Conjuntura

 

Padrão de vida e BEM-ESTAR no campo

A combinação de tecnologia na lavoura, assistência técnica, geração de valor adicionado dentro da propriedade, educação e o valor das propriedades respondem por 30% do nível de vida de quem vive no campo

Mauro de Rezende Lopes, pesquisador do Centro de Estudos Agrícolas da FGV/RJ, [email protected]

Quando visitamos o campo, nas novas fronteiras agrícolas, encontramos municípios que têm elevados padrões de vida. Esses padrões de vida são propiciados pelo rendimento econômico das explorações agropecuárias, a partir de tecnologia de ponta. Já a qualidade de vida depende do volume e da qualidade do capital social nos municípios do agro brasileiro. Quais as razões para que os habitantes das cidades e do campo desfrutem dessas muito boas condições de vida nos longínquos rincões do País? Visitemos, em Mato Grosso, Sapezal, Primavera do Leste, Campos de Júlio, Lucas do Rio Verde, Alto Garças, Nova Mutum, Campo Novo dos Parecis, Alto Taquari; no Mato Grosso do Sul, destacam-se Alcinópolis, Costa Rica, Chapadão do Sul, Cassilândia, Água Clara, Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Brasilândia e São Gabriel do Oeste. Em Goiás, os municípios que mais se destacam são Chapadão do Céu, Porteirão, Joviânia, Britânia, Aruanã, São Simão e Montividiu.

Lucas do Rio Verde/MT é um dos muitos exemplos de uma cidade que impacta positivamente pelos elevados níveis de bem-estar dos habitantes, uma consequência da pujança das lavouras

Ao passarmos pelas cidades, somos impactados positivamente por elevados níveis de bem-estar dos habitantes locais. Nas fronteiras agrícolas, na maioria dos municípios, encontramos pontos em comum entre todos eles: a competência dos produtores em usar a tecnologia vem associada a elevados padrões de bem-estar no campo e nas cidades dos municípios. Não podemos escapar da evidência dos campos: a tecnologia afeta o padrão de vida nos campos e o capital social eleva a autoestima dos produtores, que é a mola mestra para a disposição de fazer novos investimentos para a adoção de novas tecnologias. Esse é um fenômeno característico das novas fronteiras agrícolas.

Em fronteiras agrícolas como o Oeste Baiano há uma relação direta entre a competência dos produtores em usar a tecnologia e os elevados padrões de bem-estar no campo e nas cidades

Agora, temos que nos perguntar: para onde caminha a agricultura brasileira? Para onde ela caminhar, vamos ver elevados padrões de vida no campo e nas cidades? Constatamos que a tecnologia e a produtividade afetam a produção e as condições de vida nos municípios das nossas novas fronteiras.

O irrefreável avanço tecnológico – uma obsessão dos produtores na fronteira – caracteriza a ocupação da agricultura nas novas áreas de conquista territorial. Tecnologias biológicas (sementes, defensivos e fertilizantes), combinada com tecnologias mecânicas (tratores e colheitadeiras), somando-se a isso a agricultura de precisão, geram renda para o acesso aos meios de produção (terra e capital fundiário). E com assistência técnica tudo contribui para elevados padrões de valor adicionado na propriedade.

Nossas pesquisas mostram que a combinação de tecnologia, assistência técnica, geração de valor adicionado dentro da propriedade, educação e o valor das propriedades (valor acumulado em decorrência de decisões corretas feitas no passado) responde por pouco mais de 30% do nível de vida no campo. Isso para o Brasil como um todo. Se tomássemos só os municípios selecionados anteriormente, na fronteira agrícola, talvez este percentual fosse muito, muito mais elevado. Nas fronteiras novas, esses resultados da forte associação de competência técnica e gerencial com elevados padrões nas condições de vida no campo são maiores ainda.

Nossas pesquisas indicam que há um grau elevado de associação de desempenho econômico e nível de bem-estar no campo. Uma coisa está associada à outra. Cerca de 75% do desempenho social dos municípios é explicado pelo desempenho econômico. E uma grande parte do desempenho econômico provém de uma sólida base social no município. E muito dessa base social (educação e saúde) foi construída pelos produtores e uma administração fiscal responsável no município – os produtores investiram recursos próprios no capital social e fiscalizaram os usos de recursos públicos.

Enfatizemos o fato de que esses fatores tecnológicos e econômicos estão indissociavelmente ligados nas fronteiras agrícolas. O resultado dessa associação é um "capital social" com elevada renda disponível no domicílio, elevados padrões de alfabetização, altos níveis de desempenho da educação básica, acesso à saúde. Nessas regiões há baixos níveis de pobreza absoluta, de razão de dependência (soma de idosos e crianças em relação à população ativa) e de baixa de taxa de envelhecimento (número de idosos em relação à população total). Essas sólidas "bases sociais" são financiadas pela atividade econômica assentada em tecnologia de ponta, na vanguarda da agricultura do Brasil e do mundo. Mas não esqueçamos: a tecnologia e os lucros não são um fim em si mesmo. O argumento da agricultura é que a tecnologia conduz ao crescimento e ao desenvolvimento.

Nas cidades e no campo há uma classe empresarial jovem, empreendedora e muito bem treinada, tanto em tecnologia quanto em gestão, para elevar os rendimentos físicos e econômicos a níveis até maiores do que em várias regiões do mundo com agriculturas de porte da agricultura brasileira. Eles colocam o Brasil na vanguarda da agricultura do planeta.

E agora, e o futuro? Para onde caminha a agricultura nos próximos 20 anos? Nossos estudos indicam que a ocupação de novas áreas deverá se processar de acordo com critérios como terra barata, zoneamento agroecológico indicativo de aptidão dos solos e variedades adequadas, capital social mínimo, infraestrutura de transporte e qualidade da gestão fiscal. Isso é o que presenciamos no campo hoje e explica a marcha da ocupação territorial no Brasil.

Bem, agora é a vez da infraestrutura, que desenhará uma nova agricultura. Se os programas do Governo forem implantados, a infraestrutura, a restauração e a duplicação de rodovias, a contratação de obras rodoviárias e as concessões rodoviárias, os asfaltamentos – tudo isso combinado com os novos portos do Norte e do Nordeste – poderão, em 20 ou 30 anos, mudar a face da agricultura. Tudo isso é uma tarefa para toda uma ou duas gerações. Se essas rodovias forem implantadas, a agricultura terá uma "cara" diferentes daquela que conhecemos hoje.

Terra cara — Nossos levantamentos para responder à pergunta para onde caminha a agricultura (e a agroindústria) indicam que há ainda muita terra disponível na Bahia, no Mato Grosso e em Goiás, mas a terra nesses estados está ficando cada vez mais cara, uma vez que a tecnologia de ponta capitaliza seus ganhos no valor da terra – que é o fator de produção mais escasso onde há infraestrutura. Há boas condições de explorar as terras dos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia (o Mapitoba). Todas essas áreas já estão sendo ocupadas. Mas logo aparecerão novas áreas de cultivo e pastoreio sendo abertas em todas as direções no Brasil.

Avanços a partir de Balsas/MA e Imperatriz/MA em direção ao Piauí já são uma realidade (como em Uruçuí/PI). Agora, a abertura de novas fronteiras segue a rodovia que vai de Cocos/BA até o Porto de Itaqui (BR-135, Maranhão). Outro eixo é a rodovia que vai de Brasília a Belém, a BR-010. Para Belém vai ainda a rodovia de Barra do Garças/ MT a Belém (BR-158), que recebe o fluxo da rodovia que vem de Goiânia até o entroncamento e Marabá/PA (a BR- 153). Essa é a marcha da novíssima fronteira agrícola do nosso País. Não podemos deixar de registrar o estoque e a imensidão das terras em processo de conquista no País hoje.

E nos próximos 20 anos? Vamos assistir a ocupação das bacias dos rios Xingu e Tapajós, a partir de Guarantã do Norte/MT em direção a Altamira/PA e Marabá/PA. E, agora, os produtores que buscam novas terras e estão voltando suas vistas para o Acre (no prosseguimento da rodovia Cuiabá-Porto Velho, BR-364), com o asfaltamento da BR- 317, que liga Rio Branco a Assis Brasil/ AC e, a partir dali, pode-se atingir o Porto de Ilo, no Peru. Os agricultores, se tiverem mínimas condições de transporte, vão chegar lá. É só uma questão de tempo. Estamos prestes a presenciar, mais cedo do que pensamos, novos saltos de abertura de novas fronteiras agrícolas.