Glauber em Campo

 

UMA SAFRA DE MUITO TRABALHO E CUSTO

GLAUBER SILVEIRA

Há muitos anos eu não via produtores tão preocupados e vigilantes com uma safra. Se antes o clima era a principal preocupação nacional, afinal ele é um fator determinante da produtividade, nesta safra todos os olhos e atenções estavam voltados para as vistorias das lavouras. Essas vistorias, que antes eram semanais, passaram a ser diárias na busca de lagartas, seja a helicoverpa ou qualquer outra. O que parece é que todas as lagartas se tornaram mais agressivas.

Por que as lagartas, que antes tinham um simples manejo, passaram a ter um controle mais difícil, sendo necessário um treinamento adequado na aplicação, mudanças de bicos e até mesmo a mistura de produtos, ainda não sabemos com certeza. Mas seja porque foram retirados do mercado produtos de contato de excelente desempenho, como o endossulfam e o metamidofós, seja pela resistência das lagartas aos produtos disponíveis, pela seleção das resistentes, até o final da safra é certo que a Embrapa terá essas respostas.

Mas, uma coisa é incontestável, o fim do ano passado, seja o Natal ou o Ano-Novo, sem dúvida foi diferente. Muitos produtores que viajavam, deixando suas produções aos cuidados dos técnicos, abriram mão das férias e passaram a bater pano e a acompanhar cada aplicação de inseticida em suas lavouras. A incidência de lagartas foi e está sendo muito grande, agricultores se viram enlouquecidos em busca do melhor produto ou da melhor mistura para fazer o controle e a quantidade de aplicações dobrou ou triplicou.

Se, por um lado, o clima tem ajudado para que as lavouras estejam em boas condições, por outro a garantia de rentabilidade vai para o ralo, na safra com o maior custo da história. Nos defensivos agrícolas, segundo a Conab, tivemos um incremento de preço que supera 80% na média nacional, sendo que na Bahia esse aumento de custo chega a ser, até agora, de 196%, e de 171% no Mato Grosso. Sem falar num custeio 31% maior que na safra anterior, que já foi cara.

Com despesas mais altas e preços mais baixos, produtores se esforçam e ficam vigilantes para obter o máximo de produção possível, como uma maneira de evitar prejuízos amargos. Além do que, em janeiro a vilã ferrugem surge agressiva em virtude das chuvas que se intensificam. E pode até parecer estranho este chororô, uma vez que o Governo comemora uma possibilidade de supersafra, mas a verdade é que nós, produtores, estamos sofrendo a pressão de uma safra pra lá de complicada.

A Conab divulgou os números da futura safra brasileira de soja, algo em torno de 90 milhões de toneladas. E que devemos nos tornar o maior produtor mundial da oleaginosa, superando os Estados Unidos, que produziram 88,66 milhões de toneladas. Mas estes números podem sofrer mudanças. Acredito que talvez ainda não seja nesta safra que sejamos os maiores produtores de soja mundiais. E até arriscaria números brasileiros abaixo de 88 milhões de toneladas, mas isto não importa, para nós, produtores, o que interessa é ter renda.

O mês de janeiro é importantíssimo para a consolidação de nossa produtividade, e fora alguns problemas na Bahia, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Paraná de forma regionalizada, a safra vai se consolidando e, se o clima ajudar, conseguiremos colher sem maiores problemas – é o que espero. Com isto, teremos uma produção maior, com 5 milhões a 8 milhões de toneladas a mais de soja, produção que terá de sair pelas mesmas estradas, mesmos portos. Infelizmente, não tivemos mudanças positivas no quesito logística. Espero que o que previmos, um caos maior ainda do que do ano anterior, não aconteça.

E, como mencionei, quando sentamos com o Governo para conversar, fica estranho, afinal, ele comemora os números da supersafra, e nós reclamamos de superproblemas, seja de infraestrutura, já que vai faltar armazém, estradas que estão piores, o porto que não recebeu cobertura, a ferrovia que é a mesma, os produtos de defesa perdendo eficiência, os custos que têm seu pico de alta, etc. Mas, como se diz, a vida continua, e esperamos que junto com as promessas de campanha venham às realizações.

Engenheiro agrônomo, produtor e presidente da Aprosoja Brasil