Plantio Direto

 

Viabilidade e vantagens do SPD em ARROZ irrigado por inundação

Engenheiro agrônomo, professor Dr. Amauri Nelson Beutler, da Universidade Federal do Pampa/Campus Itaqui/RS, [email protected]

A Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul lidera o ranking de municípios com a maior produção e produtividade de arroz por causa da irrigação por inundação e condições de solo e clima favoráveis à cultura, de acordo com a Sociedade Sul-Brasileira de Arroz Irrigado (Sosbai, 2012). Uruguaiana, Itaqui e Alegrete ocupam os três primeiros lugares, respectivamente, elegendo a região como maior produtora de arroz do Brasil. A produtividade do arroz irrigado aumenta anualmente em função de novas tecnologias, entre estas, desenvolvimento de cultivares mais produtivas, manejo adequado da água, de plantas daninhas, doenças e fertilizantes.

O primeiro grande entrave de arroz irrigado em SPD em terras que permanecem úmidas/alagadas grande parte do ano é a elevada quantidade de palha que permanece na superfície do solo após o cultivo

No entanto, em relação ao manejo do solo e da palha do arroz para o cultivo do ano seguinte, essencial para obtenção de altas produtividades, pouca evolução ocorreu ao longo dos anos, sendo o sistema de preparo convencional com arações e gradagens e o cultivo mínimo predominantes em quase sua totalidade na Fronteira Oeste (Instituto Rio Grandense do Arroz, Irga, 2013). No sistema de cultivo mínimo, denominado erroneamente de "plantio direto", faz-se o preparo anual e convencional do solo, com arações e gradagens, após a colheita e até um mês antes da semeadura e, antes desta, é realizada apenas a aplicação de herbicida para o controle de plantas daninhas, aumentando assim a quantidade de dias úteis para a semeadura.

Isto em decorrência de um rearranjamento do solo que ocorre em virtude das chuvas que favorecem os ciclos de umedecimento e secagem do solo e a formação de uma estrutura mais maciça, que permite a este um maior suporte de carga das máquinas. Assim, a semeadura do arroz pode iniciar antes, comparada ao solo revolvido imediatamente antes da semeadura, que é mais poroso e suporta menos carga, causando o patinamento das máquinas e inviabilizando a semeadura em condições de excesso de umidade do solo. Este fato é importante, pois nesta época do ano ocorrem chuvas torrenciais e frequentes e o solo permanece impróprio para semeadura vários dias após a chuva por serem terras baixas com pouca declividade e argila predominantemente 2:1, que dificulta a drenagem da água.

Segundo resultados do Irga (2013), o preparo convencional do solo com arações e gradagens, antes da semeadura, está diminuindo anualmente e está aumentando o sistema de cultivo mínimo que já é utilizado em 75% das lavouras. Porém, nesse sistema é necessário preparo prévio do solo com arações e gradagens e posterior construção das taipas para retenção da água na superfície do solo, demandando consumo elevado de combustíveis fósseis e de máquinas nessas operações, com danos também ao meio ambiente e redução da rentabilidade do produtor.

Estudos da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), desenvolvidos na Fazenda Fonte Rica, em Uruguaiana, utilizaram a tecnologia do cultivo de arroz irrigado por inundação em sistema de plantio direto (SPD). O sistema trouxe benefícios em economia de máquinas, preparo do solo e aumentou a rentabilidade dos produtores, pois não é necessário o preparo do solo e o remonte de taipas é inferior a 5% na área. A pesquisa, intitulada Estudo da viabilidade do sistema de plantio direto de arroz irrigado por inundação em terras baixas, é liderada pelo professor do curso de Agronomia do Campus Itaqui Amauri Beutler e tem a participação dos alunos Janete Munareto, Cleiton Ramão, Naimã Dias, Bruna Pozzebon, Priscila Ramos, Gerisson Munareto, Giovane Burg, Evandro Deak, Marcelo Schmidt e do engenheiro agrônomo Robson Giacomelli.

Os experimentos foram realizados em três locais da fazenda com diferentes tempos de cultivo de arroz antes do início da pesquisa. Durante as safras de 2009/2010, 2010/2011 e 2011/2012 foram estudados os sistemas de preparo convencional, técnica tradicional em que são feitas arações, gradagens, passagem de remaplan e entaipamento do solo para reter a água; cultivo mínimo, onde o preparo convencional do solo é realizado até um mês antes da semeadura e é realizada apenas a aplicação de herbicidas para controle de plantas daninhas; plantio direto, no qual a palha do arroz e de outros vegetais é mantida na superfície do solo e é passada a "tapadeira" para nivelar um pouco a superfície e acamar/incorporar suavemente a palha, que no momento da semeadura esteve em quantidades de até 8 toneladas/hectare, para posteriormente, se necessário, realizar remonte de taipa e semeadura do arroz.

Amauri Beutler: estudos na Unipampa com arroz em SPD trouxe benefícios em economia de máquinas, preparo do solo e aumentou a rentabilidade dos produtores, pois não é necessário o preparo do solo e o remonte de taipas é inferior a 5% na área

Com a utilização do SPD reduz-se drasticamente os custos de preparo do solo e construção das taipas para retenção de água, que representa uma economia de combustíveis e máquinas agrícolas sem que haja uma redução significativa na produtividade do arroz, aumentando a quantidade de dias úteis para a semeadura, o que permite a semeadura na época recomendada e a rentabilidade do produtor. Estudos indicam que o excesso de palha na superfície do solo, proveniente do cultivo de arroz do ano anterior não reduz significativamente a produtividade de arroz (tabela).

Em estudos desenvolvidos a partir da safra 2009/2010, cujos resultados já se encontram publicados em artigos científicos da área, foi verificada a viabilidade do cultivo de arroz irrigado por inundação em sistema plantio direto, mesmo sem cultivo de plantas no inverno. Isto visto que o arroz produz grande quantidade de palha, que pode ser até prejudicial quando em excesso, conforme mencionado por produtores de arroz, razão pela qual realizam o revolvimento do solo para acelerar a decomposição da palha e deixar o solo plano.

Dificuldades para utilização do SPD — O primeiro grande entrave para o cultivo de arroz irrigado por inundação em SPD em terras que permanecem úmidas/alagadas grande parte do ano é a elevada quantidade de palha que permanece na superfície do solo após o cultivo de arroz irrigado. Em alguns casos superior a dez toneladas por hectare de massa seca, a qual apresenta elevada relação C/N, tornando sua decomposição lenta. Assim, quando ocorre o alagamento do solo há a decomposição anaeróbica e liberação de ácidos orgânicos que podem prejudicar a germinação e o crescimento do arroz na fase inicial, com resultados prejudiciais pouco expressivos na produtividade de grãos, conforme resultados obtidos na safra 2009/10, 2010/11 (tabela), 2011/12, para várias cultivares de arroz, comparando sistemas de manejo com preparo convencional e sistema plantio direto.

Visando esclarecer melhor o efeito de quantidades de palha na superfície do solo, está sendo conduzido na Unipampa/ Campus Itaqui um experimento com quantidade de palha de zero até 40 toneladas por hectare, incorporadas ao solo, e outros tratamentos em que a palha é deixada na superfície do solo dois, um e zero meses antes da semeadura, cujos resultados visuais indicam pouca diferença entre tratamentos com e sem palha, indicando que o excesso de palha no solo não é justificativa para realização do revolvimento anual do solo em preparo convencional. Ao contrário, no SPD, além de diminuir os custos de produção do arroz, diminui a emissão de metano para a atmosfera, visto que o cultivo de arroz irrigado por inundação é responsável por altas emissões de metano (Irga, 2013), responsável pelo aquecimento global.

O segundo e principal entrave para não utilização do SPD é em relação à colheita do arroz que é realizada em condição de solo úmido/alagado, que, em alguns casos, gera sulcos, em função do tráfego de máquinas, destruindo taipas e deixando a superfície irregular para o cultivo da safra seguinte, sendo necessário o preparo convencional e a passagem de plaina remaplan para nivelar o solo e posterior construção das taipas. Diante deste cenário, estudos realizados durante três anos, na fazenda Fonte Rica, utilizaram uma tecnologia simples e barata. Inicialmente, a colheita deve ser realizada com solo mais seco possível, para diminuir a profundidade dos sulcos e o dano às taipas.

Na sequência, com o solo úmido, é realizada a passagem do equipamento rudimentar denominado "tapadeira", utilizado no passado para incorporar a semente de arroz ao solo, que consiste de anéis e "dentes" de cinco centímetros de altura, que é passado na superfície do solo após a colheita com um trator de baixa potência e com alto rendimento de área diário, sem causar danos as taipas, acamando e misturando suavemente a palha ao solo e deixando a superfície do solo plana e apta para a próxima semeadura. Na fazenda, esse sistema já é utilizado em sua plenitude e está sendo difundido pelos seus benefícios em economia de máquinas no preparo do solo e baixa necessidade de remonte de taipas da safra anterior, aumentando assim a rentabilidade ao produtor.

Metas para a utilização do SPD — Conforme visto acima, já há predomínio do sistema de manejo cultivo mínimo ("plantio direto") de arroz irrigado por inundação e está se ampliando a utilização do SPD, em virtude de seus benefícios, porém ainda é restrito (Irga, 2013). No entanto, há necessidade de mais estudos, visando à inclusão de plantas de cobertura no inverno e também no sentido de minimizar os efeitos nocivos dos sulcos na superfície do solo em consequência da colheita do arroz em solo muito úmido, ou uma forma de evitar o revolvimento intenso do solo que tem o objetivo corrigir as imperfeições e deixar o solo plano para a semeadura do arroz.