Depoimentos V

FORTALECER a Embrapa para vencer a concorrência

Cesario Ramalho da Silva, presidente da Sociedade Rural Brasileira

Nos últimos 40 anos, o agro brasileiro obteve extraordinários ganhos de produtividade. Graças às pesquisas científicas que resultaram no domínio da tecnologia de produção agropecuária nos trópicos, o Brasil deixou de ser importador para ser protagonista na produção e na exportação de alimentos, fibras, agroenergia e tantos outros.

A área plantada no País dobrou, mas a produção de grãos cresceu cinco vezes nas últimas quatro décadas, rompendo a casa das 180 milhões de toneladas. Se tivéssemos mantido a mesma produtividade, precisaríamos de mais 100 milhões de hectares para produzir o que produzimos em cerca de 50 milhões de hectares.

Toda essa grandeza coincide com a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), 40 anos atrás. Criada em 26 de abril de 1973, a instituição tornou-se o maior agente de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para geração de tecnologia de ponta para o agro. São feitos da Embrapa o melhoramento genético, gerando cultivares específicos para cada região; a transformação das terras pobres do Cerrado em solos férteis; rotação de culturas, técnicas para recuperação e manejo de pastagens e controle de pragas e doenças; novos processos de adubação, como a fixação biológica de nitrogênio; pesquisas em sanidade animal, reprodução, nutrição, entre outras inovações.

No entanto, o jogo agrícola internacional é dinâmico, e o Brasil tem de investir muito mais em pesquisa para que concorrentes não revertam a situação.

O aparelhamento político em curso no Ministério da Agricultura (Mapa), que vem esvaziando a bagagem técnica da pasta – sem lhe dar calibre político –, precisa ser estancado antes que se propague e atinja a Embrapa, trazendo prejuízos ao agro e, consequentemente, ao País. Como sabiamente disse um dos seus mais respeitáveis pesquisadores, Evaristo de Miranda, a estatal trabalha para o consumidor, que se beneficia de tudo o que é proporcionado pelo agro. Aumento populacional e maior longevidade, incremento de renda e consumo crescente são os vetores do avanço contínuo da demanda mundial por produtos agropecuários, num quadro em que a oferta não acompanha. Diante disso, o agro terá de acentuar sua produção verticalmente (mais produtividade), tendo como chave de evolução a tecnologia e as suas mais diversas ferramentas, com destaque para a biotecnologia, a nanotecnologia e a genômica.

Assim, o agro do Brasil precisa de uma retaguarda estratégica ancorada em mais investimentos em ciências agrárias, o que passa neste momento pela blindagem e pela proteção do nosso maior patrimônio nessa área, a Embrapa.