Na Hora H

 

O AGRONEGÓCIO BRASILEIRO E O QUE DELE ENXERGAMOS

ALYSSON PAOLINELLI

Vejo que o agronegócio brasileiro agora, e até que enfim, começa a ser mais bem visto e avaliado em nosso País. Por parte do Governo, depois de longos anos de completo abandono, o agronegócio começa a ser reconhecido. Até porque tem sido ele o grande garantidor de nossa economia e é o responsável por afastar o Brasil das permanentes crises internacionais. Tem gerado anualmente US$ 100 bilhões e só provoca importações para atender a sua produção, desembolso que não passa de US$ 15 bilhões. Isto dá ao País um saldo líquido em torno de US$ 85 bilhões por ano (nada desprezível a qualquer economia).

Este reconhecimento do Governo não se pode afirmar que seja por "amor à causa", pois os anúncios de apoio têm sido muitos, mas na prática a coisa ainda não está funcionando como se esperava. A própria situação do nosso Ministério da Agricultura em relação aos outros três que dele foram retirados é quase injuriosa. Em relação aos outros ministérios, chega a ser ridícula a sua posição. Não é só no Orçamento da União, no qual os recursos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) quase nem aparecem, fora os cortes que ainda recebe.

As suas tarefas e obrigações estão relegadas e, se continuarem assim, cuidado que mataremos a nossa "galinha dos ovos de ouro": garantir um mercado internacional funcionando e bem; um perfeito sistema de geração e transferência de tecnologia; um sistema de defesa agropecuária exemplar; um sistema de abastecimento confiável que seja capaz de atender ao mercado interno sem as convulsões que aí estão; um sistema de planejamento estratégico que tínhamos e que abandonamos; um sistema de políticas públicas capazes de concorrer e manter competitividade com os países concorrente não é fácil, até por que não temos mais praticamente nenhuma política agrícola pública. O pior desta história toda é que o nosso Mapa hoje passou a ser apenas uma moeda de troca no jogo do xadrez político. O que mais podemos esperar?

Por parte da população brasileira que antes, influenciada por uma mídia distorcida - especialmente dependente de uma ideologia caolha -, não só enxergava um lado ruim como fazia questão de não ver que, a partir da década de 1970, o Brasil passou a ser outro e foi capaz de criar a nossa primeira agricultura tropical, produtiva, competitiva e, sobretudo, a mais sustentável que se conhece no mundo de hoje. Este tem sido um assunto que ocupa grande espaço nas discussões do nosso fórum do futuro, pois entendemos que ter uma agricultura forte, sem apoio da população, não é fácil. Especialmente à medida que a nossa democracia vá se aperfeiçoando, como todos esperam. A população, em seu pleno conhecimento, é quem deverá definir e mesmo exigir o que é prioridade para o País.

Vejo agora com satisfação que, embora totalmente distorcida, a nossa área política e especialmente os "candidatos" começam a "descobrir" onde está o mapa da mina em nosso País. O agronegócio passou a ter vez. Realmente, não é difícil de enxergar o que significa o setor rural no Brasil de hoje. Esperamos que eles vejam o que foi feito da década de 1970 para cá. E que saibam distinguir o que foi bom e o que ajudou o Brasil a crescer. São nítidas as ações, as políticas públicas, os planejamentos estratégicos, hoje já esquecidos, os programas, projetos e medidas que mudaram este País. Uma coisa é certa, o produtor brasileiro não é mais bobo. O Jeca Tatu evoluiu e hoje sabe distinguir bem o que é certo e o que é errado. Não tentem enganá-lo, pois, ao brincar com fogo, na maioria das vezes, muita gente sai queimada.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura