Plantio Direto

 

Avanço do SPD mostra EVOLUÇÃO da agricultura brasileira

Engenheira agrônoma Giseli Brüggemann, analista de conjuntura da Agro.Consult, MBA em Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental e MBA em Agronegócio

A demanda mundial por grãos tem crescido e a produção brasileira vem fazendo parte da oferta para supri-la. Isso tem ocorrido graças ao desenvolvimento contínuo do setor agropecuário no País. Considerado o celeiro do mundo, o Brasil tem expandido suas fronteiras agrícolas ano a ano. Uma nova agricultura tem se estabelecido nos campos brasileiros de norte a sul, mais tecnificada e sustentável ambientalmente. Esta nova agricultura tem aperfeiçoado suas técnicas e manejos, tornando-se mais produtiva.

Parcela desta melhoria se deve à adoção do sistema de plantio direto (SPD), que há cerca de quatro décadas vem sendo desenvolvido e aperfeiçoado nas diferentes regiões. O SPD tem como objetivo proteger o solo, conservando-o e melhorando- o pela manutenção de uma cobertura de resíduos vegetais e pelo controle dos inços por herbicidas, dispensando as operações de preparo do solo. O SPD visa manter a fertilidade e a estrutura adequada do solo por meio da redução de erosão e da compactação.

Para análise dos resultados sobre o plantio direto, os dados foram agrupados em quatro regiões climáticas, seguindo sugestão do engenheiro agrônomo Fernando Penteado Cardoso, da Agrisus

Há 11 anos a Agro.Consult tem realizado o Rally da Safra, que percorre as principais regiões produtoras de milho e soja do Brasil, em formato de expedição, com o objetivo de avaliar a produção de grãos. Por meio desta avaliação, procura estimar a produtividade a ser alcançada nestas lavouras relacionando com o uso de tecnologia, comportamento do clima, ocorrências de pragas e doenças. Por sugestão e com o apoio da Fundação Agrisus, desde 2006, às avaliações foi incorporado o levantamento do Estado da Arte do SPD nas diferentes regiões. Em 2009 procedeu- se à coleta de 2.348 amostras de solo de 1.147 pontos diferentes, cuja análise deu origem a relatórios específicos sobre a situação encontrada dos níveis de fósforo e de bases trocáveis nos solos sob SPD.

Desde 2006 foram avaliadas mais de 9.400 lavouras de milho e soja, o que possibilitou uma análise do desenvolvimento do SPD em todo o País. Em 2013 totalizaram 854 lavouras avaliadas aleatoriamente nos estados de RS, SC, PR, MS, MT, GO, MG, BA, TO, MA, PA e PI no período de 27 de janeiro a 13 de março. Como forma de avaliar o SPD em cada lavoura, mede-se o percentual de solo coberto com o resíduo da cultura anterior, procedendo a identificação. Também se verifica a presença de sinais de erosão e de compactação. Com o intuito de agregar informações em relação ao que foi avaliado em campo, são aplicados questionários em eventos para os produtores que, em 2013, ocorreram nos municípios de Dourados/ MS, Cascavel/PR, Rondonópolis/MT, Rio Verde/GO, Querência/MT, Ponta Grossa/ PR, Passo Fundo/RS e Luís Eduardo Magalhães/ BA.

Por sugestão e com o apoio da Fundação Agrisus, desde 2006, às avaliações do Rally da Safra foi incorporado o levantamento do Estado da Arte do SPD nas diferentes regiões produtoras

Para análise dos resultados, os dados foram agrupados em quatro regiões climáticas sugeridas pelo engenheiro agrônomo Fernando Penteado Cardoso (Cardoso, F. P. Direto no Cerrado, Ano 10, n° 44, p. 4, 2005), assim dispostas:

Região 1: caracterizada por inverno frio e úmido, propicia o plantio de trigo e aveia no inverno (RS, SC e parte do PR).

Região 2: caracterizada por inverno ameno e úmido com variação imprevisível de temperatura e de umidade. Propicia no inverno o plantio de trigo, aveia, milho safrinha e sorgo (parte de MS, PR e SP).

Região 3: caracterizada pelo inverno quente e semiúmido. Milho e sorgo são as principais culturas utilizadas como safrinha (MT e partes de MS, SP, MG e GO).

Região 4: caracterizada pelo inverno quente e seco. O plantio de culturas no inverno é dificultado pela escassez de chuvas (TO e partes de MG, BA, MA, PI e GO).

O roteiro do Rally da Safra contempla vários municípios, que inclui os principais produtores de grãos. Todos os anos o trajeto percorrido passa por algumas alterações, assim como o período de avaliação. Em 2013 foram 254 municípios avaliados, representando 45% do total da área plantada com soja e milho no Brasil. Neste artigo apresentaremos apenas os resultados referentes às avaliações das lavouras de soja, que totalizaram 764 nas quatro regiões climáticas e alguns resultados dos questionários realizados em eventos para produtores. Estes questionários foram realizados sem o auxílio de entrevistador, portanto, a interpretação e o entendimento referentes aos conceitos questionados foram unicamente dos respondentes.

Adoção do SPD — De acordo com os questionários respondidos, em relação à adoção do SPD, 98% do total declarou utilizar este sistema. Dos motivos para a adoção, a conservação do solo foi o mais citado; em seguida, o aumento de produtividade e a redução dos custos. Nas Regiões 1, 2 e 3 o SPD é adotado há mais de dez anos por 90%, 74% e 58% dos respondentes, respectivamente. Enquanto na Região 4, observou-se que a adoção do SPD é mais recente e apenas 31% faz plantio direto há mais de dez anos. Por esta ser uma região de fronteira agrícola, os campos começaram a ser cultivados recentemente e, aos poucos, o SPD está sendo adotado. Pelo histórico de dados, é possível observar que ao longo dos anos a técnica tem-se consolidado na região.

Cobertura do solo — Em muitas áreas percorridas, a colheita estava próxima a ser realizada, portanto, as lavouras já se encontravam em estágio avançado de maturação no momento da avaliação e, consequentemente, os resíduos de cobertura já estavam decompostos ou muito misturados com as folhas mortas da cultura atual. Na Região 1 observou-se que 69% das lavouras avaliadas possuíam muito resíduo (40% a 100%), enquanto na Região 4 este número foi bem menor (32%). Nas regiões 2 e 3 foram 59% e 48%, respectivamente. O milho de segunda safra foi a cultura de cobertura encontrada com bastante frequência nas lavouras de soja de todas as regiões, destacando as regiões 2 e 3, que tiveram aproximadamente 70% das amostras com esta cobertura.

A Região 1, típica por seu inverno frio, apresentou 63% das suas lavouras de soja com cobertura de aveia, trigo e/ou triticale. Com o aumento seguido da área plantada com aveia nos estados sulinos, observou- se que o percentual de amostras com esta palhada também tem aumentado. Na Região 4 o predomínio foi de milho e milheto (68%) como culturas para formação da palhada.

Topografia e erosão — As culturas de milho e soja se alternam no sistema de rotação, não havendo terreno específico para cada uma. Por outro lado, milho e soja são igualmente sujeitos à erosão por não apresentarem resistência especial ao escorrimento, como ocorre com as culturas de espaçamento cerrado – trigo, arroz e cana –, que oferecem obstáculos à movimentação da água excedente ao longo dos declives. Mesmo no plantio direto, com boa cobertura, nas chuvas muito intensas o solo não consegue absorver por infiltração a totalidade da precipitação, mas a água excedente chega limpa no final do terreno declivoso. Em geral, o número de lavouras com sinais evidentes de erosão foi baixo. Em nenhuma das regiões climáticas o percentual de presença de sinais de erosão ultrapassou 4%.

Formação de pastagem após cultivo de cereais — Sendo uma técnica ainda nova, a formação de pastagem associada ao cultivo de grãos ainda é pouco utilizada pelos produtores. Verificou-se que mais da metade dos respondentes dos questionários não tem utilizado esta técnica. Entretanto, destaca-se na Região 2, em que 64% dos respondentes utilizam alguma das técnicas (pastagem consorciada em milho verão, pastagem consorciada em milho safrinha, pastagem sobressemeada em soja e pastagem plantada após soja).

Conclusão — Há oito anos a avaliação do SPD realizada pelo Rally da Safra tem demonstrado o quanto a agricultura brasileira tem evoluído. O aumento da utilização deste sistema reflete as vantagens que o mesmo tem gerado para o produtor e o meio ambiente relacionado ao solo. Destacando-se com uma prática conservacionista, o plantio direto também traz benefícios econômicos que vão desde a redução do uso de máquinas até a redução das perdas de solo e seus nutrientes, somando-se ainda ao ganho de produtividade gerado pelas melhorias proporcionadas ao solo e pela retomada do trabalho pouco tempo após a chuva, maximizando o plantio na melhor época.

Como forma de avaliar o plantio direto em cada lavoura, foi medido percentual de solo coberto com o resíduo da cultura anterior, procedendo a identificação (na foto, soja sobre resíduo de milho)

Ao longo dos anos, tem-se aprimorado a metodologia de avaliação e análise dos resultados para que estes possam se aproximar da realidade praticada no campo. Desse modo, com o aumento da utilização do SPD, verifica-se que a conservação do solo tem ganhado novos adeptos por meio deste sistema, o que confirma que a agricultura brasileira tem buscado o aumento da produção também por meio da conservação dos recursos naturais. O levantamento do Estado da Arte do SPD permite identificar os pontos passivos de aperfeiçoamento, ensejando esforços públicos e privados orientados em corrigi-los e aperfeiçoá-los. O Rally da Safra 2014 teve início em 16 de janeiro e irá até 8 de junho. Mais informações no site www.rallydasafra.com.br.

O relatório completo do Estado da Arte do Plantio Direto, com os resultados das avaliações nas lavouras de soja e milho e dos questionários de 2013, poderá ser acessado em www.agrisus.org.br.