O Segredo de Quem Faz

 

Força jovem e FEMININA no campo

Denise Saueressig
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Ainda criança, Fernanda Viacelli Falcão teve certeza da vocação para a agricultura. Cresceu ao lado do pai na fazenda e sabia que adorava aquela realidade. Agora, aos 32 anos, formada em Agronomia, pósgraduada em Gestão do Agronegócio e concluindo mestrado em Produção e Tecnologia de Sementes, ela comanda diferentes áreas da empresa administrada pela família, a Sementes Falcão, com sede em Passo Fundo/RS. Com a rotina preenchida pelos compromissos que o campo demanda, ela conta como faz para manter os funcionários nas fazendas, explica como funciona o projeto de conservação do solo mantido pela empresa e diz que um dos seus grandes desafios como produtora rural é conseguir conciliar o trabalho com a vida pessoal. "A lavoura não tem horário, não pode esperar, e eu gosto de acompanhar tudo de perto, porque acho que realmente faz a diferença estar presente", declara.

A Granja — Como iniciou a ligação da sua família com o meio rural?

Fernanda Viacelli Falcão — Meu avô Manuel Antônio Falcão veio de Portugal em 1947, aos 13 anos, e desembarcou em São Paulo. Para ajudar a família, ele vendia palha de aço de casa em casa. Pouco depois, com 15 anos, passou a vender cortes de casimira e, em 1955, chegou a Passo Fundo/RS, onde casou com minha avó Clecy Busato Falcão. O próximo negócio foi a venda de carros, que deu origem à Auto Agrícola, hoje revenda de caminhões. Em 1967 meu avô visitou o município de Poxoréu, em Mato Grosso, e trocou 3.300 hectares de terra por um automóvel modelo DKW, e foi assim que iniciou no ramo agrícola. Esta área foi vendida e adquirida a fazenda que hoje fica em Primavera do Leste/MT, com 3.800 hectares. Em 1970, ele adquiriu terras no município de Sarandi/RS e, em 1981, em Soledade/RS, onde hoje mantém criação de gado e de cavalos crioulos. Em 1981, meu pai, Humberto Falcão, se formou em Agronomia e, em 1986, teve início a Sementes Falcão, em Sarandi, com produção de sementes de soja, trigo e aveia branca. Com a necessidade de transformar a fazenda em uma empresa e organizar os negócios, minha mãe acabou deixando a profissão de professora, se especializou em Vendas e Marketing e, há 25 anos, trabalha na empresa como gerente administrativa. Um dos meus irmãos, Henrique, é administrador e é gerente comercial da empresa.

A Granja — Como foi a sua decisão de trabalhar no campo?

Fernanda — Desde muito pequena ia para a fazenda. Minha mãe trabalhava e muitas vezes não podia ficar comigo e, por isso, meu pai me levava com ele. Sempre dizia que queria ser engenheira agrônoma. Quando estava para decidir realmente e falei para minha família que iria fazer Agronomia, meu pai de certa forma se surpreendeu e lembro que ele me disse que eu não precisava ser agrônoma só porque ele era, ou algo assim. Mas durante todo o tempo jamais imaginei fazer outra coisa. Eu amava o campo. Me formei em 2006 na Universidade de Passo Fundo e sempre me dediquei à nossa empresa.

A Granja — Você considera que as mulheres que trabalham no campo ainda enfrentam algum tipo de preconceito?

Fernanda — Quando entrei na faculdade éramos cinco mulheres em uma turma de 52 alunos. Na época existiam muito menos mulheres nas salas de Agronomia se comparamos a hoje. É claro que existia e ainda existe preconceito. Acho que, em relação àquelas que trabalham como pesquisadoras, isso quase não acontece, mas quando você sobe num trator ou fala que a regulagem de uma máquina não está certa, às vezes você enfrenta olhares de desconfiança. Mas esse sentimento vai até o momento em que você mostra que tem capacidade e conhecimento para fazer as coisas. No entanto, acredito que as mulheres demoram mais tempo para conseguir mostrar a sua capacidade e conquistar seu espaço.

A Granja — E quando você começou a trabalhar na fazenda, como foi a recepção dos funcionários?

Fernanda — Essa era a grande preocupação quando me formei. Como os funcionários iriam me receber? Uma mulher aqui? Mas, assim que terminei a faculdade, meu pai fez uma reunião com todos os colaboradores e disse que a partir daquele dia eu iria ter a responsabilidade na área técnica e que eles poderiam contar com meu trabalho. Alguns deles me conheciam desde pequena e sempre houve muito respeito. Quando assumi, falei que estava lá não para mandar, mas para aprender, afinal a experiência de alguns deles era muito maior que a minha. A recepção foi muito boa.

A Granja — E quais são os seus outros desafios por ser mulher e trabalhar no campo?

Fernanda — Acho que a força física é um desafio natural, porque tem coisas que a gente realmente não tem força para fazer. Mas independente da minha profissão, acho que as mulheres estão trabalhando tanto ou mais do que os homens e nem sempre os salários se equivalem. Além disso, continuamos sendo mulheres e tendo que cuidar da casa, dos filhos e do marido. No meu caso, é difícil conciliar o trabalho com a vida pessoal. Meu pai viaja mais para o Mato Grosso, mas eu cuido da fazenda no Rio Grande do Sul. O nosso escritório é em Passo Fundo, a fazenda em Sarandi, e eu moro em Erechim, com o meu noivo. Essa realidade faz com que eu fique um bom tempo na estrada. São 140 quilômetros de ida e volta de Erechim até a fazenda, sendo que 80 quilômetros são de estrada de chão. Desde novembro, se eu somar todos os dias, acho que fiquei só uma semana em Erechim. Começo a trabalhar de manhã bem cedo e, às vezes, vou até às 9 ou 10 horas da noite, principalmente em época de colheita e de plantio. Lavoura não tem horário, não pode esperar, e eu acompanho todo o processo porque acho que faz a diferença estar presente para que as coisas saiam do jeito que eu quero. É um ritmo acelerado. Ainda não tenho filhos e tenho consciência de que será preciso desacelerar quando os filhos vierem. Mas hoje eu busco organização e planejamento para conseguir dar conta de tudo, porque o meu trabalho me dá uma satisfação enorme.

A Granja — Quais são as suas funções nos negócios da família?

Fernanda — A administração da empresa fica em Passo Fundo/RS, junto à Auto Agrícola. A unidade de Sarandi é responsável pela produção de sementes certificadas de soja, trigo e aveia branca em 700 hectares, e a unidade de Primavera do Leste é focada na produção de grãos de soja e milho, em 3.800 hectares. Desde que me formei, assumi o setor técnico e de produção na unidade em Sarandi. Sou responsável pelo planejamento e acompanhamento de todas as etapas de produção, orçamentos, compra de insumos e custos de produção, responsável técnica pela produção de sementes, incluindo toda parte burocrática, e também o trabalho de conservação, fertilidade do solo e agricultura de precisão.

A Granja — Como funciona o trabalho de conservação e fertilidade do solo?

Fernanda — Quando meu pai terminou a faculdade, em 1981, época do sistema convencional, onde as terras eram aradas e gradeadas, a grande preocupação dele era o controle da erosão. Com isso, em 1982 ele iniciou o plantio direto, que trouxe benefícios indiscutíveis. Na nossa região temos áreas com declive acentuado, ao contrário do Mato Grosso, onde as áreas são planas. E com o plantio direto houve a retirada dos antigos terraços do sistema convencional. Entretanto, com estas declividades, como seria possível, apenas com a palha, manejar a enxurrada e controlar a erosão, principalmente nos talvegues, que é o local onde as águas se encontram? Era inadmissível deixar voltar o processo erosivo. Em 1997 surgiu,em parceria com a Embrapa Trigo, Emater/RS, Universidade Federal de Viçosa/MG e Sementes Falcão, um trabalho inédito de Terraceamento Base Larga em Nível, que através do software Terraço for Windows, hoje chamado Terraço 4.1, calculase o terraço de forma precisa e de acordo com a necessidade da área em questão, com um excelente espaçamento entre eles, que varia de acordo com a declividade do terreno, onde é possível semear e colher sem problemas. É como se fosse uma microbacia dentro da propriedade, e com a excelente taxa de infiltração de água que temos no solo, toda água da chuva fica armazenada ali, sem escorrimento, favorecendo os anos de estiagem e não contaminando as nascentes, pois não há perdas. Esse sistema, aliado ao plantio direto e a outras práticas corretas de manejo, reduziu drasticamente a ação negativa das águas da chuva. Em 2004 eu precisava fazer um trabalho de experimentação na faculdade e foi aí que iniciamos com a agricultura de precisão nas áreas do Rio Grande do Sul. Fizemos um trabalho de amostragem de solo extremamente detalhado e preciso, em três camadas de profundidade e grids a cada dois hectares. Com os resultados obtidos percebemos que estávamos com a fertilidade do solo excelente, mesmo nas camadas um pouco mais profundas. Avaliando criteriosamente cada nutriente e cada mapa de fertilidade, conseguimos ter uma economia significativa de fertilizantes nas nossas áreas. Esse trabalho se tornou uma referência e, seguidamente, recebemos visitas de estudantes e pesquisadores em busca de informações sobre o projeto.

A Granja — Manter mão de obra qualificada no campo é um grande desafio dos produtores em todo o Brasil. Como vocês fazem para conseguir reter os colaboradores?

Fernanda — Uma das formas que encontramos é envolver as esposas dos funcionários. Por exemplo, há pouco tempo contratamos um técnico agrícola e a esposa dele passou a trabalhar conosco no escritório da fazenda, cuidando da parte administrativa. Entendemos que precisamos estimular as famílias, ainda mais quando são pessoas jovens, com perspectiva de crescimento. Hoje são em torno de 30 funcionários nas duas fazendas e no escritório, e alguns estão conosco há 30 anos, outros há 10, 15 anos. Para os que moram na fazenda, mantemos uma boa estrutura, cada casa tem a sua horta, e eles não precisam pagar aluguel, água ou luz. As crianças que precisam estudar também têm acesso facilitado à escola. Além disso, procuramos estar sempre em contato e conversando com cada um deles. É importante que o funcionário veja que a empresa está crescendo, que ele saiba que existe perspectiva de crescimento e que se sinta valorizado. Alguns colaboradores me procuram inclusive para conversar sobre dificuldades pessoais e, nesses casos, acabo sendo um pouco conselheira. Mas também tem o outro lado: nem tudo sempre sai como você quer e, quando é preciso, sei ser firme e cobrar. Mas sempre acho que posso ser firme sem ser grosseira.

A Granja — Quais são as perspectivas para a safra 2013/2014?

Fernanda — Como todo início de safra, as perspectivas são muito boas. Sempre fizemos um bom planejamento, buscamos utilizar as melhores tecnologias e cuidar de todos os detalhes que possam influenciar na produtividade. Entretanto, dependemos de algo que não temos controle: o clima. E este é imprevisível. Nos últimos anos, com as boas rentabilidades, expandimos a nossa unidade em Sarandi, adquirimos colhedoras de fluxo axial, um novo pulverizador e semeadoras mais modernas. Em março teremos o nosso Dia de Campo – Sementes Energia e Vida, levando informação aos produtores. Nos últimos anos também conseguimos incrementar nossas produtividades. Há cinco anos, colhíamos em torno de 50 sacas de soja por hectare e, agora, a nossa média fica entre 60 e 70 sacas por hectare. Na última safra, mesmo com 30 dias de estiagem na lavoura gaúcha, alcançamos 63 sacas por hectare. Com exceção das variações climáticas, que não temos como controlar, buscamos sempre incrementar a tecnologia, com técnicas sustentáveis e sementes com maior potencial produtivo. Também cuidamos da parte de infraestrutura, mantendo armazéns próprios com capacidade para toda a colheita nos dois estados.

A Granja — Quais os planos para o futuro da empresa?

Fernanda — Para os próximos anos, temos planejamento de expansão, tanto em área plantada, quanto para novos negócios, mas mantemos os pés no chão. Não dá pra sair fazendo investimento só porque uma safra foi boa. Sabemos que a agricultura é cíclica e que, se não mantivermos uma boa reserva, podemos nos apertar lá na frente.