Meio Ambiente

Produção em HARMONIA com a natureza

Pesquisadores trabalham para aumentar a oferta de alimentos com preservação dos recursos naturais. A Embrapa desenvolve uma série de estudos voltados ao meio ambiente

Denise Saueressig
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Com a natureza em desequilíbrio, é impossível ampliar a oferta de alimentos tão necessária em tempos de crescimento populacional. E para manter em harmonia a produção e o meio ambiente, a pesquisa trabalha em soluções que promovam o aumento da produtividade com a conservação dos recursos naturais. Houve um grande avanço no tratamento da questão ambiental nos últimos anos, analisa o pesquisador Eduardo Delgado Assad, da Embrapa Informática Agropecuária. "A Embrapa nasceu em meio à ditadura, quando a orientação era desbravar as terras do Cerrado, ou seja, o desmatamento era natural para expandir uma área que não tinha o seu potencial conhecido até então", observa.

Com o aumento surpreendente da produção e a tecnologia tropical dominada, o questionamento a respeito da abertura de novas áreas passou a ter maior relevância a partir da metade dos anos 1990. Debates sobre temas como as áreas de preservação permanente, biodiversidade e conservação da água e do solo se tornaram exigências. "Hoje não se discute agricultura sem colocar na pauta o meio ambiente. E, no médio prazo, a agricultura é o único setor da economia capaz de reduzir as emissões de gases do efeito estufa", ressalta Assad.

Em 2010, a Embrapa participou como protagonista da elaboração do Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura – Plano ABC. A ação liderada pelo Ministério da Agricultura surgiu como parte do compromisso assumido pelo Brasil diante de outros países na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP 15), em 2009, na Dinamarca.

Pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa Informática Agropecuária: hoje não se discute agricultura sem colocar em pauta o meio ambiente

O Governo brasileiro se comprometeu a reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa entre 36,1% e 38,9% até 2020. Entre as ações propostas estão a diminuição em 80% da taxa de desmatamento na Amazônia e em 40% no Cerrado, a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, a ampliação do plantio direto em 8 milhões de hectares, a expansão da área de florestas plantadas para produção de madeira, fibras e celulose para 9 milhões de hectares, o aumento da área com integração lavoura-pecuáriafloresta (ILPF), a ampliação do uso da fixação biológica de nitrogênio e o maior tratamento dos dejetos animais para a geração de energia.

Para viabilizar essas metas, foi criada a linha de crédito Programa ABC. Por meio dela, produtores rurais podem contratar financiamentos com juros de 5% ao ano para projetos que envolvam as propostas do plano. Entre 2010 e 2013 foram firmados mais de 17 mil contratos e, para a safra 2013/2014, estão previstos R$ 4,5 bilhões em recursos por meio do programa. "Há um aumento na demanda, mas achamos que pode ficar ainda melhor. O desafio, no entanto, é fortalecer a extensão rural para que as tecnologias sejam incorporadas de maneira correta no campo", assinala o pesquisador.

Intensificação sustentável — Com as diferentes linhas de ação, a pesquisa trabalha a temática ambiental em duas frentes. Uma leva em conta a relevância da mitigação das causas do aquecimento global. Já a outra considera a necessidade de adaptação às mudanças que já ocorreram no clima. Nessa linha, podem ser citadas tecnologias como novas plantas mais tolerantes a estresses climáticos e modificações nos próprios sistemas produtivos. "Existem trabalhos importantes relacionados ao café e a culturas da Região Nordeste, onde o potencial da biodiversidade precisa ser explorado comercialmente para gerar renda. É o caso das cadeias produtivas de plantas como o umbu, o cajá e o angico", enumera Assad.

Entre 1993 e 2006 o pesquisador foi coordenador técnico do Zoneamento Agrícola de Riscos Climáticos do Ministério da Agricultura, metodologia validada pela Embrapa para orientar o cultivo de 44 produtos em todas as regiões do País. Com as indicações do zoneamento, que consideram época de plantio em diferentes tipos de solo e ciclo de cultivares, o risco aos produtores é reduzido a 20% e o acesso ao crédito e ao seguro rural, facilitados.

Se por um lado o debate entre ambientalistas e produtores se tornou mais forte nos últimos anos, por outro está cada vez mais clara a constatação de que o Brasil reúne as condições necessárias para conciliar preservação com mais produção, considera o chefe geral da Embrapa Meio Ambiente, Celso Manzatto. Na opinião dele, o conhecimento gerado nas instituições de pesquisa vem colaborando para que o País alcance o equilíbrio tão necessário nesse tema. "A solução é a intensificação produtiva sustentável, que faz com que seja possível, por exemplo, elevar os índices de rendimento das lavouras sem a prática do desmatamento", conclui.

Para alcançar os objetivos propostos para o País, agricultura e pecuária devem atuar juntas, na opinião do pesquisador. "A criação de gado precisa trabalhar com grande atenção o melhoramento das pastagens, a genética dos animais e a própria integração com grãos ou florestas. É a intensificação da pecuária vai ajudar na intensificação da agricultura", frisa. Entre os estudos da Embrapa voltados ao meio ambiente estão simulações a respeito do que pode ocorrer no futuro a partir das mudanças climáticas, a intensificação do surgimento de pragas e doenças, o efeito do estresse hídrico nas plantas, o uso sustentável da água e as práticas conservacionistas que podem ajudar a reverter uma série de problemas. "Os desafios são grandes e inerentes a um País de ambiente tropical e grande exportador de alimentos", salienta Manzatto.

Pesquisador Celso Manzatto, da Embrapa Meio Ambiente: agricultura e pecuária devem atuar juntas na intensificação produtiva sustentável