Eduardo Almeida Reis

 

NEGÓCIOS RURAIS

EDUARDO ALMEIDA REIS

Os negócios rurais são tantos quantos a gente possa imaginar e fazem parte, sem se confundir com o agronegócio, daqueles que têm impedido este sofrido País de afundar de vez. Agronegócio é o conjunto de operações da cadeia produtiva, do trabalho agropecuário até a comercialização, e tem relação estreita com o abastecimento e a exportação. Ninguém me contou, porque vi com estes olhos azuis 200 mil sacas de arroz empilhadas ao ar livre no Mato Grosso, década de 80. Vendido ao BB, arroz que ninguém foi apanhar e brotava verdinho dos sacos empilhados. Aqui e ali, viam-se pequenos pedaços da lona preta que fora usada para proteger a pilha gigantesca.

Negócios rurais são pequenos e médios negócios que você pode instalar fora das zonas urbanas. Crescem ao sabor da moda e das invenções. Vejamse os hotéis fazendas surgidos nos últimos 50 anos. Até então, eram raríssimos aqui no Sudeste. Havia o Hotel Fazenda Três Pinheiros, na Rodovia Rio- Caxambu, km 23, Engenheiro Passos/ RJ, o Hotel Fazenda Club dos 200, em São José do Barreiro/SP, e poucos, pouquíssimos mais.

De lá para cá, não se dá um passo sem topar com um hotel fazenda, sinal do desespero de quem vive nas cidades e não perde oportunidade para curtir uns dias em ambientes rurais. Até o Pantanal, que conheci razoavelmente, está cheio de hotéis fazendas e reservas animais em que você pode ver como vivem milhares de bichos em áreas preservadas.

Outro negócio, que me parece da melhor supimpitude, é o casamento de vacas zebuínas com o sêmen de touros holandeses de boa qualidade. Bezerros vacinados e criados à solta mamando todo o leite de suas mães. Na dependência do número de vacas, você desmama excelentes machos para corte e fêmeas meio-sangue excelentíssimas, filhas de touros muito bons, para vender aos heróis que produzem leite. Toca o serviço com dois empregados, um vaqueiro e um vaqueiro-inseminador, mora na roça vendo as frutas amadurecendo no pomar e as águas cristalinas fugindo entre as pedras do jardim, tendo o cuidado de evitar o noticiário dos telejornais noturnos, que é para não se aborrecer.

Que me diz o leitor d'A Granja dos pesque-pagues? Se há milhares – fenômeno relativamente recente –, é porque o negócio é bom. Um dos pioneiros deve ter sido o Aleixo, excelente patrício que plantava arroz perto da capital de São Paulo e teve sua terrinha inundada por uma represa construída a jusante.

Junto com a área para pescar, fez hotel, restaurante, loja de venda de material de pesca, prosperou. Não posso jurar, mas acho que seu pesque-pague começou a funcionar no final da década de 60. Perdi a conta dos que vi nascerem de lá para cá, alguns tão elegantes que o leitor nem pode imaginar e não vai acreditar nos preços das diárias cobradas pelos respectivos hotéis.

Outra febre é a dos orgânicos. Por qualquer motivo e até sem motivo algum, justo nestes dias em que se multiplicam os idosos que sempre comeram produtos plantados com agrotóxicos – surgiu a agricultura orgânica. Pois muito bem: dia 22 de julho de 2006, a Mission Organics plantou espinafre num campo de 11.200 metros quadrados em uma fazenda na Califórnia, que estava em vias de receber sua certificação como "orgânica". Não foi em Nova Iguaçu/RJ, mas na Califórnia, USA. Essa plantação foi contaminada com fezes de animais da região que continham a bactéria E. coli O157:H7, comum no intestino de diversos animais. Em 14 de agosto, 450 quilos de espinafre foram colhidos e processados pela Natural Selection Foods. O lote recebeu o número P227A. O espinafre foi lavado diversas vezes, empacotado em cerca de 40 mil embalagens individuais e distribuído nacionalmente com a marca Dole Baby Spinach.

No dia 31 de agosto, Ruby Trauz, uma senhora de 81 anos, morreu no estado de Nebraska após sofrer forte diarreia que evoluiu para uma hemorragia gástrica e falência renal (como andou acontecendo com o pepino orgânico na Europa, diz aqui vosso cronista). Casos semelhantes começaram a ocorrer em 26 estados americanos: 205 pessoas foram internadas nos dias seguintes com os mesmos sintomas.

Dia 20 de setembro: uma criança de dois anos morreu em Idaho e muitas pessoas continuavam sendo hospitalizadas com falência renal. Betty Howard foi a última vítima do espinafre orgânico a morrer, em 28 de janeiro de 2007, depois de quatro meses hospitalizada. O espinafre contaminado, produzido em uma área do tamanho de um quarteirão, deixou quatro mortos e dezenas de pessoas com sequelas da doença renal espalhadas pelo país.