece que finalmente, depois da crise que derrubou as cotações do grão em 2011, o setor volta a encontrar o seu ponto de equilíbrio

Gilson R. da Rosa

Os produtores de arroz do Rio Grande do Sul esperam colher em 2014 uma das maiores safras dos últimos anos. O Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) estima que a colheita fique em 8,5 milhões de toneladas, volume que corresponde a 68% da oferta nacional do grão. A produção, pouco maior do que no ciclo 2012/2013, se deve ao leve aumento de área cultivada por disponibilidade de água para a irrigação, especialmente na região Fronteira Oeste. No estado que lidera o ranking dos maiores produtores nacionais do grão, são quase 20 mil produtores do cereal espalhados em 150 municípios, a maioria na Metade Sul. Em todo o Brasil, a produção deverá chegar a 12,5 milhões de toneladas na safra 2013/14, incremento de 5,9% em relação ao que foi produzido no período anterior, conforme o relatório da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) de fevereiro.

Nas lavouras gaúchas, o ritmo acelerado das colheitadeiras em fevereiro vinha embalado por um clima de otimismo que há muito não se via. Pelo terceiro ano consecutivo, depois da grande crise de preços de 2011, o setor vive um grande momento: os preços estão mais altos e estáveis, o saldo das exportações é positivo e a expectativa de renda para os produtores que apostaram da diversificação de culturas e no sistema de rotação com a soja e o milho é a melhor possível. Para o presidente do Irga, Cláudio Pereira, o grande diferencial desta safra é que os preços estão mais altos, na faixa de R$ 34 a R$ 36. "Conseguimos recuperar os preços do arroz e queremos mantê-los elevados neste primeiro semestre. Isso está sendo possível graças a um esforço conjunto entre os governos estadual e federal. Mas também investimos muito em tecnologia. A rotação de culturas, como é o caso do cultivo da soja e do milho em áreas de arroz, que nesta safra já corresponde a 300 hectares, é outro avanço importante", afirma.

Já na avaliação do presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Henrique Dornelles, os preços, apesar de melhores em comparação às safras anteriores, ainda permanecem abaixo da expectativa do setor. "Estamos comemorando a demanda, não os bons preços, que ainda consideramos abaixo das necessidades do setor em função da alta carga tributária dos custos de produção", reconhece. O dirigente, no entanto, acredita que preço não deverá cair dos R$ 34 (Cepea/ Esalq). "O produtor está planejando vender primeiro a soja, fazer Empréstimos do Governo Federal (EGF) e assim escalonar as vendas para que não haja desequilíbrios entre a oferta e a demanda. Certamente o Governo deverá entrar no mercado no segundo semestre com o objetivo de mantê-lo abastecido. A Federarroz está solicitando aos produtores maior planejamento financeiro, compreensão e responsabilidade para manter o mercado abastecido", informa.

O analista Tiago Sarmento Barata, da Agrotendências Consultoria, explica, que apesar da previsão de colheita ser aproximadamente 6% maior do que no último ano, a tendência é de que a comercialização desta safra ocorra com características muito similares às observadas em 2013. "Trabalho com a expectativa de que os preços variarão dentro de um intervalo estreito e com uma forte base de sustentação", aponta. Segundo ele, isso se deve a duas novas características: "A primeira é que, agora, o produtor de arroz no RS tem o cultivo de soja como alternativa nas áreas de várzea. Ao contrário do que muitos podem pensar, isso não representa uma substituição do arroz por soja, pois a cultura da oleaginosa entra nas áreas de pousio do arroz. Significa uma nova alternativa de renda, que permite ao produtor avaliar o melhor momento de vender o arroz. O segundo ponto no qual me baseio ao ter esta expectativa de preços sustentados num patamar próximo ao atual é a projeção de câmbio valorizado (acima de R$ 2,4/dólar), dando melhores condições competitivas ao arroz brasileiro no mercado externo", argumenta.

Nesta safra, o cultivo da soja em áreas tradicionais de arroz em rotação cresceu 9%, para 300 mil hectares. E o arroz rotacionado pode ter incremento de produtividade de 17%

A consolidação da participação do arroz brasileiro no mercado internacional, na visão do analista, tem sido fundamental para enxugar um eventual excedente, minimizando qualquer pressão baixista nos preços. "Hoje, com preços abaixo de US$ 15 a saca, o escoamento se intensifica para o mercado externo, logo recuperando a força das cotações", observa. Entre março 2013 e janeiro 2014, as exportações brasileiras alcançaram exatas 1.138.218 toneladas, contra a importação de 901.802 toneladas, proporcionando saldo positivo de 236.396 toneladas, segundo os dados levantados pela divisão de política setorial do Irga. Esta constatação tem sido uma realidade nos três últimos anos. "Historicamente, tivemos saldo positivo nas exportações brasileiras de arroz somente no ano de 2008, e vários anos de alternância de períodos de crises e bons preços para o setor", avalia coordenador da Câmara Setorial do Arroz do RS, César Marques.

O secretário estadual da Agricultura, Luiz Fernando Mainardi, lembra que o Governo Federal tem sido um parceiro importante do setor nos últimos dois anos. "A articulação do governo do estado junto ao Governo Federal, em conjunto com a mobilização dos produtores através de suas entidades, resultou na injeção de R$ 2,7 bilhões em recursos para debelar a crise dos preços em 2011. Os recursos serviram para escoar a safra e renegociar as dívidas dos produtores, para que não ficassem descapitalizados. De lá para cá, apreendemos, planificamos a produção, conquistamos novos mercados e, no Rio Grande do Sul, estabelecemos uma política de incentivos que beneficia as indústrias locais que compram a produção gaúcha", ressalta.

A indústria, por sinal, também está vendo com muito otimismo o atual momento da lavoura gaúcha. "Temos todas as condições para colher uma safra excelente, maior e com qualidade para o produtor e a indústria. O dólar está favorável. Conseguimos equilibrar as importações com as exportações, o que é fundamental para a sustentação dos preços. É bom lembrar que os preços se mantiveram estáveis, mesmo com os vários leilões do Governo em 2013. Isso mostra um fortalecimento do mercado", lembra o presidente do Sindicato das Indústrias do Arroz do RS (Sindarroz/ RS), Elton Doeler. Em razão desta conjuntura, ele reconhece estar havendo uma aproximação maior entre indústria e produtores. "Estamos trabalhando como uma cadeia produtiva de verdade. Existe diálogo entre o Sindarroz/RS e a Federarroz, temos pautas semelhantes, como a reforma tributária e a questão portuária. Evoluímos muito em termos de competitividade, mas há muitos gargalos a serem superados e isso exige a união de todos os elos da cadeia, porque todos são importantes", resume o dirigente.

Diversificação e renda — A diversificação da produção também tem sido fundamental para a ampliação da renda dos orizicultores gaúchos. O cultivo da soja no sistema de rotação com o arroz, que nos últimos três anos tem se mostrado uma alternativa eficiente de controle de plantas daninhas nas lavouras irrigadas, especialmente o arroz vermelho resistente aos herbicidas grupo químico das Imidazolinonas (Sistema Clearfield), ganha força a cada safra. É que os produtores, incentivados pelos preços da oleaginosa, que a partir de 2012 atingiram patamares históricos, têm aumentado o plantio, especialmente na Metade Sul.

Na safra 2013/14, o cultivo da soja em áreas tradicionais de arroz, no sistema de rotação de culturas, cresceu 9%. A área plantada com o grão, de acordo com o Irga, saltou de 272 mil hectares, no período anterior, para 300 mil hectares, com uma produção total estimada em 900 mil toneladas. Conforme o coordenador da Divisão de Assistência Técnica e Extensão Rural do Irga, Eraldo Jobim, o plantio da soja em área de várzea pode aumentar a produtividade do arroz irrigado em até 17%. "Se o produtor destinar uma parte da lavoura para plantar a soja por duas safras consecutivas, por exemplo, no terceiro ano, quando entrar com o arroz, poderá colher um adicional de 17 a 20 sacas por hectare", garante.

Produtor Farenzena plantou 174 hectares de soja no sistema de rotação com arroz sem pivô, além de outros 180 hectares com soja e mais 100 hectares com milho irrigados

Com a colheita já em andamento, os produtores da Fronteira Oeste, região que mais produz o grão (20% da produção nacional), projetam um aumento de 8% na produtividade. Nesta safra foram plantados 333 mil hectares, 4% a mais do que na anterior. Só em Uruguaiana a área deve atingir 83 mil hectares e a expectativa é de colher aproximadamente 13,5 milhões de sacas de 50 quilos.

Diferente da safra passada, o clima na Fronteira Oeste está sendo um aliado para os agricultores. "Ao contrário de outras regiões, onde o tempo seco está prejudicando as lavouras, por aqui o clima vem favorecendo o enchimento dos grãos", compara o produtor Élio Farenzena, de Alegrete. Para esta safra, ele espera colher um total de 6,4 mil toneladas do cereal em 755 hectares, distribuídas nas quatro propriedades que integram a Agropecuária Farenzena.

Farenzena também faz parte do time de produtores gaúchos que apostaram na rotação de culturas como ferramenta de controle do arroz vermelho e alternativa de renda. "São 174 hectares cultivados no sistema de rotação com arroz e soja sem pivô, além de 180 hectares com soja e outros 100 hectares com milho, ambos irrigados por pivô", descreve.

Com este sistema, o produtor afirma ser possível obter em média três toneladas de soja e 11 toneladas de milho por hectare. "A soja é um risco em razão do clima, mas a lavoura de arroz na sequência pode render até 20 sacas a mais por hectare. No caso do milho, esta é a primeira safra que plantamos, então é grande a nossa expectativa", relata. A pecuária é outra atividade beneficiada com a rotação de culturas nas propriedades de Farenzena, cujo rebanho soma 2.600 cabeças de gado. "Utilizamos soja, milho e quirela de arroz adicionados à ração para alimentar os bezerros nos 15 primeiros dias de confinamento, antes de levarmos para o campo", explica o produtor.

Diante de tantas atividades conduzidas na lavoura, é natural que falte espaço para armazenar toda a produção. "A nossa estrutura de armazenagem, que são dois silos, atende à demanda do arroz, mas falta espaço para a soja e o milho. Assim é preciso colher e, na sequência, depositar tudo na unidade de armazenamento da cooperativa. Nesta safra, porém, pretendo destinar um silo para a soja e outro para milho, e vender o arroz antecipado para pagar as contas. Já tenho oferta para a soja a R$ 67 a saca, mas o preço ainda pode chegar a R$ 70. O arroz se encontra com preços bons, pode baixar no período de colheita, mas deve superar o preço mínimo, ficando acima de R$ 33", estima Farenzena, cuja meta para a próxima safra é investir na aquisição de um novo pivô.

Manejo diferenciado — Geovano Parcianello é outro orizicultor de Alegrete que também está colhendo bons resultados com a soja cultivada no sistema de rotação com o arroz. O engenheiro agrônomo, juntamente com o irmão Joacir, está à frente da Agropecuária Parcianello desde 2003. Na propriedade que pertence à família há mais de 25 anos, dos 222 hectares de área própria e outros 750 hectares arrendados, a soja no sistema de rotação já ocupa 300 hectares. "Na safra passada, chegamos a colher 30 sacas por hectare. Este ano está bem melhor e a perspectiva é de que alcançaremos 40 sacas por hectare. No caso do arroz, a produtividade estimada é de dez toneladas por hectare. Devido a isso, tivemos que ampliar a armazenagem no ano passado. Atualmente, conseguimos armazenar 90% da produção", conta.

Orizicultor Geovano Parcianello: "O momento é positivo, embora ainda não saibamos o que o Governo vai fazer para segurar a alta dos preços, pelo menos até as eleições"

Parcianello acredita que a safra 2013/ 14 será mais equilibrada em relação à anterior, já que os preços estão estáveis e o câmbio com tendência de alta. "O momento é positivo, embora ainda não saibamos o que o Governo vai fazer para segurar a alta dos preços, pelo menos até as eleições. Depois disso, acredito que deverão ser mais favoráveis, Mas estamos torcendo por preços na faixa de R$ 40, em razão dos custos de produção estarem mais altos, especialmente no caso da mão de obra, da energia elétrica e dos combustíveis", observa. Apesar de otimista, Parcianello reconhece que o produtor de arroz está trabalhando no limite. "Quem não se profissionalizar acabará tendo que sair do negócio. Felizmente, a soja veio proporcionar um 'plus' em termos de renda. Mas também é uma cultura que requer atenção devido ao manejo diferenciado, sobretudo no que diz respeito à irrigação. É sempre bom lembrar que a soja é uma planta sensível tanto em relação à carência quanto ao excesso hídrico", pondera.

Atento a este fator limitante, os irmãos Parcianello foram buscar no mercado alternativas mais eficientes para otimizar o uso da água na lavoura. Além do sistema convencional de pivôs já instalado na propriedade, optaram por agregar uma nova tecnologia que está sendo introduzida nesta safra: os politubos de irrigação. "São mangueiras de polietileno dotadas de comportas, que ao serem abertas fazem a água escoar por sulcos feitos ao longo da lavoura. Com este sistema, o produtor pode controlar de forma precisa e eficiente o volume de água necessário para irrigar a lavoura", explica Geovano.

Cláudia Lange, do Irga: a soja não tolera grandes períodos de excesso hídrico, que é o principal fator de estresse dos cultivos da oleaginosa e a leva à baixa produtividade

O uso de politubos de irrigação está sendo introduzido nas lavouras de arroz, soja e milho do RS por intermédio de uma parceria do Irga com a empresa norteamericana Delta Plastics, fabricante do produto. De acordo com o Irga, a partir dos testes feitos nesta safra será possível mensurar o quanto o uso desta tecnologia pode realmente contribuir para reduzir o uso e os custos com a água. "O sistema apresenta vantagens no uso e na distribuição de água, é menos oneroso e não requer tanta mão de obra. Mas ainda há algumas variáveis que precisamos avaliar com a pesquisa, como, por exemplo, a capacidade de infiltração do solo e a distância entre um sulco e outro, já que Alegrete tem uma topografia mais acidentada."

Rotações por hectare — O sucesso no cultivo de soja em rotação com o arroz irrigado é dependente de um adequado manejo do solo e da cultura, além da adoção de cultivares adaptadas. "A soja, tal como outras culturas de sequeiro, não tolera grandes períodos de excesso hídrico, sendo este o principal fator de estresse às plantas que gera instabilidade produtiva e/ ou baixa produtividade", explica a pesquisadora da Fundação Irga Cláudia Lange. "Garantir boa drenagem superficial, de forma que as poças de água que eventualmente venham a se formar não perdurem mais que 24 horas, é condição primordial para assegurar o sucesso do empreendimento", afirma.

A semeadura da soja em microcamalhões é uma alternativa para facilitar a drenagem da lavoura e evitar danos de excesso hídrico em áreas de cotas baixas e muito planas. O Irga, por meio de convênio de cooperação técnica com uma indústria, desenvolveu uma semeadora específica para contemplar a técnica. O implemento adaptado à semeadeira constrói um camalhão que mantém a planta elevada em relação ao solo. Este sistema possibilita a drenagem eficiente do terreno para evitar acúmulo de água que comprometa o desenvolvimento e a produção das plantas e também garante a estrutura necessária para irrigá-las. Testes do Irga mostram que, em áreas experimentais, a produtividade média supera 65 sacas de soja por hectare. A média das lavouras comerciais neste terreno tem ficado em torno de 35 sacas.

Outra medida para mitigar os danos de excesso hídrico é utilizar cultivares mais tolerantes ao estresse. "A Tecirga 6070 RR, que já está sendo cultivada nesta safra, é a primeira cultivar de soja registrada para o cultivo comercial no Rio Grande do Sul selecionada em solos arrozeiros, visando, especificamente, às demandas deste segmento produtivo", informa Lange.

Exportações e novos mercados — Com o fechamento do ano comercial 2013/ 2014 é possível afirmar que as exportações brasileiras deverão ultrapassar a casa de 1,2 milhão de toneladas, com saldo positivo na balança pelo terceiro ano consecutivo. "A diferença é que pela primeira vez, as exportações superaram significativamente as importações por influência do mercado e não devido à ajuda de mecanismos do Governo, como vinha ocorrendo anteriormente", compara o vice-presidente de Mercados e Política Agrícola Federarroz, Daire Coutinho.

Na avaliação do dirigente, o equilíbrio entre oferta e demanda no mercado interno e a rentabilidade dos produtores dependem basicamente das vendas externas. "Se conseguirmos continuar exportando entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de toneladas, anualmente, haverá um quadro de oferta e demanda mais ajustado e rentável e poderemos seguir investindo em ganhos por escala", assegura.

Mas a ampliação do volume exportado e a conquista de novos mercados esbarram em alguns fatores limitantes. Além da carga tributária mais elevada que a dos países concorrentes, a falta de infraestrutura portuária adequada para escoar o produto com maior agilidade representa um gargalo às exportações. "O Porto de Rio Grande ainda não está capacitado para receber navios de grande porte e também não dispõe de um shiploader, equipamento que permite o carregamento sem movimentação do navio, atingindo todos os pontos de cada porão. Também por questões portuárias não podemos, por exemplo, exportar arroz ensacado. Precisamos resolver esses e outros entraves logísticos o mais breve possível", avalia o gerente de projetos do Brazilian Rice, André Anele.

Criado em 2012, o Projeto Brazilian Rice é resultado de um convênio entre a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e o Irga com o objetivo promover o arroz brasileiro e seus derivados no mercado internacional. "O Brasil vem evoluindo como país exportador e está ganhando notoriedade nas Américas como um produtor de qualidade. O ano começa favorável em função da boa safra, mas é preciso ter volume para exportar, pois, quando os preços estão bons, praticamente toda a produção brasileira é direcionada para o mercado interno", enfatiza.

Consumo e valor agregado — Com o consumo interno estagnado em 12 milhões de toneladas, praticamente o mesmo volume que o Brasil produz anualmente, a alternativa para aumentar as vendas, tanto no mercado doméstico quanto no exterior, é agregar valor ao produto. "O consumo de arroz no País já atingiu seu nível de saciedade, ou seja, os brasileiros não vão consumir mais arroz do que já consomem. No entanto, o mercado para produtos derivados de arroz ou pratos prontos à base de arroz, por exemplo, tem um potencial enorme", assegura o economista-chefe da Assessoria Econômica da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Sistema Farsul), Antônio da Luz.

Ele explica que está havendo uma mudança no perfil consumidor brasileiro, que está mais exigente e, além de qualidade, também quer produtos diferenciados. "Ele quer comprar no supermercado o mesmo prato sofisticado que você só encontra em um restaurante e colocá-lo no micro-ondas. A cadeia produtiva tem que acompanhar esta tendência e investir em um novo modelo de consumo. Porque agregar valor ao produto também significa ampliar a rentabilidade", considera o economista.


Migração estratégica em Santa Catarina

Sem opções para diversificar a lavoura ou ampliar a área plantada, os orizicultores catarinenses investem em tecnologia para aumentar a produtividade. Santa Catarina é o segundo maior produtor do grão, com 150 mil hectares, com a colheita, anualmente, de mais de 1 milhão de toneladas. A produtividade média é de sete toneladas por hectare, mas em algumas regiões é possível colher volumes superiores a 12 toneladas.

A evolução da orizicultura no estado está diretamente ligada ao avanço das pesquisas conduzidas pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) voltadas à melhoria da qualidade de grãos, ao aumento de produtividade com menor custo de produção e à redução do impacto ambiental causado pelo cultivo de grão. Outra linha de trabalho é o lançamento de cultivares de arroz do tipo especial, destinadas a nichos de mercado. Recentemente a Epagri lançou variedades de arroz-vermelho (SCS119 Rubi) e de arroz- preto (SCS120 Ônix).

Até a década passada praticamente 100% do arroz cultivado em SC era no sistema pré-germinado, em função da reduzida disponibilidade de áreas para o cultivo do cereal. Entretanto, este cenário vem sofrendo alterações ao longo dos últimos anos, conforme explica o pesquisador da Epagri Sávio Domingos, da Estação Experimental de Itajaí. "Diferentemente do RS, toda a área disponível, cerca de 150 mil hectares, é cultivada anualmente, fato que dificulta a rotação de culturas e pastagens. O cultivo intensivo, associado à elevada infestação das áreas com arroz-vermelho, condicionava os produtores de arroz ao uso do sistema pré-germinado", justifica.

Domingos diz que somente a partir do lançamento da tecnologia Clearfield e de cultivares de arroz resistente aos herbicidas do grupo químico das Imidazolinonas aptas para SC, foi possível fazer o controle químico do arroz-vermelho e, consequentemente, a semeadura em solo seco. Segundo ele, a adesão a este sistema é crescente. "Estima-se que na safra 2013/14 foram cultivados 25 mil hectares, aproximadamente 16,7% da área cultivada no estado, com semeadura em solo seco. As principais vantagens estão relacionadas à redução do custo de produção, principalmente em grandes propriedades, e à antecipação do preparo do solo", lista.

A semeadura em solo seco, conforme Domingos, também reduz a infestação de plantas aquáticas e de outras pragas como o caramujo, mas também proporciona o desenvolvimento de outras plantas daninhas e insetos-praga que normalmente não ocorrem no sistema pré-germinado. "A Epagri preconiza a rotação de sistemas de cultivo como forma de reduzir a pressão destas pragas. A empresa também anuncia que pretende lançar uma nova cultivar CL de segunda geração, apta para o cultivo nos sistema pré-germinado e cultivo mínimo", acrescenta o pesquisador.

O produtor André Fontana Acordi (foto), que cultiva 150 hectares de arroz em Sombrio/SC e 600 hectares em Triunfo/ RS, é um exemplo dessa migração. "Nossa região não é a mais produtiva do estado devido ao solo arenoso, com muita areia. Os agricultores que conseguem produzir mais são os que plantam menos de 20 hectares. Os recordes de produtividade obtidos em SC são na região de Agronômica, geralmente em micropropriedades. Por esta razão, estamos mudando do sistema pré-germinado para o sequeiro com irrigação tardia. Já em Triunfo adotamos o plantio direto. Depois de colher, deixamos a palha secar, aplicamos o glifosato e plantamos novamente, como se faz com a soja", argumenta.

Na avaliação de Acordi, a safra catarinense deverá transcorrer dentro da normalidade, mas sem grande impacto na renda do produtor. "Os preços estão reagindo, mas ainda não será nesta que o agricultor vai ser remunerado, já que teve que queimar algumas gorduras para pagar o custeio da safra. Alguns estão fazendo milagre. Claro que é possível colher 240 sacas por hectare, mas os custos são mais altos e não há lucro. É como ter uma vaca que dá dez litros de leite à base de capim. Com ração ela produziria 100 litros, mas o custo seria maior. A produtividade nem sempre é certeza de lucro em razão do preço dos insumos", lamenta.

Outro fator agravante, na avaliação do economista e analista de mercado da Epagri/ Cepa Luiz Marcelino Vieira, é que a capacidade de armazenagem de arroz no estado ainda é insuficiente para atender a produção gerada. "Por esta razão, na medida em que se intensifica a colheita, alguns produtores precisam comercializar imediatamente o seu produto. Esse procedimento, quase sempre, tem ocasionado prejuízo para o segmento produtivo", aponta.

Ainda assim, Vieira considera que o mercado estadual apresenta-se bem ofertado. "A saca de 50 quilos do cereal na primeira semana de fevereiro estava sendo negociada no Litoral Norte catarinense a R$ 36 e entre R$ 38 e R$ 39 na Região Sul. Atualmente, a média estadual oscila entre R$ 34 e R$ 35. Para as próximas semanas, considerando que os preços no mercado nacional continuem firmes, a expectativa é de que mantenham os níveis atuais. Entretanto, com a intensificação da colheita em SC e demais estados, os preços devem baixar gradativamente, podendo oscilar entre R$ 31 e R$ 33 a saca", estima.