O Segredo de Quem Faz

 

Visão EMPREENDEDORA que faz o campo crescer

O crescimento do agronegócio brasileiro é acompanhado de histórias interessantes, de pessoas que construíram carreiras e caminhos de vida a partir das oportunidades surgidas com o setor. É o caso do engenheiro agrônomo Djalma Vieira, que, além de gostar da realidade do campo, teve a visão empreendedora para investir no Centro-Oeste. Com a experiência adquirida como representante comercial de insumos, ele criou a Uniagro, empresa com sede em Primavera do Leste/MT que não para de crescer. Em quase 12 anos de funcionamento, a pequena revenda que tinha apenas quatro pessoas trabalhando passou a ser exportadora e, hoje, emprega 140 funcionários.

Denise Saueressig - [email protected]

A Granja – Como iniciou a sua ligação com os negócios do campo?

Djalma Vieira – Sou paranaense de Paranavaí e formado em Agronomia em Bandeirantes. Em 1994, fui morar no Mato Grosso do Sul, onde fiquei pouco mais de cinco anos. Em Primavera do Leste estou há 14 anos e meio. Sempre trabalhei no mercado de distribuição de insumos. Em 2002, eu e meu sócio Luciano Gomes da Costa fundamos a Uniagro – Costa e Vieira Ltda. Começamos a trabalhar com revenda e distribuição de insumos e, em 2005, passamos a operar com grãos também. Hoje, o Luciano não está mais na gestão da empresa e eu sou o presidente da Uniagro, como sócio majoritário. Quando começamos, éramos quatro pessoas trabalhando. Hoje, são 140 colaboradores.

A Granja – Qual é a estrutura dos negócios da empresa?

Vieira – São duas unidades de negócios – insumos e grãos. O nosso forte é fazer operações barter, ou seja, a troca de insumos por grãos. Temos lojas em Querência, Canarana, Água Boa, Sorriso e Sinop, e a nossa matriz, em Primavera do Leste. Temos um armazém em Primavera do Leste e outro em Bom Jesus do Araguaia. A nossa capacidade estática é de 102 mil toneladas de grãos. Faturamos em insumos, em 2013, R$ 150 milhões, e R$ 280 milhões com o comércio de grãos. Nossas vendas de grãos são destinadas a outras empresas e à exportação. Do total adquirido, em torno de 60% dos grãos de soja e de milho são exportados. Na safra passada recebemos 200 mil toneladas de milho e cerca de 180 mil toneladas de soja. Para a atual safra pensamos em um pequeno incremento nos números, para aproximadamente 200 mil toneladas de soja e 220 mil toneladas de milho. Nesse momento estamos recebendo a soja, que será entregue até abril. O milho começa a chegar no mês de junho e a entrega segue até o início de agosto.

A Granja – Como o senhor avalia o crescimento da empresa nos últimos anos?

Vieira – O nosso maior crescimento ocorreu entre os anos de 2008 e 2010. Em 2010 a Uniagro foi indicada por uma pesquisa de pequenas e médias empresas como a empresa que mais cresceu no País nessa categoria. Hoje, já somos considerados uma grande empresa. Para se ter uma ideia, em 2010 a Uniagro faturou perto de R$ 135 milhões, 238% acima do que havia sido registrado em 2008. Lembro que em 2002, quando fundamos a empresa, o faturamento foi de R$ 300 mil. Na época nós alugamos um espaço bem simples para instalar a loja, numa área de 120 metros quadrados. Investimos cerca de R$ 10 mil. O que ajudou foi o nosso conhecimento de mercado. Dinheiro não tínhamos, mas tínhamos know-how.

A Granja – Como a Uniagro mantém a fidelidade e a confiança dos produtores?

Vieira – Procuramos manter um contato sempre próximo com o produtor. Além da parte de comercialização de grãos e de insumos, também trabalhamos com a assistência agronômica. Percebemos com a venda de insumos que precisávamos ter uma equipe preparada para que nossos produtos fossem aplicados com a melhor qualidade nas lavouras. Por isso, investimentos na assistência agronômica. É mais do que levar um simples produto, mas um serviço. É um pacote completo, para manter o cliente atualizado e para ajudar a selecionar a tecnologia mais apropriada e economicamente viável. Hoje, são em torno de 400 produtores atuando de forma efetiva conosco. Também posicionamos nossos clientes em relação ao mercado, trabalhando na fase pós-colheita. Nós investimos muito na força das pessoas. Hoje temos um time de cerca de 30 engenheiros agrônomos que nos ajudam na comercialização de insumos e no relacionamento com o produtor. As áreas comerciais também fazem o contato com o produtor, levando as melhores propostas para os grãos que ele tem disponível. O produtor busca sempre a melhor negociação para, pelo menos, garantir o custo da safra. Então, o nosso trabalho é contínuo. Quando encerram as negociações para a safra de verão, com a soja, iniciam os negócios para a safra do milho. Também temos um projeto de responsabilidade socioambiental bem estruturado, com atividades específicas com a comunidade.

A Granja – Quais são as projeções para o futuro da empresa?

Vieira – Nos próximos anos, pretendemos continuar a nossa expansão para outras cidades do Centro- Oeste e do Norte do País, inicialmente, com a distribuição de insumos e, depois, com os silos armazenadores de grãos. É um trabalho para ser feito aos poucos, conquistando a confiança do produtor. Hoje, a Uniagro tem seis lojas, mas pretendemos ter 14 lojas até 2020. E, a cada dois anos, queremos instalar um novo silo. Hoje são dois silos, incluindo o nosso investimento mais recente, de R$ 4 milhões, na estrutura do maior silo do mundo sem torre central. Para os próximos projetos, vamos analisar as necessidades de cada região. Também não descartamos expandir nossas atividades para outros estados, como Tocantins e Pará. Mas a prioridade é o Mato Grosso, onde ainda temos muito para fazer. Estabelecemos uma parceria com pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) para traçar um planejamento estratégico até 2020. Nosso time de colaboradores também está aumentando. No ano passado eram 120 pessoas e, hoje, são 140. Também estamos desenvolvendo um programa de trainee para formarmos nossa mão de obra, investindo especialmente em jovens.

A Granja – E qual é a estimativa de faturamento para 2014?

Vieira – De R$ 430 milhões em faturamento em 2013, esperamos alcançar R$ 600 milhões neste ano.

A Granja – Quais foram as mudanças mais significativas percebidas nesses últimos anos na região de Primavera do Leste?

Vieira – A cidade sempre foi muito próspera. Na época em que chegamos o crescimento já era num ritmo acelerado, como uma linha de montagem, com muita velocidade em um curto espaço de tempo. E continua crescendo. Hoje, o município tem 27 anos e cerca de 60 mil habitantes. A maioria das pessoas que está aqui é de fora e chega com aquele sonho de prosperidade, de fazer as coisas acontecerem. Isso resulta numa grande entrega ao trabalho, o que tem como consequência o crescimento da cidade. Na agricultura, houve um aumento importante nos índices de produtividade. Na época em que cheguei aqui, falávamos numa média de 80 sacas por hectare na lavoura de milho e, hoje, falamos em 110, 120 sacas. Na soja, falávamos em 48 sacas e, hoje, falamos em 55 sacas. Consequentemente, aumentou a demanda por armazéns e por serviços, houve incremento de renda na região e empregos foram gerados.

A Granja – Na sua opinião, quais são os grandes desafios para o agronegócio crescer ainda mais no País?

Vieira – Indiscutivelmente, a principal necessidade do agronegócio brasileiro está relacionada às melhorias da infraestrutura logística. Precisamos de investimentos em ferrovias, obras nos portos, principalmente nas estruturas do Norte e do Nordeste, e mais rodovias. Mato Grosso tem uma malha viária muito pequena ainda. O momento da agricultura brasileira é relativamente bom, com preços interessantes. Mas o mercado não é linear. Se nós não tivermos uma logística eficiente, o produtor terá que pagar a conta e, aí, a rentabilidade será afetada. Não adianta ter um preço bom no mercado, mas uma estrutura ruim. Hoje nós vivemos um momento de grandes oportunidades, tanto que estamos aqui trabalhando sério para crescer, mas o Governo precisa olhar com mais atenção para a nossa infraestrutura. O potencial do Brasil é enorme e onde o produtor tem condições de trabalhar, ele faz bem feito. É arrojado e lida com uma série de dificuldades no seu dia a dia. Mas precisa haver a soma desse talento produtivo com investimentos em logística. Assim, o Brasil pode ser imbatível, porque tem terras e tem clima para produzir. No ano passado a questão logística já foi bastante pesada. Tivemos bons preços, mas o resultado da produção poderia ter sido muito mais rentável.

A Granja – Em função das dificuldades logísticas e por ser uma empresa exportadora, a Uniagro sentiu incremento nos valores do frete nesta safra?

Vieira – Este ano sentimos uma elevação entre 5% e 10% nos custos do frete. Hoje, a quantidade de caminhões disponíveis é muito inferior à demanda, o que provoca o aumento nos preços. Nós mantemos contratos estabelecidos e um time de logística que tem relacionamento estreito com as transportadoras. Por isso, garantimos o alinhamento para esse tipo de serviço.

A Granja – Como gosta do campo e tem experiência na área, o senhor também pretende produzir na sua própria lavoura?

Vieira – Não descarto esse projeto no futuro. Hoje estou focado na empresa, mas tenho muita vontade de produzir. Quem sabe este seja um projeto para daqui uns cinco anos.