Depoimentos IV

Embrapa transformou o Centro-Oeste num MARACANÃ

Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, ex-ministro da Agricultura

Sou de um tempo em que os agricultores paulistas, acostumados a derrubar mato para plantar café, diziam: "Cerrado, nem dado e nem herdado"... O desprezo para com os solos pobres e pouco argilosos dos cerrados do Sudeste brasileiro era tamanho que os velhos proprietários se negavam até mesmo a aceitar convites de corretores para verem fazendas nestas regiões.

Hoje, o cerrado do Centro-Oeste brasileiro é o Maracanã onde será jogada a partida final da Copa do Mundo da Segurança Alimentar e Energética, cujo troféu, se o Brasil tiver juízo, será levantado por nossos produtores rurais. E isso se deve em grande parte à Embrapa. É bem verdade que os cientistas do Instituto Agronômico, de Campinas/SP, muitas vezes acompanhados por professores da Luiz de Queiroz, já vinham estudando os cerrados e os campos paulistas, terras muitos pobres e ácidas em que a barba de bode imperava, bem como a típica palmeirinha chamada indaiá, padrão de terra ruim. E o uso do calcário para corrigir a acidez era prática recomendada.

Mas o grande avanço sobre o cerrado foi determinado pela Embrapa, através do CPAC.

Este espetacular trabalho se deveu ao espírito pioneiro de seus primeiros líderes. Criada por Luís Fernando Cirne Lima, gaúcho de uma coragem que até hoje entusiasma os produtores rurais do País, e instalada por Alysson Paolinelli, mineiro visionário a quem o Brasil jamais pagará o que deve, pai da moderna agropecuária brasileira, a Embrapa teve a sorte de contar, nos seus primórdios, com homens extraordinários, como José Irineu Cabral, Eliseu Alves, Edmundo Gastal e Roberto Miranda, que tomaram uma medida notável: mandaram centenas de jovens recém contratados para o exterior, para buscar conhecimento teórico em todas as áreas científicas.

E mais notável ainda foi o que fizeram quando estes jovens, já mestres e doutores, voltaram ao Brasil com as cabeças cheias de projetos sobre avanços tecnológicos: recém-chegados, supermotivados, eles receberam dos dirigentes da Embrapa a missão definitiva, a de "tropicalizar" a ciência, transformar em tecnologias aplicadas aos nossos trópicos tudo o que haviam aprendido lá fora. Eis o grande passo dado pela instituição, sob a batuta dos velhos mestres de então.

Depois, foi fácil. Os centros especializados criados em todo o território nacional receberam esses cérebros treinados e "tropicalizados", e os saltos foram naturais. Não apenas no cerrado, mas em todas as regiões produtoras ou que poderiam sê-lo se bem tratadas. E o resultado se traduz nos recordes sucessivos de nossas safras, ano após ano. E a saga continua!