Mecanização

 

Pneus agrícolas VIDA LONGA

A observação de uma série de cuidados na manutenção do pneu o levará a propiciar melhor rendimento da máquina que sustenta e ainda a durar muito mais tempo

Ulisses Giacomini Frantz, José Fernando Schlosser, Marcelo Silveira de Farias, do Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas (Nema), da Universidade Federal de Santa Maria/RS, e Alexandre Russini, Universidade Federal do Pampa/RS

Os pneus que equipam as máquinas agrícolas são encarregados de sustentar e possibilitar tração, sendo por isto, responsáveis por grande parte do desempenho destas máquinas, como tratores, colhedoras, pulverizadores. Portanto, devem ser tomados alguns cuidados antes, durante e após a sua utilização. Deve-se compreender em princípio que um aspecto importante para a utilização dos pneus é o cuidado para que a pressão interna seja adequada. Os valores de pressão a serem utilizados são recomendados pelos fabricantes, principalmente levando em conta a carga dinâmica sobre eles, o tipo de pneu, o número de lonas e a velocidade de trabalho.

Há várias vantagens da utilização da pressão interna correta, como o melhor desempenho em tração do trator nas operações, maior flutuação das colhedoras e pulverizadores e menores níveis de vibração, em geral. No que se refere ao pneu, obtém-se um aumento da vida útil, proporcionado pelo menor estresse que a carcaça recebe. A pressão adequada proporciona que se mantenha a flexibilidade para a qual o mesmo foi projetado.

Quando a pressão for a adequada, a carga estará mais bem distribuída, a deflexão será ideal e as condições de trabalho mais próximas àquelas para as quais o pneu foi projetado. Como recomendação básica, indica-se a necessidade de verificar constantemente a pressão dos pneus, usando como referência a pressão indicada pelo fabricante, considerando a carga a que o pneu está submetido. Outro cuidado importante é manter as válvulas de verificação de pressão em bom estado e protegidas.

Capacidade de carga — A carga que um determinado pneu pode suportar é função de sua pressão interna, e é definida como capacidade de carga. Antigamente o número de lonas do pneu era o índice que determinava a carga que este podia suportar. Esta capacidade aumenta conforme aumenta a pressão interna do pneu, porém há um limite que não deve ser excedido. Outro fator importante diz respeito à capacidade do solo em suportar esta carga, sendo que muitas vezes faz-se necessário reduzi-la, ao mesmo tempo em que se abaixa a pressão interna, para que o pneu possa tomar a forma para a qual foi projetado. A pressão interna do pneu não deve ultrapassar a pressão que o solo pode admitir, sob pena de ocorrer demasiado recalque (penetração do pneu) e compactação do solo.

A partir disso, conclui-se que a capacidade de carga de um pneu está diretamente relacionada com as suas dimensões, forma de construção e pressão interna e características e condição do solo agrícola. Para facilitar o entendimento, tanto por parte de técnicos da área como de produtores, cada fabricante apresenta um quadro de equivalências, onde define a carga (massa) que o pneu pode suportar em função da pressão interna, número de lonas e dimensão do pneu. Para consultar estas tabelas, basta recorrer às informações técnicas dos fabricantes.

Duplagem — Com o objetivo de aumentar a eficiência em tração, reduzir a compactação do solo e maximizar o aproveitamento da potência, um recurso bastante útil é o de utilizar rodados duplos. Esta prática é recomendada para situações de grande esforço de tração e quando se deseja incrementar a capacidade de flutuação dos pneus. Dependendo da região, esta prática pode ser chamada de duplagem ou filipagem e surge como uma alternativa bastante viável para a resolução dos problemas mencionados. Os pneus "duplos" podem ser uma opção para aumentar a capacidade de transporte, pois permitem utilizar mais peso no trator. E disto decorre mais tração e ainda reduz a compactação do solo ao distribuir melhor o peso do trator sobre uma superfície de contato maior.

Medição do patinamento — O patinamento dos pneus motrizes em operação pode ser calculado a campo, por meio de métodos bastante simples. Podese utilizar como base o número de voltas da roda motriz ou uma distância fixa. Em ambos os métodos há que se cuidar que o local da medição seja representativo do solo e condição que se deseja expresse este índice, e que a marcha selecionada seja aquela que se vai utilizar na operação. O primeiro método, que utiliza como base um determinado número de voltas, pode ser realizado por meios dos seguintes passos:

Para aumentar a eficiência em tração, reduzir a compactação do solo e maximizar o aproveitamento da potência, um recurso bastante utilizado é o rodado duplo, recomendado para grandes esforços

1) Fazer uma marca com tinta ou giz no pneu do trator, de preferência próximo à válvula, para servir como referência.

2) Percorrer com o trator em vazio, isto é, sem desenvolver esforço, uma distância correspondente a dez voltas de uma das rodas motrizes, marcando no terreno com um par de balizas ou estacas as extremidades deste trajeto.

3) Medir a distância e considerá-la uma medida em vazio.

4) Percorrer outra vez o mesmo trajeto, porém com o trator em condição de trabalho, medindo a distância percorrida com carga, em dez voltas da roda ou rodas motrizes. O implemento nesta condição deve estar na condição de trabalho em que quer determinar o patinamento.

5) A segunda distância medida deve ser considerada como a medida com carga.

6) Realizar o cálculo do patinamento da seguinte maneira:

d0 = Distância percorrida sem carga, m

d1 = Distância percorrida com carga, m

O segundo método, que utiliza como base uma distância fixa, pode ser feito da seguinte forma:

1) Fazer no mínimo quatro marcas com tinta ou giz no pneu do trator, de preferência a distâncias iguais, correspondente a divisão em quatro partes da circunferência do pneu, para servir como referência.

2) Percorrer com o trator em vazio, isto é, sem desenvolver tração, uma distância predeterminada, que deve ser, aproximadamente, 50 metros. Contar o número de voltas completas e as frações, utilizando-se como referência as marcas realizadas no pneu.

3) Percorrer outra vez o mesmo trajeto, porém com o trator em condição de trabalho, medindo o número de voltas e as frações, com o implemento na condição de trabalho em que se quer determinar o patinamento.

4) Realizar o cálculo do patinamento da seguinte maneira:

P (%) = Patinamento

r0 = Rotações da roda sem carga
r1 = Rotações da roda com carga

O primeiro método é mais preciso e mais utilizado, o segundo é recomendado quando não houver a possibilidade de contar- se com uma trena. Em todas as operações deve-se buscar atingir valores de patinamento ao redor de 15% a 20%, faixa onde se costuma encontrar a máxima eficiência de tração em solos agrícolas. Quanto à lastragem do trator, se o patinamento for maior que 20%, devem-se colocar lastros de água ou metálicos. No caso do patinamento ser inferior a 15%, devese retirá-los.

Durabilidade — Para aumentar a durabilidade dos pneus, o usuário deve tomar vários cuidados. Uma das mais importantes práticas para preservar a vida útil é cuidar da montagem e desmontagem. Na desmontagem deve-se cuidar para que as ferramentas não danifiquem o talão e a superfície de montagem que fica aderida ao aro. Pequenos rasgos nesta borracha se incrementarão durante o uso e nos pneus sem câmara farão com que se perca pressão interna.

Outro cuidado que deve transformar- se em costume entre os usuários é a verificação da pressão interna com certa frequência. Na verdade a pressão interna deveria ser alterada para cada operação, em função da transferência de peso e da exigência em tração. No entanto, se o usuário do pneu cuidar de verificar a pressão pelo menos uma vez ao mês, já se obteria qualidade e prolongamento da vida útil dos pneus. As pressões excessivas provocam rachaduras nos pneus, maior patinamento e menor capacidade de tração e decorrente disto o desgaste acelerado. As pressões excessivamente baixas também provocam rachaduras nos pneus, pois promovem muita histerese da borracha, chegando a quebrar as camadas internas e externas. A pressão baixa em excesso também pode fazer com que o pneu gire sobre o aro, danificando a câmara e a sua válvula.

Outros cuidados — Muitos objetos que estejam sobre o solo podem danificar os pneus ou até mesmo inutilizálos. Normalmente, nas imediações de pavilhões de armazenamento de máquinas e/ou oficinas são encontrados objetos metálicos, como, por exemplo, parafusos, pregos, partes de implementos, que, pela pressão do pneu exercida ao passar por cima destes, penetram ou cortam a carcaça. O ideal é que se tenha um local apropriado para o descarte correto desses objetos metálicos e, periodicamente, recomenda-se que seja realizada uma vistoria no pátio de manobras e arredores a fim de recolher qualquer elemento que possa causar danos aos pneus.

Outro cuidado que pode ser tomado para aumentar a durabilidade dos pneus é com respeito ao armazenamento, quando estiverem fora de operação. Quando se deseja armazenar as máquinas agrícolas por um longo período de tempo, recomenda-se inicialmente lavar toda a máquina, dando-se atenção também aos rodados. Partes de solo, fertilizantes e resíduos de defensivos aderidos aos aros metálicos, principalmente na parte que fica entre o talão e o aro, provocam a oxidação, sendo que o processo continuado de oxidação, quando não verificado a tempo, atinge a parte interna do aro, diminuindo de forma considerável a vida útil dos pneus e aros.

Um aspecto importante para a utilização dos pneus é o cuidado para que a pressão interna seja a adequada, e os valores desta pressão são recomendados pelos fabricantes

Nos casos em que a máquina fique muito tempo estacionada (entressafra), recomenda-se suspender a máquina com auxilio de um macaco hidráulico e apoiála sobre suportes metálicos ou calços de madeira em cada um dos eixos. Esse procedimento visa diminuir a pressão exercida sobre os rodados em função do próprio peso da máquina, que com o passar do tempo provoca deformações irreversíveis aos pneus. Quando o produtor não dispõe desse recurso, recomenda-se a movimentação da máquina com certa frequência para que ocorra a mudança de posição do rodado em relação ao solo. Para o caso de que os pneus sejam armazenados fora do aro, deve-se evitar deixá-los expostos aos fatores climáticos, colocando-os à sombra e protegidos da chuva. Enfim, é possível estabelecer um bom gerenciamento no uso dos pneus agrícolas de modo a conservá-los, prolongando a sua vida útil.