Eduardo Almeida Reis

 

FATOS

EDUARDO ALMEIDA REIS

Pelo início do maldito horário de verão, nossas TVs entrevistaram brasileiros lúcidos, que detestam o tal horário, e brasileiros idiotas, que dizem gostar dele. Apareceu na telinha um cavalheiro ligado às autoridades envolvidas na decretação do horário. Perguntado por que a Bahia não fora incluída na lista, disse ao repórter que ainda não sabia o motivo.

Repito: entrevistado na condição de funcionário público federal ligado às repartições responsáveis pelo horário, o beócio não sabia que a Bahia, por decisão do seu povo, já havia sido excluída no horário no final de 2012.

Na mesma semana muita gente festejou a redução dos números do trabalho infantil no Brasil. Tudo bem: criança foi feita para brincar e estudar, mas o assunto merece análise espichada. O horário de verão é o primeiro a exigir trabalho infantil no reajuste dos relógios eletrônicos.

Perdi a conta dos palavrões que cuspi na manhã de 20 de outubro tentando avançar uma hora nos relógios eletrônicos, aproveitando a oportunidade para acertar também os minutos. Nos relógios comuns é fácil, enquanto nos eletrônicos há que recorrer às crianças de, no máximo, oito anos, pela tarefa impossível para maiores de 40 anos, salvo quando têm doutorado em ciência da computação.

Conheci muita gente, mas muita gente mesmo, que trabalhou desde cedo. O diamantinense Antenor Horta calçou o seu primeiro sapato, usado, quando tinha sete anos e já trabalhava numa farmácia. Passou dos 90 rico, viajado, formado pela Universidade da Vida, e me perguntava: "Será que existe alguém com 94 anos construindo uma casa de 400 metros quadrados?". Pois é: viúvo, com uma filha já encaminhada, construiu a casa para morar sozinho.

Aprendeu a montar a cavalo quando tinha 72 anos e se mudou de São Paulo para a fazenda que comprou perto de Belo Horizonte. Em Sampa, morando numa bela residência construída em terreno de 5 mil metros quadrados, bairro de Santo Amaro, conheceu o problema de chegar em casa por volta das nove da noite, piscar o farol do carro para o porteiro responder, com uma lanterna, se havia ladrões nas imediações do terreno murado e eletrificado, fazer a volta no fim do quarteirão e, só então, acabar de chegar, como se diz na roça. Vendeu a mansão e comprou a fazenda mineira. Hoje, infelizmente, a sensação de segurança que havia na roça brasileira também desapareceu.

Resta-nos curtir a facilidade de estacionamento para nossos carros e o fato de não perdermos duas horas no trânsito para chegar ao local de trabalho. Nas minhas roças, nunca levei mais que dez minutos, a pé, para pegar no serviço, salvo quando precisava visitar as invernadas numa fazenda vizinha, pouco mais que uma hora a cavalo. Mas Winston Churchill já dizia que nenhuma hora passada em cima de um cavalo é uma hora perdida.

No que diz respeito ao trabalho, adulto ou infantil, a verdade é uma só: há serviços incompatíveis com o ser humano de qualquer idade, dos oito aos oitenta, o que não impede que ainda sejam feitos até por crianças. Se tivessem casa e escola decentes, como pensar em crianças trabalhando?

O que temos visto no País inteiro são centenas de milhares de crianças, talvez milhões delas, nas escolas que todos conhecemos e/ou "trabalhando" como aviões do tráfico. A realidade é dura e o problema, complexo. Recentemente, por motivos que não vêm à baila, travei conhecimento com um nível de miséria que nunca supus existisse no Brasil, mesmo tendo morado na roça a vida inteira. Meus empregados e os dos vizinhos comiam, tinham casa, luz elétrica, salário no final do mês. Só não tiveram luz quando a sede da fazenda também não tinha, mas havia o salário, as galinhas, um porquinho de ceva e os melhores banheiros ecológicos inventados até hoje: as moitas das bananeiras. O que tenho visto, acredite o leitor d'A Granja, é de horrorizar.

O peão pantaneiro montava às duas da manhã, depois do quebra-torto (farofa de carne-seca e tereré, ou chimarrão frio), estourava três cavalos movido a guaraná em pó e rapadura, para terminar o dia de trabalho, por volta das quatro da tarde, com um belo churrasco que assava desde cedo, antes de voltar de caminhão para a sede da empresa rural.

Águas limpas, casas decentes, filhos na escolinha da fazenda, que nunca foi uma Sorbonne, mas era muito melhor do que a maioria das escolas municipais deste País. A miséria que tenho visto em cidades mineiras de porte médio, sem falar de violência, das brigas entre gangues e das mortes nas ruas por qualquer motivo, e até sem motivo algum, é indescritível. Mas não é tempo de falar de tristezas: festejemos 2014.