Algodão

 

HELICOVERPA na mira do manejo

O exemplo e a experiência baiana de como enfrentar a lagarta Helicoverpa armigera na segunda safra do algodão

Eng. Agr. e produtor Celito Breda, diretor da Abapa e da Fundação Bahia, consultor agronômico da Círculo Verde

A safra de algodão na primeira quinzena de janeiro estava apenas começando e não havia ainda problemas graves com a Helicoverpa armigera na Bahia. Os problemas no algodão começarão talvez a partir deste mês ou março. Como nesta safra os produto- Odair Aguiar res irão plantar cerca de 80% de suas áreas com algodão geneticamente modificado (GM) resistente às lagartas, acreditamos que os problemas serão menores na cultura. A helicoverpa ainda continuará nos incomodando devido ao fato das proteínas Bt que estarão na maioria das variedades plantadas serem moderadamente eficazes ou moderadamente resistentes à lagarta.

O próprio sistema produtivo reencontra o equilíbrio e começam a aparecer os insetos benéficos, que antes não estavam na lavoura, para ajudar a combater a lagarta

O algodão Boulgard II, que tem uma eficácia maior, terá de 5% a 10% de toda a área plantada na Bahia. Nos demais materiais GM e nas áreas de refúgio (que serão de 20%), os produtores terão que complementar seu controle com inseticidas químicos, biológicos e com insetos benéficos (inimigos naturais). A grande preocupação dos produtores de algodão, além de lagartas, é com o bicudo do algodoeiro. Este também ocasionou sérios prejuízos na safra 2012/13. Já nas lavouras de soja da região, devido ao clima seco e quente, as infestações iniciais com a helicoverpa foram altas. Os produtores, consultores e gerentes estavam preparados e iniciaram mais cedo o controle. Com isto, a eficiência nesta safra melhorou muito.

Em meados de janeiro estávamos enfrentando um novo pico da praga, devido aos 20 dias de clima seco e quente que ocorrerram no período. Na cultura da soja, um fator que ajudou muitos agricultores foi a incorporação ou intensificação do controle biológico por meio de inseticidas à base de bactérias e outros à base de vírus. Principalmente à base de vírus vindos dos EUA e da Austrália, específicos para o gênero Heliothinae quando aplicado em soja com a presença da praga. A eficácia foi muito boa.

Estas novas ferramentas, uma grata surpresa da safra 2013/14, estão ajudando muito no controle da helicoverpa, e também ajudarão muito no manejo de resistência desta praga aos inseticidas químicos e às proteínas Bt. Quando aplicamos intensamente inseticidas biológicos e também a liberação em massa de vespinhas Trichograma, a pressão de lagartas no ambiente cai muito. O sistema reencontra o equilíbrio e começam a aparecer os insetos benéficos, que antes não estavam na lavoura. É a natureza agradecendo e respondendo de forma rápida.

Controle químico — Quanto aos químicos, ainda há poucas alternativas de controle. Os inseticidas mais utilizados ainda são as diamidas, o grupo químico mais eficiente registrado no Brasil. Outros grupos também têm alguma eficiência, porém a quantidade disponível no mercado é muito pequena e não atende a demanda que agora é nacional. O Brasil inteiro está com pressão média à alta desta praga. O problema está só começando, pois nas regiões da Bahia, Piauí, Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul e de outros estados, a soja está nos seu estágio inicial. Neste primeiro período, com a plantação de soja ainda aberta, fica muito mais fácil o seu controle. Mas na medida que cresce e fecha completamente a cobertura do solo, fica muito complicado. É nesta fase que os problemas começarão nas regiões ou fazendas com maior pressão da praga.

Nossa preocupação é com todas as pragas do sistema. A pressão muito forte nos últimos dias de dezembro e início de janeiro das pragas chamadas plusias e das spodopteras. Novamente os produtos disponíveis no mercado não têm tido muita eficiência e os produtores estão sofrendo com isto. A demora na aprovação e liberação de novas moléculas de químicos e de biológicos está afetando o Brasil todo. As opções são poucas e muito dispendiosas aos produtores. Inseticidas como o Benzoato de Emamectina, por exemplo, que foi divulgado sua liberação, ainda não está acessível. Falta normatizar alguns detalhes legais em nível federal (Ministério da Agricultura) e estadual (Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia). Este produto é muito eficiente para helicoverpa. Para as falsas-medideiras (plusias) e também para as spodopteras. Seu custo também é muito mais baixo. Porém, prevalece a burocracia e quem paga a conta é o produtor brasileiro.

Esperamos com ansiedade novas pesquisas da Embrapa e de outras instituições privadas para descobrirem mais opções eficazes no controle de pragas, principalmente em inseticidas biológicos à base de vírus, bactérias e fungos. Tudo isto demora e a praga é muito voraz. Já se alastrou e poderá causar muitos danos em nível de Brasil. Nas regiões mais quentes e secas, com menor presença de fungos naturais, como o Nomurea riley, estarão altamente susceptíveis aos ataques de pragas como as helicoverpas, spodopteras e plusias.

Enquanto isto, na Bahia contamos com as ferramentas que temos e estamos tentando fazer o melhor possível. A cada oito a dez dias se entra na lavoura com o controle de pragas, que não são poucas. Além de lagartas e bicudo, há pressão alta de percevejos e mosca branca, entre outras pestes também graves. Precisaremos de mais alternativas e implementar as técnicas constantes em nosso programa fitossanitário. Este programa nada mais é do que o Manejo Integrado de Pragas (MIP), utilizado de forma coletiva numa região. A falta de alternativas no mercado dificulta um MIP como a agricultura empresarial e de larga escala exige.

A pressão de pragas em clima tropical e, principalmente, em regiões como o Oeste da Bahia, que enfrenta seu terceiro ano consecutivo com temperaturas acima da média e chuvas 30% a 40% abaixo de sua média histórica, as coisas se complicam muito. Falar em MIP com poucas alternativas eficazes no mercado e num ambiente de altíssima pressão de pragas e baixa presença de inimigos naturais (em clima seco os insetos benéficos somem) fica meio complicado. Mas estamos, até então, nos dando bem. Com certeza, com ajudinha do clima doravante, e de Deus, teremos uma safra melhor que nos últimos dois anos.