Desperdício

 

Esforço para reduzir o DESPERDÍCIO

Pesquisadores da Embrapa estudam maneiras de diminuir as perdas entre o campo e o mercado consumidor

Denise Saueressig
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O mesmo Brasil que produz em abundância e que, ano após ano, registra recordes nas safras colhidas também enfrenta sérios desafios para reduzir o grande desperdício de alimentos. As perdas ocorrem em diferentes momentos e por diversos motivos, sejam eles específicos ou estruturais. O problema é Divulgação ainda mais sério quando pensamos que o País ainda combate o drama da fome e da desnutrição entre os mais pobres.

Etapas como o manuseio, a embalagem, o transporte e a comercialização a granel são especialmente delicadas quando se trata de frutas e hortaliças. O pesquisador Antonio Gomes Soares, da Embrapa Agroindústria de Alimentos, lista uma série de razões que fazem com que o País enfrente esse tipo de gargalo. "Estamos em um ambiente tropical e pouco usamos a cadeia do frio nos sistemas de transporte e armazenamento. Também não há padronização na classificação, o transporte é ineficiente e existe um manuseio demasiado dos produtos no comércio. Basta olharmos as gôndolas dos supermercados e ver como, muitas vezes, há um acúmulo de alimentos que são apenas despejados nos locais de venda e que ainda são excessivamente tocados pelos consumidores", cita.

Pesquisador Antonio Soares, da Embrapa Agroindústria de Alimentos: trabalho inclui o desenvolvimento de embalagens diferenciadas para frutas

Uma pesquisa feita entre 1997 e 2000 na Ceasa (Central de Abastecimento) do Rio de Janeiro mostrou que o desperdício somava entre 10 e 12 toneladas de produtos hortifrutícolas diariamente. Entre as frutas, o maior índice, 40% de perdas, ficou com o morango e a banana. Entre os hortigranjeiros in natura, os prejuízos mais elevados foram na couve-flor, de 50%, e na alface, de 45%. "É difícil pensar que pessoas investem dinheiro para produzir um alimento que muitas vezes sequer chegará à mesa do consumidor. Enquanto isso, muita gente ainda enfrenta desnutrição, e o cenário é ainda pior considerando que frutas e hortaliças são ricas em vitaminas e sais minerais", frisa Soares.

Perdas pós-colheita de frutas e hortaliças
Campo – 10%
Manuseio e transporte – 50%
Centrais de abastecimento e comercialização – 30%
Supermercados e consumidores – 10%
Fonte: Embrapa Agroindústria de Alimentos

Na época do estudo, lembra o pesquisador, a produção dos principais frutos frescos comercializados no Brasil era de cerca de 17,7 milhões de toneladas ao ano. "A perda era, em média, de 30%, o que significava um total de 5,3 milhões de toneladas ao ano de produtos não consumidos e um prejuízo de US$ 2,2 bilhões para o País", salienta.

Entre as principais hortaliças frescas, nessa mesma época, a produção era de aproximadamente 16 milhões de toneladas, com índice de perdas de 35%, e um desperdício per capita maior do que o consumo no País. "Se o Brasil diminuir essas perdas, poderá aumentar a oferta aos consumidores sem ampliar a produção e, consequentemente, reduzir custos e preços, porque todos os segmentos trabalham com margens de perdas e computam isso como custo, aumentando os preços finais. Isso também acontece com os grãos e cereais. A diferença que o consumidor paga em relação ao que o produtor recebe é também a conta do desperdício", observa.

Soluções iniciam no campo — Conhecimento e tecnologia podem ajudar no processo de redução do desperdício no Brasil. As atitudes iniciam no campo, onde são computadas 10% das perdas de frutas e hortaliças. A colheita, por exemplo, deve ser feita sempre nas horas mais frescas do dia e nunca depois da chuva. A adequação do ponto de colheita deve estar relacionada ao mercado consumidor do produto. Logo depois, é importante o resfriamento, para aumentar a vida útil do alimento. "A maçã é um exemplo positivo que podemos destacar. Como o uso da tecnologia é mais elevado nessa cadeia, a vida útil da fruta pode ser ampliada em 10 ou 12 meses depois da colheita", aponta Soares.

Segundo o pesquisador, frutas como mamão, abacaxi e manga têm graves problemas com as perdas, especialmente quando a produção é gerada no clima quente do Nordeste e a logística de escoamento é mal conduzida para as outras regiões. "O País tem frutas de excelente qualidade, mas que, sem a gerência da cadeia do frio, perdem as suas características", acrescenta.

O trabalho da Embrapa para tentar reverter esse gargalo inclui a avaliação de soluções tecnológicas de baixo custo. Em simpósios, visitas técnicas e dias de campo realizados em diferentes regiões do Brasil, são convidados representantes de toda a cadeia, como produtores, empresas e especialistas de outras instituições de pesquisa. "Como ainda não podemos mudar a realidade das nossas estradas, precisamos atuar onde conseguimos. Mas é importante que todos sejam parte desse esforço, porque o Brasil é grande demais e os desafios são muitos", assinala o pesquisador.

Entre os pontos ressaltados pela Embrapa como necessários para modificar o atual quadro visto no País estão: reeducação e treinamento de todo o pessoal envolvido com pré e pós-colheita, visando à melhoria na manipulação dos produtos, padronização na seleção e classificação dos mesmos; melhoria nos meios de transporte dos alimentos; maior integração entre varejistas, atacadistas e produtores para agilizar as informações sobre a qualidade do produto e permitir intervenções de ajuste mais rápidas e precisas; desenvolvimento de subprodutos industrializados que possam encontrar nichos de mercado e permitir um melhor aproveitamento dos frutos; e o estabelecimento de um critério nacional para a classificação de produtos hortifrutícolas que atendam à realidade do comércio atacadista e varejista.

Uma das ações da empresa é realizada junto a produtores, supermercadistas e à Ceasa do Rio de janeiro. Na região serrana do estado, a Embrapa Agroindústria de Alimentos mantém projetos desde 2005 com diferentes parceiros. Um dos principais focos das atividades na região é o desenvolvimento de embalagens diferenciadas para frutas de maior valor agregado, como morango, caqui e mamão. "O que percebemos hoje no Brasil é o frequente uso das caixas de madeira, o que é muito preocupante pelos riscos de contaminação inerentes ao material e pelas perdas qualitativas e quantitativas que ocorrem seguidamente", relata Soares. Na opinião do pesquisador, é preciso padronizar as dimensões da embalagem de acordo com o tamanho e o peso do produto, assim como a adequação quanto à matéria- prima da sua confecção e sua estrutura para proteção dos alimentos que serão acondicionados.