Na Hora H

 

COM O MERCADO EM ALTA DEMANDA, O BRASIL VAI REDUZIR A SAFRA DE MILHO?

Alysson Paolinelli, engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura

Será que estamos retornando ao ciclo de safras altas e preços baixos e safras baixas e preços altos? Pensei que no Brasil isto fosse coisa do passado, antes da década de 1970. Mas estou, infelizmente, vendo que não. Os instrumentos de políticas públicas, que já funcionaram tão bem antes dos famigerados planos econômicos que os destruíram, levaram embora a política de preços mínimos. Preços mínimos são, antes de tudo, indicadores ao sistema produtivo de cada nação onde o que se deseja é produção e não gangorra ou senoides de preços em cada produto.

Quando o nosso País não tinha recursos suficientes nem para bancar a sua produção, o Governo usou a famosa "Conta Movimento", do Banco do Brasil, e dela fez o mais eficiente sistema de crédito rural que o País já teve, inclusive aplicando o maior quantitativo em preços reais relativos já existentes. E com ela bancou as políticas de preços mínimos e dos estoques reguladores sem nenhum atropelo nem ao Tesouro Nacional e nem às Contas Públicas.

O Banco do Brasil foi o verdadeiro parceiro do produtor rural e, por meio dele, ajudou o Brasil a sair daquele imbróglio de importador de alimentos para ser hoje um dos maiores exportadores que o mundo conhece. Ajudou sem nenhuma demagogia a reduzir o custo da alimentação de 42% a 48% da renda total da família média brasileira na década de 1970 para 14% a 20% da renda desta mesma família a partir do ano 2000. Seria incompreensível que viéssemos aqui, a esta altura, reivindicar o retorno da Conta Movimento, do Banco do Brasil, para salvar a nossa agricultura. O que quero dizer é que hoje, graças ao nosso produtor, temos outras e muito mais estáveis fontes de recursos para atender seriamente o que é necessário ao nosso desenvolvimento.

Agora que estamos exportando no setor agrícola mais de US$ 100 bilhões por ano, deixando ao País um saldo líquido de US$ 84 bilhões a US$ 85 bilhões, não temos sequer uma migalha deste recurso para salvar aqueles que o geraram e geram anualmente esta fabulosa soma que tem até salvado o País de contaminações de crises econômicas mundiais.

Entendo que planejamento e estratégia de Governo deva ser definir ações corretas em áreas que possamos ser competitivos, para não permitir que no País caia a produção e perca os mercados conquistados. Será que estamos agindo certo? Os nossos agricultores podem contar com uma política de garantia de preços como os seus competidores? Os agricultores brasileiros têm custos dos serviços compatíveis com os dos seus competidores mundo afora, mas no caso deles se o custo aumenta até subsídios são dados para compensar. Uma saca de milho produzida no interior do Mato Grosso paga até o valor de duas sacas para ser levada ao porto e embarcar.

Para o nosso produtor isto representa um tributo de 66%. Onde já ouvimos falar em tal aberração em qualquer parte do mundo? Os custos do armazenamento no Brasil podem ser comparados aos dos seus competidores? Aqui em vez de subsídios temos é tributos e muito altos. Tenho procurado me informar, o Brasil continua a ser o país que mais tributa o produto, inclusive in natura. A velha economia nos ensina que os tributos são pagos primeiramente pelos consumidores, e depois prejudicam a capacidade competitiva do produto tributado. Será que esta arrecadação está sendo bem aplicada pelos governos que nos tributam? Onde estão indo os recursos arrecadados? Não dariam para fazer uma boa política de crédito rural, de seguro rural (não este que está aí, montado para atender aos bancos e as seguradoras) de garantia de preços mínimos, de estoques reguladores e tantas outras políticas públicas que foram extintas.

O mundo vai precisar de 200 a 300 milhões de toneladas de milho a mais nos próximos 30 anos. Quem tem condições de atender a esta demanda? Pelo que estou vendo, não seremos nós, que temos mais áreas, tecnologias e produtores competentes. Vamos rezar para que outros povos, com muito menos recursos naturais e menores condições do que nós, mas que tenham governos e líderes competentes a lhes garantir o uso e a produção que a humanidade precisa.